Um mero posicionamento pode ter deitado tudo a perder. Com pouco mais de seis quilómetros por percorrer em direção ao Mûr-de-Bretagne, João Almeida (UAE Team Emirates-XRG) apareceu na retaguarda do pelotão, numa altura em que os líderes e os candidatos tentavam posicionar-se mais à frente. Na habitual fase de incerteza e nervosismo, a rápida descida acabou por ser prejudicial às aspirações do português, que caiu, levou consigo quase uma dezena de outros corredores e perdeu mais de dez minutos. Resultado? Uma fratura numa costela, dores num dedo da mão esquerda e várias escoriações. Apesar da preocupação, Almeida deverá continuar em prova.

O bis de Tadej em tons amarelos e o azar de João: Pogacar vence no Mûr-de-Bretagne e volta à liderança, Almeida caiu e perdeu dez minutos

A queda do Bota Lume levantou desde logo os alarmes no seio da Emirates, com Tadej Pogacar a apressar-se para saber o estado físico do seu principal escudeiro e a dedicar-lhe de imediato a sua segunda vitória neste Tour. Só depois de ter sido submetido a uma série de exames e raio-x, é que Adriano Rotunno, diretor médico da equipa, confirmou a sua análise clínica. “O João sofreu uma queda forte na final da etapa hoje [sexta-feira]. Felizmente, não houve ferimentos graves e ele conseguiu terminar a etapa. Foi confirmado que ele tem uma fratura da costela esquerda sem complicações, além de algumas escoriações profundas no corpo. Felizmente, nenhuma concussão. Vamos monitorizá-lo atentamente daqui para frente. Os próximos dias serão difíceis para ele, mas ele deve estar apto a começar a etapa de amanhã [sábado]”, disse o médico, citado pela Emirates.

Para Sven Vanthourenhout, antigo ciclista e selecionador belga, a queda terá sido provocada por um pneu furado na bicicleta do português. Apesar de as imagens serem escassas e praticamente inconclusivas, o dirigente disse, no programa Vive le Vélo, que se consegue ver o fluído a escapar do pneu tubeless. “É terrível, não é? Quando se vê as lesões que eles sofrem, as consequências também não são insignificantes para o Almeida. Isto realmente não deveria acontecer”, sublinhou, numa versão corroborada pelo apresentador: “Dá para ouvir o impacto e até acho que foi o Almeida quem causou a queda”.

Já durante a manhã deste sábado, Mauro Gianetti, diretor desportivo da Emirates, confirmou que João Almeida estava apto para continuar a sua segunda prestação na Volta a França. “O João teve uma boa noite. Felizmente não sofreu nenhuma lesão grave nem teve uma concussão. Ele já estava a sorrir de novo ao pequeno almoço. Ele está motivado e vai começar. O João é um lutador. É um ciclista fantástico que está a ter uma ótima temporada. O João é obviamente um ciclista muito importante para a nossa equipa e para o Tadej. Ele agora pode precisar de dois dias para se recuperar, mas ficará bem”, disse o italiano ao portal WielerFlits, antes da partida.

Curiosamente, o ciclista de A dos Francos foi eleito pela organização, durante a manhã deste sábado, o melhor gregário das seis primeiras etapas, numa votação que decorreu nas redes sociais. Ao cabo de sete etapas explosivas, os sprinters voltavam a ter a sua oportunidade, numa etapa praticamente plana a ligar Saint-Méen-le-Grand a Laval, com 171,4 quilómetros. Ainda assim, o vento lateral e o final técnico e ligeiramente inclinado, prometia dificultar a tarefa aos homens mais rápidos do pelotão.

Quem começou por ter uma missão complicada foi, precisamente, João Almeida, que, ainda antes da partida real, apresentou algumas dificuldades em encontrar o seu ritmo e uma posição confortável na bicicleta. Ainda assim, o ritmo baixo na primeira hora (menos de 42 quilómetros), acabou por beneficiá-lo.

Só nos últimos 80 quilómetros se registaram ataques, com os TotalEnergies Mathieu Burgaudeau e Mattéo Vercher a tentarem ficar na frente, já depois de Jonathan Milan (Lidl-Trek) ter vencido o sprint intermédio. A 47 quilómetros do fim, Marc Soler (Emirates) caiu, teve de trocar de bicicleta, mas acabou por reentrar no pelotão.

Mais à frente foi a vez de Jonas Rutsch (Intermarché-Wanty) e Einer Rubio (Movistar) irem ao chão. Nos últimos 13 quilómetros foi a vez de Tim Merlier (Soudal Quick-Step) furar e complicar a discussão da etapa, com Krists Neilands (Israel-Premier Tech) a cair numa rotunda e Paul Penhoët (Groupama-FDJ) também a furar.

Já com Merlier no grupo e a fuga anulada, a Alpecin-Deceuninck acelerou o ritmo e, no último quilómetro, Kaden Groves (Alpecin) lançou o sprint, mas a explosão de Milan traduziu-se na sua tão procurada vitória no Tour, depois de já ter somado quatro vitórias no Giro. Wout van Aert (Visma) ficou em segundo, com Groves em terceiro.

Com este triunfo, o italiano voltou a “roubar” a camisola verde a Tadej Pogacar, tendo agora 36 pontos de vantagem para o esloveno que vai partir para a penúltima etapa desta primeira semana com 54 segundos de vantagem para Remco Evenepoel (Soudal) e 1.11 minutos para Kévin Vauquelin (Arkéa-B&B Hotels). Depois de ter perdido o contacto a dez quilómetros da chegada, João Almeida superou com sucesso a primeira batalha contra o seu corpo, chegando a 6.42 de Milan e caiu para 37.º lugar na geral, a 19.03 de Pogacar.