Depois do contrarrelógio, a sexta etapa da Volta a França serviu de transição. Os corredores despediram-se da Normandia e rumaram para a zona oeste do território francês, ao passo que a tática da UAE Team Emirates-XRG passava por “entregar” a camisola amarela a Mathieu van der Poel (Alpecin-Deceuninck), algo que acabou por acontecer por… um segundo. Para além disso, fruto do atraso de Jonas Vingegaard no contrarrelógio, a Visma-Lease a Bike tinha que se lançar ao ataque para tentar enfraquecer a Emirates e colocou Simon Yates na fuga. No final, também Matteo Jorgenson tentou fazer diferenças, mas Tadej Pogacar reagiu bem. Ben Healy (EF Education-EasyPost) foi o grande vencedor da jornada e entrou diretamente no top 10.

Um dia de transição para todos, menos para o irishman: Healy vence 6.ª etapa, Pogacar “cede” liderança a Van der Poel e João continua em 7.º

Apesar da aparente calma, o final da etapa foi marcado por trocas de acusações, com Pogacar a criticar a estratégia da Visma na parte final da sexta etapa. “Eles estão atrás, mas o que fizeram hoje não fez sentido. Não sei qual tática é que eles usaram. Dois corredores na fuga [Yates e Victor Campenaerts] é um desperdício de energia, no meu ponto de vista. Correr assim nas duas últimas subidas não fez sentido.Talvez o Matteo Jorgenson estivesse à espera do segundo lugar ou algo assim. Talvez eles tenham ouvido que Van der Poel estava com problemas e tentaram fazer com que eu ficasse com a camisa amarela aumentando o ritmo”, assumiu o antigo líder, visivelmente perturbado, à imprensa eslovena.

“Qual era o plano? Ainda bem que ele não entendeu. Estamos a seguir as nossas próprias táticas e fizemos exatamente o que queríamos. Ponto final. Queríamos que ele continuasse de amarelo? De forma alguma. Ouvi dizer isso, mas acho que a própria Emirates controlou até aos últimos seis quilómetros e assumimos a liderança. Depois disso, eles também decidiram que Pogacar ia continuar com a camisola amarela. O que acho das críticas? Acho que é um elogio. Começou desde o primeiro dia”, respondeu Grischa Niermann, diretor desportiva da Visma. Já Tiesj Benoot considerou que o rival “está confuso”. “Não, nunca conversámos sobre manter o Tadej de amarelo. O facto de ele quase ter mantido a camisola amarela foi porque eles não deram vantagem suficiente a Van der Poel”, sublinhou o ciclista belga.

Antes da calma do fim de semana, o pelotão do Tour tinha de enfrentar o mítico Mûr-de-Bretagne, que voltou a ser palco da Grande Boucle quatro anos depois, e tinha dois quilómetros de extensão a 7,1%, com as pendentes máximas a atingirem os 12% de inclinação. Com 197 quilómetros de extensão e duas passagens por aquele cenário, a etapa começou em Saint-Malo e tinha quase 2.500 metros de desnível acumulado. Ainda assim, os primeiros 170 quilómetros da tirada decorriam em terreno plano e sem dificuldades, favorecendo o controlo da fuga. Com a corrida a passar à porta da sua casa, Bernard Hinault foi convidado pela organização e acompanhou a prova dentro do carro do diretor.

Como seria de esperar, a etapa começou a todo o gás e a média nas duas primeiras horas andou a rondar os 50 quilómetros. A cumprir a 300.ª corrida pela Visma, Wout van Aert tentou incorporar a fuga do dia em duas ocasiões, mas a Emirates controlou bem as intenções da equipa rival e impediu que qualquer corredor da turma amarela se adiantasse. Assim, Alex Baudin (EF Education), Geraint Thomas (Ineos Grenadiers), Marco Haller (Tudor), Ewen Costiou (Arkéa-B&B Hotels) e Iván García Cortina — que também chegou às 300 provas pela Movistar — foram os fugitivos de mais uma jornada quente. A 37 quilómetros da meta, já sem os sprinters, Remco Evenepoel (Soudal Quick-Step) foi forçado a parar por questões fisiológicas, mas reentrou pouco depois sem percalços de maior.

Na primeira incursão pelo Mûr-de-Bretagne, a força do vento fez-se sentir, Costiou foi o mais rápido, mas acabou alcançado na descida, quando Van Aert se lançou ao ataque com Kévin Vauquelin (Arkéa), sem sucesso. A seis quilómetros da meta, uma queda na parte de trás do pelotão atirou João Almeida para fora de estrada e deixou o português em mau estado, apesar de ter continuado em prova. À semelhança do Emirates, Healy, Enric Mas (Movistar), Santiago Buitrago (Bahrain-Victorious) e Guillaume Martin (Groupama-FDJ) também foram ao chão. Com Tim Wellens a fazer de Almeida, Pogacar foi o primeiro a mexer, já com Van der Poel descolado, obrigando Evenepoel e Vingegaard a responder. O esloveno voltou a lançar o sprint e, com apenas o dinamarquês a conseguir acompanhá-lo, somou a sua segunda vitória neste Tour e regressou à liderança.

João Almeida cortou a meta bastante atrasado, a 10.13 minutos do companheiro de equipa, que é o novo líder, com 54 segundos de vantagem para Remco Evenepoel e 1.11 face a Kévin Vauquelin. Jonas Vingegaard, a 1.17, e Mathieu van der Poel, a 1.29, completa o top 5. Quanto ao português, a geral passou incontornavelmente para terceiro plano, já que a queda atirou-o para o 28.º lugar, a 12.21 de Evenepoel. No final, em declarações aos jornalistas, Pogacar dedicou a vitória ao companheiro de equipa. “Estou preocupado com João Almeida. Sei que caiu com gravidade, espero que esteja bem. Esta vitória é para ele, dedico-a ao João”, partilhou o esloveno.

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