A empregada — “hello!”

A gente — “olá!”

Ela concede no Português — “Irão querer água?”

A minha amiga responde que não, que se fica pela cerveja, enquanto eu me engasgo naquele “irão querer”. Sendo correto, soa desapropriado. Fala para um futuro sem urgência, como quem pede que adivinhe se vou ter sede lá mais para o fim do dia. Pior que isso, gera aquela confusão típica das palavras homónimas e parónimas: irão, passarão, caberão — um país muçulmano, uma ave anafada, um sujeito de má rês.

Este momento descreve duas condições essenciais para compreender a experiência que hoje relato. A primeira é que estamos num espaço de latitude incerta, onde o Inglês é língua franca e o Português apenas funcional. A segunda é que estou feito um jarreta: gasto tempo com picuinhices como os tempos verbais do serviço de mesa e só tenho queixas de velho, como já verão (terceira pessoa plural do futuro do indicativo de ver, homónima da estação do ano situada entre a primavera e o outono).

O lugar chama-se Pils Grill Eatery e fica a meio do Conde de Redondo. Apresenta-se como um beergarden, tem muita beer e algum garden, 24 torneiras de cerveja alinhadas no balcão, plantas a trepar uma das paredes, tudo florido e luminoso, minimal e cheio de pinta. O dono é um russo fugido da guerra, a cozinheira é uma brasileira formada no México, os ingredientes são locais, a inspiração do espaço é austríaca, a cozinha é de onde calhar.

Na ementa vejo schnitzel com salada de batata (Áustria), keftas de cordeiro (Marrocos), belly katsu sando (Japão), pimentões sazonais grelhados (que na verdade são de Padrón, Galiza), Risotto de abóbora (digamos Itália), torta basca (que por estes dias já será mais de Lisboa que de San Sebastian). Tendo a torcer o nariz a este tipo de mixórdia numa ardósia, que me soa sempre a menu do dia na tasca do Guterres. Chamam-lhe cozinha do mundo, é cada vez mais comum pela cidade, e a maior parte das vezes é fachada para casas de pasto armadas ao pingarelho. Mas aqui — confesso e adianto — nada provei que ficasse aquém de bom e em tudo se pressente o talento que fervilha na cozinha aberta para a sala. Comecemos pelas entradas.

As entradas

Alguém deixou a porta escancarada e eu estou no enfiamento da entrada. Levanto-me para travar a pontada de ar que me apunhala as costas, mas sou intimado a manter a via aberta por um cavalheiro com proporções de vidrão, que carrega barris de cerveja cá para dentro. Explica-me que está a trabalhar, que tenho de ter paciência. A minha amiga fica a rosnar que isto não faz sentido, abastecer uma casa de almoços às 13.15, enquanto vamos comentando outro senhor de colete amarelo estilo Moedas, que à mesma hora entra por ali adentro para fazer a contagem da luz ou uma inspeção do gás — não se percebe bem.

Logo de entrada, portanto, uma sensação de relaxamento, palavra que tanto ilustra o ambiente cool, como os tropeções do serviço e uma certa rebaldaria de soft opening. De entrada, também, uma belíssima manteiga, muito cremosa, que me pareceu batida de natas; um pão sério, fermentação lenta, ácido e bem cozido; uns Padrón cheios de sabor e viço, servidos com maionese de miso, bom toque caramelizado a contrastar com o picante dos pimentos; e uns ótimos croquetes de camarão, os bicho a desfiar no recheio, novo apontamento de maionese a fazer cobertura, o conjunto um nadinha adocicado, mas irrecusavelmente guloso.

Ou seja, começa mal, mas entra tudo bem — ou vice-versa, como acharem melhor. Vou acompanhando com uma sidra escolhida entre a lista de oito disponíveis, com a ajuda informada de quem nos serve. Meio seca, leve e fresca tal como prometido, tem 5% de álcool, diz que é aprovada para vegans e a mim também não me cai mal, custa 8€ a garrafinha de 33 cl, que é tudo orgânico e artesanal e isso paga-se.

A minha amiga vai numa lagger de pressão, gaba entusiasticamente a frescura da jola e eu fico a pensar que hei-de voltar pelo impressionante catálogo de cervejas, entre artesanais portuguesas, pilsners alemãs, stouts belgas e muito mais. Fico também a pensar que uma só casa banho unissexo parece pouco para duas dúzias de torneiras de imperial. Mas deixo isso para outro dia.

Os principais

Nisto, chega o Schnitzel. A vitela tenríssima, o polme irrepreensível, lourinho e ligeiramente crocante, a fritura macia e enxuta, os sucos da carne preservados no interior, um vinagrete delicado a fazer cobertura. Traduzindo: um belo panado.

Acho notável que os vienenses tenham promovido um prato infantil com nome de jogador da bola à categoria de especialidade gastronómica nacional. O Schnitzel é seguramente um grande feito do marketing austríaco (melhor que isso, só terem convencido meio mundo de que o Hitler era alemão), mas é também uma prova de onde pode chegar a sofisticação da simplicidade.

E este é um excelente exemplar, servido a preceito com salada de batata, feita de bons tubérculos e com o equilíbrio certo entre o amanteigado da gordura e do açúcar, e o ácido da cebola roxa e do vinagre. Supimpa.

O mesmo se pode dizer das salsichas grelhadas, que aterram dois minutos depois, apesar de termos dito que eram para partilhar e os pratos já se encavalitarem. Por esta hora, aliás, as queixas acummulam-se — a minha amiga resmunga do desconforto das cadeiras de pau, eu rezingo por ter apenas 0,3 metros quadrados da mesa (valor arredondado, são na verdade 55 x 55 cm) e garanto que já joguei às damas em tabuleiros maiores.

Só que — lá está — as salsichas chegam exuberantes como as fräulein dos meus sonhos, gordas e saborosas, enxertadas com suíno de boas famílias, perfumadas de funcho e cebolinho, grelhadas na perfeição e servidas com um impecável puré de batata. Dois zero para os germânicos.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

As saídas

Fechamos com uma tarte basca, mimosa e cremosa, firmeza de colagénio, muito acima da média das que por aí se provam, mais dois cafés e dois dedos de conversa sobre o que raio se passou aqui. Em resumo, foi isto: uma bela refeição feita de muita comida de conforto e algum desconforto à volta da comida. A corrente de ar nas costas, o banco que é duro, a mesa que é curta, o timing que é errado, a acústica que é péssima, a chinfrineira que é grande — tudo queixumes arcaicos de dois maduros que acham que o mais importante é mesmo o que está no prato, mas que sem o conforto da experiência não estão para sair de casa.

Contas feitas, 70 paus para dois, que acaba por ser o momento mais salgado do almoço — mas atenção que dá para comer por metade disso, escolhendo o menu completo do dia, com boas escolhas disponíveis, a 18€ por cabeça.

Hei de voltar.

Rua do Conde de Redondo, 70. Lisboa. 939 677 490. Terça a sábado, 12.00-00.00, domingo 12.00-23.00.

Arnaldo Valente é homem de palavra e só não dá a cara porque precisa dela para fazer a barba. Tende pouco para as tendências, não é muito sensível às sensibilidades, é fascinado por coisas sem importância e insiste em brincar com coisas sérias. Só fala do que experimenta, embora não possa falar de tudo o que já experimentou.