Uma etapa, uma única cidade, uma velocidade arrasadora de um pelotão sedento de mostrar que tem pernas para as três semanas da Volta a França, um pormenor que fez toda a diferença, um aviso que ficou para tudo o resto. Jasper Philipsen conseguiu vencer ao sprint Biniam Girmay e Sören Waerenskjold aproveitando a melhor colocação no momento chave do arranque mas a primeira etapa esteve muito longe de se cingir ao triunfo do belga da Alpecin, com as primeiras mexidas e “cortes” entre os principais favoritos.

A mudança de treinador, o aumento da explosão e uma temporada de sonho: o melhor João Almeida pode chegar ao pódio do Tour?

Razão? Uma rajada de vento. Quando tudo apontava para uma etapa a um ritmo altíssimo mas incapaz de fazer grandes diferenças na classificação geral, já depois da aparatosa de Mattéo Vercher e Ben Thomas quando estavam na luta pelos pontos da camisola da montanha e não conseguiram controlar a bicicleta após a alteração de piso, o pelotão sofreu um corte numa fase de maior vento e não mais os dois grupos voltaram a ficar juntos. Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard, líderes da UAE Team Emirates e da Visma-Lease a Bike, estavam bem colocados e passaram na frente, outros como Remco Evenepoel, Primoz Roglic ou João Almeida, entre outros, não conseguiram apanhar o comboio e perderam logo 39 segundos para a frente.

E tudo o vento começou por levar: Philipsen vence etapa acidentada, com Pogacar e Vingegaard a ganharem tempo a todos (incluindo Almeida)

“Já estávamos a prever que ia ser uma etapa com bastante vento e havia a possibilidade de haver cortes. Foi um dia muito stressante mas pronto chegámos sãos e salvos à meta. Havia vento lateral mas alcançámos o objetivo do dia que era colocar o Tadej no primeiro grupo. Depois, chegámos são e salvos. Portanto, foi mais um dia no escritório. Foi como estava planeado, também não houve quedas do nosso lado. Chegámos todos bem, é importante, agora é preparar-nos para o dia de amanhã [domingo]”, comentou o corredor português após a primeira tirada do Tour em Lille, antes de projetar também os próximos dias.

“Principal preocupação da primeira semana? Não sofrer quedas porque com etapas muito planas, há muito stress. Portanto, temos de estar com o dobro da atenção e tentar salvar os dias todos. Damos o nosso melhor. Temos noção da nossa força. Portanto, é tudo uma questão de fazermos o nosso trabalho corretamente e darmos o nosso melhor. Nervosismo? Não, sinceramente, é igual. Já são alguns anos neste mundo. O nível já é super alto, portanto é quase como se fosse só mais uma corrida”, acrescentou à sua assessoria.

Seguia-se a tirada mais longa desta edição de 2025, com quase 210 quilómetros de ligação entre Lauwin-Planque e Boulougne-sur-Mer, e logo com mais um daqueles avisos à chegada, com a chuva a deixar outro aviso ao pelotão para todas as dificuldades que poderiam surgir ao longo do dia (e com esse pequeno atraso em relação à hora prevista para a partida). “A chuva está mais agressiva nesta altura na saída de Lauwin-Planque. Ao longo do dia, haverá precipitações intermitentes. O vento deverá soprar de frente e com uma intensidade moderada até chegar à costa, a uns 50 quilómetros da meta, onde passará a estar mais de costas e com maior força”, avisava a organização na antecâmara de uma saída que estava a ser tudo menos calma.

Outra prova? Aquilo que aconteceu com o pequeno grupo que começou a primeira fuga do dia. Bruno Armirail (Decathlon-Ag2r), Brent van Moer (Lotto), Yevgeni Fedorov (XDS-Astana) e Andreas Leknessund (Uno-X) conseguiram sair do pelotão, cravaram uma boa diferença mas os dois últimos acabaram por sofrer uma queda, o que fez com que tivessem de aumentar o ritmo para voltarem a colar na frente com mais de dois minutos e meio de vantagem. No pelotão, havia sinais de preocupação: Ben O’Connor, líder da Jayco que teve uma queda muito feia na etapa inicial, encostava no carro médico com problemas por essas mazelas. Mais tarde, nova queda agora no pelotão com alguns nomes de segunda linha envolvidos… e mais problemas.

A 90 quilómetros da meta, a distância do pelotão para a fuga mantinha-se nos 2.15 minutos, sem fôlego na frente para forçar mais e sem necessidade atrás de aumentar de imediato o ritmo. No entanto, começava a notar-se uma maior tensão entre o grupo principal pelo aumento do vento. O atraso para a fuga começava a cair de forma gradual (um minuto e meio a 70 quilómetros da meta) mas eram as rajadas nas costas que provocavam alguns abanões que preocupavam as principais equipas, sempre organizadas e com a lição estudada da véspera tendo a Alpecin como grande líder na frente para tirar distância aos da frente. A pouco mais de 50 quilómetros, a fuga foi anulada para a disputa do sprint intermédio, com Jonathan Milan (Lidl-Trek) a ser mais forte do que nomes como Tim Merlier, Biniam Girmay, Philipsen e Anthony Turgis.

Apesar do problema mecânico de Adam Yates, que teve de trocar de bicicleta, os últimos 40 quilómetros tinham o pelotão junto, com a Emirates, a Visma e a Red Bull a comandar as operações. Começavam nessa fase as movimentações possíveis para o dia, com Wout van Aert a querer chegar-se à frente perante a reação imediata de Remco Evenepoel e Narváez com Pogacar e daí nasceu mesmo um corte, desta feita com João Almeida a ficar no grupo da frente e Jonathan Milan ou Geraint Thomas a caírem mais atrás ainda que sem grande aparato. Alguns ainda conseguiram colar à frente, outros acabaram por ceder e os quilómetros finais chegavam com o desenho de uma chegada que poderia trazer mexidas nos últimos 10.000 metros.

As subidas chegavam, o ritmo aumentava, Pogacar conseguia a melhor colocação para estar a controlar os acontecimentos e só faltava mais espaço para sair um ataque para a vitória. Jorgensen foi o primeiro a fazer esse esboço, Pogacar respondeu, Vingegaard e Remco seguiram o esloveno e houve mais um corte que agora deixou Almeida ligeiramente para trás, a arriscar perder mais tempo caso o grupo da frente acelerasse mais uma vez neste caso a descer. Os três grandes candidatos, que fecharam no top 3 da última edição do Tour, continuavam na frente mas em estudo mútuo, com João Almeida a vir para a frente para defender o seu líder na perseguição aos ataques que iam surgindo antes da subida final e do explosivo ataque de van der Poel, que foi mais forte nos derradeiros metros e bateu Tadej Pogacar que vinha lançado de trás.

Contas feitas, Mathieu van der Poel (Alpecin) conseguiu não só ganhar a etapa mas também a camisola amarela da geral, tendo quatro segundos de avanço sobre Tadej Pogacar e seis de Jonas Vingegaard. O top 10 tem ainda Kévin Vauquelin (Arkéa, 10”), Matteo Jorgensen (Visma, 10”), Enric Mas (Movistar, 10”), Jasper Philipsen (Alpecin, 31”), Joseph Blackmore (Israel, 41”), Tobias Johannessen (Uno-X, 41”) e Ben O’Connor (Jayco, 41”). João Almeida subiu 47 lugares, ocupando a 13.ª posição a 49 segundos à frente de Remco Evenepoel, líder da Soudal Quick-Step (18.º, 49”), e de Primoz Roglic, líder da Red Bull (21.º, 49”).