Segundo dia de Volta a França, segundo dia a mostrar que o que parece muitas vezes não é. Havia subidas nos dez últimos quilómetros, certo, mas seria complicado antever tanta emoção como aquela que se viu na chegada a Boulogne-sur-Mer numa etapa que começou com condições complicadas entre a chuva que levou a algumas quedas e o vento pelas costas quando se chegou a uma parte mais costeira do traçado. No final, a camisola amarela mudou mas ficou na mesma equipa, com Jasper Philipsen a fazer a festa com Mathieu van der Poel depois de uma tirada que acabou com o neerlandês a bater Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard e com João Almeida a superar um “corte” no início da subida para ajudar o seu chefe de fila.

João aguentou tudo até ao ataque de van der Poel: Visma ganha etapa, Pogacar faz segundo à frente de Vingegaard

“Foi uma etapa super agitada. A duas subidas do fim, perdi a posição. Foi supercaótico, depois foi impossível passar porque a estrada está cheia de gente. Consegui voltar e ajudar mas não fiz exatamente o que queria fazer. Acho que se estivesse mais para a frente, talvez pudesse ajudar o Jhonatan Narváez naquele momento a puxar. Acho que podíamos ter tornado a corrida ainda mais competitiva. Queríamos controlar a situação e tentar ganhar a etapa. Claro que estava muito vento e é muito difícil ir sozinho nestas estradas mas acho que não correu assim tão mal”, apontou o português depois da segunda etapa que permitiu subir 47 posições para o 13.º lugar a 49 segundos da amarela de Mathieu van der Poel a par de Remco ou Roglic.

“Foi uma etapa ótima, com tudo: chuva, stress, agitação, perigo, subidas curtas como temos numa clássica. Senti-me bem no final, como equipa também rodámos muito bem. O Mathieu [van der Poel] estava mais forte, parabéns para ele. Estou feliz com o meu segundo lugar. É difícil derrotar o Mathieu ao sprint mas também errei um pouco, provavelmente estava com um pouco de receio de ir ao confronto com ele, esperei um pouco mais do que devia e ele foi mais rápido. Camisola da montanha? Ganhei duas vezes na carreira mas só usei uma vez em seis edições do Tour. Agora vai ser o meu segundo dia com a camisola das bolinhas, as pessoas adoram e é uma sensação especial tê-la”, comentou também Pogacar após a etapa.

Se as coisas não correram da melhor forma à UAE Team Emirates mas havia muitos elogios à prestação da equipa que só não conseguiu a vitória na etapa, a situação na Visma-Lease a Bike era diferente apesar do bom trabalho de Jorgensen para Vingegaard que acabou por não ter resultados práticos. De uma forma quase paralela nasceu o primeiro “caso”, com a mulher do chefe de fila dinamarquês a criticar a pressão colocada pela equipa. “Conhecendo o Jonas, diria que a equipa o está a pressionar demasiado. Receio que ele esteja a exagerar no esforço. Por vezes esquece-se o ser humano por trás do atleta. O tiro pode sair-lhes pela culatra. Ele não recarrega energias em campos de treinos de três semanas em altitude e precisa de estar em casa para se sentir ele próprio. É apegado às suas rotinas, precisa de se recompor num ambiente mais tranquilo. Essa é uma grande parte do seu sucesso”, referiu Trine Vingegaard Hansen ao Politiken.

Com um traçado mais para rolar na terceira etapa entre Valenciennes e Dunquerque, tudo parecia servir para ser assunto mas o próprio chefe de fila da Visma acabou por relativizar essas considerações sem falar de forma direta das mesmas, referindo que talvez no passado tivesse acabado uma etapa com a de domingo na décima posição e que foi sentir-se melhor e com maior explosão que tentou também atacar antes de terminar no terceiro lugar. A luta com Pogacar seria titânica e disputada também nas bonificações mas o dinamarquês não se sentia atrás do esloveno neste arranque de Tour a bater vários recordes de audiências.

A saída de Valenciennes voltou a ser marcada pela chuva, com as informações do Tour a apontarem para uma precipitação que seria dissipada com o passar dos quilómetros mas com um vento norte com tendência para ir aumentando. Entre o equilíbrio esperado, tudo era analisado ao pormenor por Mauro Guianetti, diretor da UAE Team Emirates que dizia ser impossível apontar para uma etapa chave depois do que se viu nas duas tiradas iniciais. “Bastou um corte com o vento e foram logo 40 segundos de diferença… Dia mais importante é sempre o próximo, temos de pensar assim”, apontou numa curta entrevista à Marca, onde explicou também que os sinais deixados por Pogacar no Critério du Dauphiné, onde mostrou ser superior a Vingegaard, pode fazer com que a estratégia da Visma-Lease a Bike promova ataques onde menos se espera.

Todos os cuidados eram poucos numa etapa que começou com algumas tentativas de fuga que acabaram por ser neutralizadas logo numa fase inicial, o que fez com que o ritmo não fosse tão intenso quase como se fosse feito um acordo tácito para recuperar algumas energias depois de um arranque a todo o gás. A Alpecin e a Soudal lideravam o pelotão, a velocidade aumentava de forma ligeira e metade da etapa estava ultrapassada sem qualquer apontamento de interesse a registar. Foi preciso esperar até ao sprint intermédio que dava a pontuação máxima para haver movimentações, neste caso com aquelas que ninguém gosta de assistir: numa fase em que um corredor de Intermarché começava a tentar preparar a saída de Girmay, um desequilíbrio fez com que Philipsen fosse tocado e fosse de cara ao chão, ficando agarrado depois ao braço com o equipamento todo rasgado. Bryan Coquard foi criticado por outros corredores, Jonathan Milan ganhou de forma isolada, a notícia acabou por ser mesmo o abandono do Alpecin que teve a amarela na estreia.

Mais uma vez, a notícia voltava a ser a enorme tensão que se vivia no pelotão quando chegavam os momentos decisivos a pontuar, algo que já se tinha visto na primeira etapa na queda que levou Mattéo Vercher e Ben Thomas e na segunda tirada num sprint intermédio que acabou com Milan a esbracejar com Girmay. De uma forma inesperada, a Alpecin perdia uma das cartas mais fortes para conseguir algo que não acontecia há quase 100 anos, com três vitórias consecutivas no arranque do Tour. Ainda havia Kaden Groves mas a queda de Philipsen foi um golpe duro para uma Alpecin com um plano perfeito nos primeiros dias em França. Voltava a “monotonia” na corrida, com essa preocupação com o estado do corredor belga.

Ainda assim, havia capítulos por escrever. Neste caso, capítulos que ninguém estava à espera: a cerca de 35 quilómetros da meta, Tim Wellens, da UAE Team Emirates, saiu do pelotão para ganhar um minuto e meio de vantagem e ganhar o ponto para a classificação da montanha, passando a andar com a camisola que era de Pogacar desde o dia anterior. Várias teorias começaram a levantar-se. A possibilidade de Pogacar arrancar e tentar ganhar ali margem rapidamente caiu, a hipótese de ser uma tentativa de demonstração de força para mostrar aos rivais também e sobrou a ideia de que passar a camisola da montanha para o belga permitiria ao chefe de fila não andar nos habituais momentos de pódio para ter mais descanso. Uma coisa é certa: até nos pormenores se percebe que esta edição do Tour de 2025 será decidida em todos os detalhes.

Só mesmo nos quilómetros finais começaria a haver movimentações para colocar as principais unidades na frente para discutir a vitória na etapa, notando-se não só um aumento de velocidade como um alongamento do pelotão como ainda não se tinha visto até aí. Em dois momentos distintos, mais quedas: primeiro na zona entre os corredores que iam trabalhar para o sprint e os outros que seguiam mais atrás, que levou também o próprio Remco Evenepoel ao chão ainda que sem grandes consequências aparentes, e depois na última curva antes da reta final, aí com uma maior gravidade perante o local e a velocidade a que aconteceu. Tim Merlier acabou por bater Jonathan Milan para a vitória, Kaden Groves ficou preso apesar do grande trabalho feito por Mathieu van der Poel e não deu a terceira vitória à Alpecin mas a imagem que sobrou do final da terceira etapa foi novamente a tensão e o stress que se vive no pelotão quando chega a hora das decisões…

Na classificação geral, e apesar de manter a mesma distância de 49 segundos para a liderança, João Almeida desceu a 15.º por conta da 101.ª posição na etapa, numa clara tentativa de fuga a qualquer tipo de problema ou queda numa chegada atribulada. Mathieu van der Poel (Alpecin) manteve a camisola amarela com quatro segundos de avanço sobre Tadej Pogacar e seis de Jonas Vingegaard. O top 10 tem ainda Kévin Vauquelin (Arkéa, 10”), Matteo Jorgensen (Visma, 10”), Enric Mas (Movistar, 10”), Joseph Blackmore (Israel, 41”), Tobias Johannessen (Uno-X, 41”), Ben O’Connor (Jayco, 41”) e Emmanuel Buchmann (Cofidis, 49”). Remco Evenepoel (21.º) e Primoz Roglic (23.º) também desceram mas com o mesmo atraso.