Longe, muito longe de Lisbonne e do Porto, quase no fin du monde, ainda que com ótimas estradas para lá se chegar, está a pequena cidade de Vila Nova de Foz Côa, que pertence ao distrito da Guarda e é parte da província de Trás-os-Montes e Alto Douro. Espero não me ter enganado nestes cadastros, confirmei estas informações pela Internet, se estiverem um pouco confusos, não faz mal, o que importa é que Foz Côa é um dos locais mais inesperados de Portugal desde que ficou muito mais conhecida há mais ou menos trinta anos, quando a construção de uma barragem revelou pinturas rupestres e gravuras naquela zona.
Num destes dias de agosto, antes do inferno se abater sobre o centro de Portugal, demos por nós a querer visitar o Museu do Côa, ali construído há 15 anos, um projeto da autoria dos arquitetos portugueses Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, ponto central da autêntica galeria ao ar livre de arte rupestre que aquela zona se orgulha de ser. É um estranho museu, brutaliste, uma autêntica obra de arte e um dos mais bem conseguidos no país (segundo um amigo), uma instalação na própria paisagem, assenta numa encosta, com uma parte substancial enterrada, como se não quisesse retirar protagonismo à imponência da paisagem natural.
Com largo estacionamento, chega-se por boa estrada com boa sinalização. Em agosto e com o calor pesado e abafado, parece que entramos num cenário de filme assim daqueles de la science-fiction, onde as regras são outras.
Como é evidente, o museu não pretende substituir a visita aos sítios de arte rupestre do Parque Arqueológico, existem percursos próprios que é preciso marcar com antecedência, mas tem a vantagem do ar condicionado e de funcionar como um apéritif e um porto seguro para quem não é um daqueles fanáticos que sempre que vai à Decathlon enche a bagageira do carro de material desportivo. Estamos muito cá em cima, olhando para o rio a serpentear os montes e o vale com encostas cheias de vinha, fazemos parte da região vinícola que é Património da Unesco. Como é que mais gente não vem aqui é uma boa pergunta em que voltámos a pensar, quando mais tarde percebemos que a maioria dos visitantes que andava por ali eram turistas estrangeiros. Que têm os portugueses contra os seus próprios museus c’est un mystère.
Quando decidimos a visita, uma das questões a resolver era o local onde almoçar. Aparentemente, Foz Côa é própria para city break, turismo de natureza, turismo cultural, gastronómico e de património. Também atrai praticantes de desportos, em especial de rio, como a canoagem, tem inúmeros pontos de interesse, incluindo passadiços e é muito mais que memória do Paleolítico e gravuras desenhadas por homens das cavernas — nous reviendrons certainement num dia qualquer no futuro, para atestar das maravilhas. À procura do melhor petisco regional, fomos derrotados pela quantidade de informação disponível na Internet, o que nos fez optar pela solução mais prática, que foi almoçar no próprio museu.
O melhor encorajamento surgiu quando em boa hora descobrimos que na cafetaria do museu se pode beber apenas um café e comer um nata, mas também se pode almoçar a sério, existe uma ótima carta cheia de ofertas regionais.
O edifício e as ofertas ali expostas são uma bela homenagem à História que ali decorreu há tantos milhares de anos. No interior, existe um auditório chamado António Guterres (onde não entrámos) e uma série de zonas contíguas que procuram explicar o que aconteceu há muito milhares de anos, como também a meio dos anos 90 do século passado. Por decisão artística e política, o Côa Museu é tanto um centro onde conseguimos ver reproduções e réplicas das gravuras, como é uma celebração da luta que parou a barragem que a EDP ali queria fazer, preservando assim as gravuras e barragens, que com a barragem teriam ficado submersas. Vive la culture, pois então.
Por via das dúvidas, reservámos mesa, optando por passear no museu (cerca de 40 minutos é mais do que suficiente, incluindo uma visita pela gift shop) antes de comer. Apanhámos um almoço de aniversário que enchia o restaurante, que, sem surpresa, era muito parecido com todos os restaurantes de museu moderno, com mesas e cadeiras como as que encontraríamos na Gulbenkian ou em Serralves.
Os individuais em papel foram compensados pela carta, que era inteligente e com múltiplas opções, como sucede tantas vezes nos restaurantes em Portugal. As escolhas assentam nos produtos locais, como queijo, fumeiro, cogumelos, queijos, ótimas carnes, sem esquecer esse grande herói em Portugal que é o bacalhau. Contem com uma seleção de vinhos maravilhosos da região e batatas fritas deliciosas.
O pão é regional e saboroso, com uma vista inacreditável sobre o vale e o rio Côa, as paredes envidraçadas compõem um ambiente como haverá poucos no nosso país. Estamos a mais de 400 quilómetros de Lisbonne, num local tipo cantina onde se come bastante bem, deixem que vos diga. O staff é simpático, disponível e eficiente, no exterior há uma esplanada que é um miradouro espetacular e naquele dia silencioso, o calor abafado de agosto desocupou todas as cadeiras naquele dia.
Alguns destaques apetitosos. Seleção de queijos regionais com compota (9 euros), revolto de cogumelos silvestres com espargos (8 euros), bacalhau assado com amêndoa e castanha (18), robalo assado com molho de cebola e azeitona (14), posta de vitela à Côa Museu, com maçã em vinho do Porto (16) e medalhão de vitela com queijo da serra (17,5). Nas sobremesas, ficámos de olho num pudim de queijo (4,30) e no leite creme com citrinos (3,50).
Comemos cordeiro de leite grelhado (15 euros) e porco com alheira (13 euros), que estavam ótimos (peut-être com um pouco de sal a mais), apurados e com muito sabor, sem ter aquele excesso de gordura que deita tudo a perder. No final dividimos um tremendo gelado em telha de amêndoa. A acompanhar, saboreámos um vinho daquela zona, de casta Viosinho, também com um preço como já se vê pouco em Portugal. No fim, o total foi uma bela surpresa, pagámos bem menos do que pensaríamos.
Há sempre muito para dizer sobre os restaurantes à l’intérieur du pays. As pessoas vão falando de locais maravilhosos e secretos, onde existe uma roda de carroça a fazer de castiçal, petiscos típicos e doses gigantes e proprietários míticos que parecem personagens de ficção. Mas, como o restaurante do Coa Museu demonstra, também há ótimas surpresas, menos telúricas, mais contemporâneas e não tão caras.
Restaurante Museu do Côa, Parque Arqueológico do Vale do Côa, R. do Museu, 5150-610 Vila Nova de Foz Côa. Domingo e segunda das 10h00 às 18h00, quinta a sábado das 10h00 às 23h00.
Patrícia Le Mans estudou Filosofia e Moda. Gosta de queijo, champagne e de amêijoas à Bulhão Pato. Tem mãe portuguesa, pai francês, vai flutuando entre Lisbonne e Paris e escrevendo para o Experimentador Implacável.