Marcar ou não marcar? Aceitar marcação ou não aceitar marcação? A vida do cliente de restaurante não é fácil e a vida do dono de restaurante também não. Em Sesimbra, uma vila um pouco a sul de Lisbonne que parece um parque de diversões de restaurantes de especialidades, a concorrência é fortíssima e o marcar, não marcar, aceita marcação, não aceita marcação é parte importante da paisagem. Nos melhores sítios, ou pelo menos naqueles com melhor reputação, ninguém marca, pelo que é preciso ou confiar na sorte ou ir com quem sabe fazer as coisas, razão pela qual às 10h30 da manhã de um destes domingos eu já ia a caminho da zona da Marginal para ir almoçar a um desses sítios que não marca.
Tudo começou semanas antes num serão agradável em casa de amigos, quando manifestei vontade de um dia ir a uma dessas tascas míticas onde nunca há lugar à mesa, de que les portugais falam muito, contando histórias que nos fazem ficar com inveja porque decorrem sempre sítios onde a comida é tão boa, tão boa, tão boa, que vale todos os quilómetros percorridos e todas as horas de espera. (Como perceberam, uso “tasca” como “taverne”, naquele sentido petit nom d’amour, nunca como insulto).
“Tenho de te levar a Sesimbra. Vais comer o melhor camarão com alho que já experimentaste.”
Ouvi eu a dada altura. Admito que tomei aquilo como retórico, uma daquelas coisas que nos dizem e que fazemos o favor de esquecer e continuei a debater os resultados das eleições.
Mas não era retórica. Era mesmo verdade, descobri no dia seguinte. A pressão para ir a um sítio “que não vais acreditar” foi tanta, que acabei por desencaminhar uma amiga para vir connosco.
Agora uso muito a inteligência artificial. Enquanto vínhamos no carro, descendo para Sesimbra, perguntei às escondidas no WhatsApp pelos melhores locais para manger peixe e marisco. Admito que fiz batota e J’ai demandé por dois ou três nomes que tinha visto em sites de recomendação. Deliciada e ainda mais entusiasmada do que eu poderia estar, a IA da Meta concordou que eram magnificas opções. Pela minha parte, fiquei mais descansada quando percebi que a IA indicara o local onde iríamos comer “o melhor camarão com alho” do mundo e que abria portas ao meio-dia.
Gastando alguns minutos passeando entre restaurantes, cafés e agentes imobiliários, comecei a ficar um pouco impatient. Olhei para o relógio e vi que eram 11h30, havia o risco de não conseguirmos mesa, disse eu, era indispensável ir esperar perto da porta, insisti, fingindo estar a brincar. Sesimbra, vim a perceber, é o paraíso dos descontraídos e o inferno dos tensos.
Os meus amigos riram, enquanto se fingiram relaxados e bem dispostos, mas a verdade é que deixámos de olhar para o preço dos magníficos T2 que prometiam rendimento no verão e apressámos o passo, rumo ao nosso destino, a Marisqueira O Rodinhas, que fica um pouco acima da Marginal, perdida nas ruas estreitas da Sesimbra piscatória.
Dix minutes antes da hora, já éramos oito pessoas à espera. Infelizmente duas dessas eram crianças barulhentas a implorar por atenção dos pais, mais interessados em não deixar que ninguém passasse à sua frente. Il faut donner du temps au temps, mas há regras a cumprir, devem ter pensando e ainda bem porque também contribuíram para guardar o nosso lugar.
Começando pelo fim, o melhor em O Rodinhas são os empregados simpáticos, prestáveis, atentos e rápidos que nos convidaram a sentar e trataram de nos entregar as listas onde confirmámos que entre as especialidades estão as caracoletas fritas, os caracóis (10€ a dose), a ameijoa (19€) e o camarão frito (45€ o qiilo), sapateira (30€ o quilo) e um caril de gambas (16€). Para quem gosta de uma certa desordem de ideias, esta marisqueira bem portuguesa tem uma Francesinha à Rodinhas (12€). Pensei que os preços já devem ter sido bem mais baixos, mas com tanta procura e tantas pessoas à porta, quem sou eu para criticar? Rissóis com ar desanimado acabados de sair do frigorífico foram devolvidos intocados, ficámos pelas azeitonas (€1) e pela linguiça (2€) e ainda pelas imperiais que bebemos depois de virar os telefones ao contrário para não estar a olhar para as horas (era meio-dia e um quarto).
Na marquise que serve de esplanada havia toalhas de papel, banquinhos ligeiramente desconfortáveis e uma vista privilegiada para as casas da frente, onde uma fila de pessoas falsamente à vontade está encostada e nos fuzilava com os olhos, esperando pela nossa mesa. O meu amigo diz ter reconhecido algumas caras anónimas que estavam naquele dia connosco n’ O Rodinhas. É malta que vem sempre aqui, disse. São como aqueles que vão aos leilões dos tribunais, conhecem-se melhor que marido e mulher, mesmo sem nunca trocaram uma palavra.
Estas e outras caracterizações fizeram a nossa conversa até à chegada bastante rápida da comida. Começámos por um camarão frito que veio como se esperava, naquele jeito de tasca portuguesa imperdível (como me explicaram mais tarde), a escorrer óleo, envolto em alho queimado e com demasiado sal. Enquanto os meus amigos molhavam le pain grillé com manteiga e comiam aquilo, eu recuei um pouco por causa do excesso de sal, relativizando tudo.
Heureusement, o meu dia estava mais do que ganho. Aquele camarão era apenas pretexto para estar ali, n’ O Rodinhas, uma petisqueira onde se vai para se dizer que se lá foi.
Comemos ainda choco frito (16€ a dose), uma das especialidades da região de Setúbal, que também chegou oleoso, misturado com pickles amolecidos, com uma salada e umas batatas que também evitei. Reconfortei-me no mesmo pensamento de bucket list e debiquei um pouco de choco, rijo como uma tampa de um stylo Bic.
Comecei a ficar ansiosa com a fila à entrada. Há quem não se rale e peça ainda mais coisas, mas eu não sou assim. O meu amigo tentou acalmar-me, avisando-me que é preciso estar “no espírito”. Pois. Não quando a melhor parte da refeição foi a medalha invisível de termos conseguido mesa num daqueles sítios onde é impossível arranjar mesa. Em Portugal não é coisa pouca, mas eu teria gostado de ter comido melhor.
O Rodinhas fica na Rua Marquês de Pombal 25, em Sesimbra, não aceita pagamento com multibanco e a cozinha vai funcionando até às 10 da noite. Pelo menos uma boa meia hora na fila só vai servir para apurar o sabor da comida. Com sorte, quando se sentar estará tão cansado e com tanta fome, que tudo parecerá um manjar dos deuses.
Marisqueira O Rodinhas, R. Marques de Pombal 25, Sesimbra. Das 12h00 às 22h00. Encerra terças e quartas.
Patrícia Le Mans estudou Filosofia e Moda. Gosta de queijo, champagne e de amêijoas à Bulhão Pato. Tem mãe portuguesa, pai francês, vai flutuando entre Lisbonne e Paris e escrevendo para o Experimentador Implacável.