Em Portugal comemos muito peixe. Mais do que conseguimos pescar. Somos campeões da Europa sem espinhas: uns 60 kg por ano, por cabeça, mais do dobro da média comunitária. Dir-me-ão que é por estarmos aqui encostadinhos ao mar. Mas isso também os franceses, os italianos, os ingleses ou até mesmo os gregos, que têm mais de mil ilhas e não comem nem um terço.
A verdade é que temos um mar de riqueza invulgar. Um mar que nos deu vocação e propósito, praias e heróis, alforrecas e almirantes. Mas sobretudo deu-nos peixe. Muito e variado.
Penso nisto, sentado na esplanada do Quitanda, a cinco metros da água, ali em Paço de Arcos. Diante de mim jaz a carcaça chupada de um cantaril. Na mão tenho um copo de branco que, não sendo o primeiro, pode ajudar a enquadrar este relambório.
O mar português
Numa terça-feira de Maio, no Mercado de Quarteira, entretive-me a contar 27 espécies diferentes, enquanto ouvia dizer que o mar estava feito num cão e aquilo era dia fraco. Numa sexta-feira seguinte, no Livramento, em Setúbal, contei 21 só na banca da Sandra Peixinhos (o nome é um tratado), concentrados em escassos 435,6 centímetros de balcão (considerando que medi seis passos e que, como é do conhecimento geral, cada passo de um homem com 1,75m, que calce 43, terá uma amplitude média de 72,6 cm). Deambulando pelo resto do mercado, cheguei a 40 estirpes, descontados mariscos e bivalves.
Ora, creio que há duas coisas a concluir destes meus exercícios. A primeira é que aparentemente tenho pouco que fazer na vida; a segunda é que o mar português oferece uma fartura que o mundo desconhece. A começar pela maioria dos portugueses.
Contas de quem sabe, pelas lotas nacionais passam à volta de 200 espécies, mas 90% do nosso consumo concentra-se em cinco grupos: atuns, pescada, cefalópodes (chocos, lulas, polvos), sardinha e — claro — bacalhau. O bacalhau é a grande panca nacional e, em média, cada indígena enfarda 15 kg/ano. Ou seja, podemos jantar peixes que ainda nadavam à hora do almoço, mas elegemos como herói nacional um que só se apanha a 4 mil km daqui e que precisa de três dias para ficar pronto. O bacalhau é como a burocracia: demonstra que os portugueses são bons a complicar (alguém avise o ministro Gonçalo Matias para pôr as barbas de molho).
E com isto perdi-me do que estava a falar… Ah!, sim, o Quitanda.
Melhor pousar o copo.
A montra
Lisboa é uma cidade estranhamente distante do mar. É verdade que a água fica já ali adiante e que por lá passeia essa variedade admirável de peixes, mas só meia dúzia deles tem presença cativa nos menus da capital — e metade nem se pode dizer de mar. Sempre me intrigou esta dificuldade de encontrar na cidade onde comer peixe fresco, descomplicado e a preço justo.
É também por isso que celebro a cada vez que descubro um lugar como o Quitanda. Fica no Centro Náutico de Paço d’Arcos — não é bem Lisboa, mas também não fica fora de pé — e tem uma das melhores montras de peixe que conheço deste lado do rio.
E é aí que tudo começa, junto à montra, na sala interior. O ambiente é um misto de mercado de frescos e balneário de polidesportivo — de um lado o peixe, do outro remos, troféus e galhardetes do Clube Náutico. À chegada, é preciso dar o nome (reservar de véspera ou aparecer depois das 14.00), tirar senha, esperar vez, ouvir números como no bingo, escolher rápido, pesar a pescaria, fixar a mesa que nos coube e desandar rápido. O protocolo é severo e não admite desvios.
Pregado, robalo, dourada, sargo, salmonete, besugo, cantaril, linguado, rascasso, tamboril, goraz, pargo, garoupa, corvina, cherne, lula, choco e ovas — eis a lista exposta nesta minha última visita. Tudo de mar, tudo fresco e reluzente.
Isso leva-me a outro tema que julgo interessante, pelo menos sob o efeito do arinto: a proximidade da água não garante proximidade do peixe. Nos dias que correm, os bichos fazem uma longa viagem entre o mar e a grelha — são apanhados num barco, descarregados numa lota, vendidos num mercado.
O dono do Quitanda — figura atarracada e de uma simpatia rude — gaba-se de cobrir centenas de quilómetros, entre Sines a Peniche, para reunir esta coleção. O cantaril gordo e viçoso que me serviu de almoço nada tem a ver com o horizonte diante de mim. Sabia a crustáceos e há-de ter vindo de águas profundas mais a Norte. Mas gosto de imaginar que foi fisgado no pontão de cimento aqui em frente.
A experiência
O cimento é, aliás, um elemento da experiência. O espaço exterior, que se divide em duas esplanadas e acomoda uns 150, é um espaço brutalista, entre betão e grades altas a filtrar a vista sobre o mar. Como observou um bom amigo, parece o Tarrafal.
Somada a sala no primeiro andar, diria que aqui servem umas 200 pessoas sem rodar mesas (se queriam o número exato, não pedissem a segunda garrafa). O serviço é simpático mas caótico, exige pachorra mas lá vai acontecendo. Sobretudo na calma relativa dos dias de semana.
Em três visitas recentes, nunca guardei razão de queixa maior. Mas aplaudi sempre a frescura do pescado e a precisão da grelha, que deixa os bichos dourados e raramente os cicatriza de fogo. Foi assim que conheci um dos melhores robalos do ano, fui brindado com umas ovas preciosas, e dividi uma cabeça de garoupa tratada a preceito.
Os acompanhamentos andam entre grelos e feijão verde, sempre firmes e no ponto, e uma boa batata cozida, como devia ser obrigatório por lei. O pão é aceitável, as azeitonas também, e a lista de vinhos, de que já fui dando pistas, tem uma seleção simpática de rótulos correntes e em conta. De resto, tudo me parece a preços justos, considerando a qualidade do produto e a maluqueira que para aí anda.
Hei-de voltar. De preferência com menos sede.
Centro Náutico de Paço d’Arcos, Avenida Engenheiro Bonneville Franco, 8 A, Paço d’Arcos. 21 604 5098. Terça a domingo 12:30–18:30, 19:30–23:00. Preço médio 25€-30€.
Arnaldo Valente é homem de palavra e só não dá a cara porque precisa dela para fazer a barba. Tende pouco para as tendências, não é muito sensível às sensibilidades, é fascinado por coisas sem importância e insiste em brincar com coisas sérias. Só fala do que experimenta, embora não possa falar de tudo o que já experimentou.