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Bica do Sapato vai reabrir no Cais da Pedra com cozinha portuguesa moderna, delivery, e serviço a partir das 10h da manhã

Este artigo tem mais de 1 ano

Seis anos depois de "fechar para obras", Bica do Sapato vai reabrir. Com a cozinha ainda em fase de testes, o regresso está marcado para breve com um espaço remodelado e cozinha portuguesa moderna.

O Bica do Sapato abriu portas em 1999 pelas mãos de Fernando Fernandes, José Miranda, Manuel Reis e John Malkovich
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O Bica do Sapato abriu portas em 1999 pelas mãos de Fernando Fernandes, José Miranda, Manuel Reis e John Malkovich

D.R.

O Bica do Sapato abriu portas em 1999 pelas mãos de Fernando Fernandes, José Miranda, Manuel Reis e John Malkovich

D.R.

Foi um dos restaurantes mais icónicos de Lisboa no início dos anos 2000 e nasce agora numa nova versão, seis anos depois de ter “fechado portas para obras”. O Bica do Sapato está de regresso ao Cais da Pedra depois de, durante 20 anos, ter sido o sítio onde toda a gente queria estar. A abertura está prevista para breve, em soft opening apenas para amigos e colaboradores, já que os testes da carta ainda estão a ser feitos pelas mãos dos chefs Milton Anes e Hugo Guerra, cada um à frente da cozinha de cada um dos dois restaurantes que vão ocupar aquele espaço.

Foi ainda em 2019 que Francisco Lacerda e Celso Assunção compraram a concessão do restaurante, como relataram recentemente à Forbes. A aquisição era um investimento imobiliário, contudo o objetivo inicial de reabilitar e arrendar o espaço rapidamente mudou, e a missão passou a ser reabrir o Bica. Mas então veio a pandemia, e os planos foram adiados. “Queremos recuperar o lugar onde diferentes mundos se cruzavam, onde havia cultura, diversão, boa comida e, acima de tudo, autenticidade”, diz Celso, um empresário brasileiro que chegou a Portugal em 2000 e já esteve envolvido em outros projetos na área da restauração e hotelaria, como o 5 estrelas Palácio Azul, em Lisboa. Sem revelar o valor do investimento, os dois sócios mostram-se confiantes no sucesso do regresso, afirmando que esperam atingir o break-even no terceiro ou quarto ano de funcionamento.

Em tempos com lugar para 120 pessoas, este novo Bica do Sapato vai ter capacidade para 300 lugares, oferecendo a opção de escolher entre dois restaurantes (ou ainda o serviço de delivery), com um horário de funcionamento que deve ir do pequeno-almoço aos copos, das 10h até às duas da manhã. Cá em baixo é Milton Anes quem lidera, tendo sido escolhido pela sua formação francesa, a experiência de três estrelas Michelin (com José Avillez no Tavares, em Lisboa, e duas estrelas no LAB by Sergi Arola, em Sintra) e o seu profundo conhecimento da gastronomia portuguesa. O objetivo dos sócios é ter uma cozinha portuguesa moderna. Para além do salão e do mezanino, deve haver ainda uma sala privada para cerca de 30 pessoas, com vista para o rio, que se vai chamar “Escritório”.

Ao Expresso, o chef natural de Paris avançou que vai trabalhar “uma cozinha de excelência, com produtos diferentes”, que poderão chegar a cada semana, para criar um menu que, nunca fechado, se inspira na gastronomia francesa e em Trás-os-Montes. Sem estar focado nos grandes guias gastronómicos, confessa que quer que “o Bica”, como informalmente era tratado, seja um restaurante para toda a gente, com um ticket médio por pessoa a rondar os 80 euros. Já à Forbes, os sócios não avançam valores, mas garantem que querem “oferecer qualidade maior por um valor mais justo”. Quanto à pastelaria, os comandos ficam nas mãos de Joaquim Sousa, autor da famosa flor de chocolate que se abre.

Já o andar de cima — no mezanino — onde dantes funcionava um espaço de sushi, a aposta agora é numa taberna moderna, com comidas de mão, privilegiando releituras das sandes clássicas portuguesas, como o prego, a bifana, o pão com chouriço ou a francesinha. A cozinha ficará ao cargo de Hugo Guerra, que já esteve na equipa do Bica do Sapato no passado, e conhecido pelo trabalho no Lobo Mau, na Estefânia. No Instagram, o chef tem atualizado os seguidores sobre a fase em que os restaurantes estão, tendo publicado uma fotografia durante o mês de junho dando conta de que estariam a começar a testar o menu desta “casa que do antigo só tem mesmo o nome”, lê-se na descrição. Também na passada quinta-feira publicou um story de um prato a ser testado.

No podcast “O Chef é que Sabe”, da RTP, o chef falou sobre o novo desafio. “Sinto-me bem. É uma casa onde eu já trabalhei e onde fui mais feliz”, disse, assumindo que o nome do restaurante carrega uma responsabilidade, mas que não foi o único motivo para ter aceite o convite. “Eu quero fazer parte de. Já o fiz, já fui muito feliz e quero voltar a ser. E depois com o convite que o Milton me fez não tenho como dizer que não”, afirma também Hugo Guerra, acrescentando que acredita que a reabertura do restaurante, que desde o momento em que abriu portas pela primeira vez em 1999 se afirmou como uma lufada de ar fresco no panorama gastronómico lisboeta, “não vai correr mal”. “As pessoas estão desejosas que abra, foi uma das casas chave [de Lisboa]”, garante.

Quanto ao projeto arquitetónico e a decoração — também ela tão emblemática durante os anos de atividade e com assinatura do ateliê FSSMGN Arquitectos Lda — fica a cargo do arquiteto Francisco Tojal, com a supervisão de Manuel Aires Mateus. Janelas grandes, lareira e o chão de pedra permanecem, com uma garrafeira antiga que estava escondida num corredor a ser reposicionada para o centro do salão. No interior, mobiliário, louças e arte portuguesa: mesas desenhadas pelo experiente arquiteto e produzidas pelo Estúdio Branca Lisboa, de Marco Sousa Santos, responsável também pelas cadeiras (combinadas com cadeiras Daciano da Costa) e pelo mobiliário exterior. A artista têxtil Maria Appleton assina as cortinas de 45 metros que dividem o espaço, e é também responsável por instalações que separam uma sala privada. Na cozinha, os talheres são Manuel Aires Mateus enquanto os pratos são da Molde Ceramics com assinatura do designer Filipe Alarcão.

No Instagram, a página oficial do restaurante está aos poucos a antecipar a abertura: “O que é bom não se apaga. Deixa-se a marinar, em lume brando. Começa em breve o turno zero do segundo capítulo do Bica do Sapato”, lê-se numa publicação. Contudo, o Observador sabe que a abertura ao público não deve acontecer em agosto, quando se espera que o Bica do Sapato abra portas apenas para família e amigos dos sócios, chefs e colaboradores, na intenção de apresentar o espaço e os pratos.

O Bica do Sapato abriu portas em junho de 1999 pelas mãos dos empresários Fernando Fernandes e José Miranda (proprietários do antigo Pap’ Açorda) e de Manuel Reis (fundador do bar Frágil e do Lux), entretanto falecido, tendo como sócio o ator John Malkovich. Os quatro deram assim vida a um espaço cosmopolita, enorme (dividia-se em 4 partes: o sushi-bar, a cafetaria, o restaurante fine dining e a esplanada) e com os olhos postos na cultura dos chefs. “Já era sucesso antes de ser sucesso, antes de abrir”, confessava Fernando Fernandes ao Observador em abril do ano passado. O primeiro chef a liderar a cozinha do Bica foi Joaquim Figueiredo, seguido de nomes como Fausto Airoldi, João Rodrigues, Alexandre Silva, Bertílio Gomes e, por fim, Henrique Mouro e Pedro Rezende Pereira.

Depois de 10 anos no auge, a crise de 2008 ditava o caminho que o emblemático restaurante ia seguir, com altos e baixos no negócio, e o apagar daquela chama dos tempos áureos. A morte de José Miranda, em 2016, e de Manuel Reis, em 2018, sentiu-se no negócio, ficando apenas nas mãos de Fernando Fernandes. Acabou por fechar portas em 2019, com a posição oficial do Bica do Sapato a justificar que seria, simplesmente, para obras no espaço.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

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