Um “esclarecimento” para um “problema complexo”: é assim que o presidente da câmara de Loures, o socialista Ricardo Leão, apresenta o vídeo de sete minutos e meio que publicou nas suas redes sociais, enquanto a decisão de demolir dezenas de habitações ilegais no concelho continua a gerar reações mistas (incluindo no PS). Prometendo que não vai recuar, quando já se conhece a decisão do Ministério Público de abrir um inquérito às demolições, Leão parte para o ataque contra quem o critica: “Promover a desordem não é ser solidário, é ser cúmplice de um ciclo de exclusão e de injustiça”.
Para defender esta decisão, Leão deixa uma série de recados, alguns dos quais podem aplicar-se a figuras do PS. Desde logo, anuncia que não vai aceitar que “movimentos políticos ou figuras públicas se aproveitem da pobreza e da fragilidade de algumas pessoas apenas para ganhar protagonismo ou alimentar causas populistas”, criticando quem “em nome de uma suposta solidariedade acabam por promover a indignidade”. “Justiça social não é dar a quem grita mais”, argumenta.
Além disso, justifica, as construções ilegais “colocam em causa a segurança, a salubridade e a dignidade das pessoas”, pelo que teve de agir para pôr um fim com “seriedade” à situação. “A pergunta que quase ninguém quer fazer é esta: e se tivesse havido um incêndio, um curto circuito, uma tragédia? Era a mim que cabia essa responsabilidade. Em nome da segurança e dignidade humana não aceito que ninguém viva nessas condições. Não podemos aceitar que a indignidade seja promovida“.
Neste vídeo, o autarca alerta que o problema não existe apenas em Loures. “Não pode ser enfrentado apenas por Loures. Esta não é uma questão local, é uma realidade que se repete em muitos concelhos da área metropolitana”, alerta, antes de chamar o Governo ao assunto: “Exige responsabilidade partilhada com o próprio Governo, cooperação com municípios (…). A Câmara não foge às suas responsabilidades, mas também não pode continuar a ser deixada sozinha perante estes problemas estruturais”.
Ricardo Leão “ao lado do país real”
Quanto a Loures, frisa Leão, esta “não foi a primeira intervenção nem será a última”, adiantando que a autarquia já demoliu desde o início do mandato, em 2021, cerca de 250 “construções idênticas” a estas. “Somos intransigentes nesta matéria. Temos um único objetivo: defender a segurança das pessoas. Garantir condições mínimas de dignidade humana. Não permitimos a construção de barracas não por falta de empatia, mas a única forma de garantir segurança e justiça para todos”.
A ideia de permitir “justiça para todos” é muito explorada pelo autarca, que diz que a ideia de que “basta” construir uma barraca para ter direito “de imediato” a uma casa é injusta e insustentável, sobretudo para quem “aguada com dignidade e confia”.
“Loures está ao lado de quem precisa, mas não abdicamos da justiça com critério. Não estamos aqui para incentivar atalhos. Integração real sem passar à frente de ninguém é o que diferencia assistencialismo da responsabilidade”, dispara, dizendo estar ao lado do “país real e não do ruído artificial, e com consciência não vamos recuar”.
Autarca lamenta apoios recusados
Sobre a situação em que ficaram as famílias que viviam nas 55 casas demolidas (a intenção era demolir 65 mas uma providência cautelar suspendeu as demolições, tendo a autarquia cinco dias para responder nesse processo), o autarca garante que todas as pessoas foram “informadas e abordadas pessoalmente pelos serviços” da autarquia antes das demolições.
“Antes, durante e depois da operação o apoio continuou e continua disponível, apesar de nenhuma das pessoas abrangidas ter pedido ajuda antes nem estarem inscritas em qualquer programa”, dispara, “lamentando” que só 29 famílias tenham recorrido ao atendimento social e que das 11 famílias com crianças, que “tiveram propostas de acolhimento da linha 144”, “a maioria recusou ainda antes do contacto formal. “Três aceitaram alojamento em hotel” e outras três ou quatro estão em avaliação para arrendamento no privado, solução que muitas famílias lembram que não é exequível a longo prazo, mesmo que a autarquia pague as duas primeiras rendas.
“Das que nos procuraram, ninguém ficou sem resposta“, insiste Ricardo Leão. “Nenhuma pessoa ficou sem apoio. A todas foram apresentadas soluções ajustadas à situação individual”, falando em exemplos como o pagamento das duas rendas ou vales alimentares.