Quase três anos depois, o momento da verdade. Por um lado, a Espanha queria fechar um ciclo histórico no futebol feminino nacional que começou com o triunfo no Campeonato do Mundo, teve pelo meio o triunfo na Liga das Nações e ainda contou com várias vitórias nos escalões de formação. Por outro, a Inglaterra queria abrir um novo ciclo no futebol feminino nacional depois das conquistas do Europeu e da Finalíssima a que se seguiram algumas frustrações como a derrota na decisão do Mundial ou as não qualificações para a Final Four da Liga das Nações. Era isso que estava em discussão em Basileia, num St. Jakob-Park cheio.

Primeiro foram eles, agora é o tempo delas e com Olga Carmona a vestir o papel de Iniesta (a crónica da final do Mundial feminino)

A geração de ouro espanhola superou toda a polémica criada pelo beijo de Luis Rubiales a Jenni Hermoso, que foi apenas um primeiro capítulo de uma autêntica revolução em todo o futebol espanhol, mudou também de treinador com a chegada de Montse Tomé para o lugar de Jorge Vilda, mas continuou com a mesma sede de vitória que se alargou aos clubes, tendo o Barcelona como expoente máximo. Em paralelo, a neerlandesa Sarina Wiegman tentava recuperar uma predominância que iniciou quando agarrou na Inglaterra em 2021, que não só potenciou as opções britânicas para a seleção como conseguiu impulsionar a subida crescente da competitividade da Premier League. Era um ciclo que se fechava ou um ciclo que se abria.

No final, tudo chegou às grandes penalidades. A Espanha teve o mérito de ser melhor na maior parte do jogo entre a vantagem que levou para o intervalo, a Inglaterra teve o mérito de nunca dar a partida como perdida chegando não só ao empate como criando mais algumas chances que chegar à reviravolta e acabou por ser essa última parte a prevalecer: Hannah Hampton, a guarda-redes que nasceu com estrabismo, não tem noção da profundidade mas é uma das melhores do mundo, sofreu apenas um penálti; Kelly, que tinha sido decisiva nas meias-finais e no último Europeu, não tremeu no lance decisivo; e Sarina Wiegman conquistou o terceiro Campeonato da Europeu consecutivo, entre um triunfo com os Países Baixos e dois com Inglaterra.

Hannah Hampton não consegue deitar água num copo sem entornar. Mas não precisou disso para ser a guarda-redes de Inglaterra

A Inglaterra deixou o primeiro aviso do jogo, com Alessia Russo a receber na profundidade para o remate que saiu à figura de Cata Coll (3′), e teve também a primeira oportunidade flagrante depois de um erro defensivo das espanholas que colocou Lauren Hemp sozinha na área descaída sobre a direita a rematar para uma nova intervenção da guarda-redes do Barcelona para canto (20′). A Espanha tinha mais posse, assumia um outro controlo com e sem bola mas continuava a sentir dificuldades em entrar no último terço, algo desfeito com um remate de Mariona Caldentey que saiu ao lado (21′). Estava dado o aviso para o golo inaugural da final, em mais uma grande jogada coletiva pela direita que começou com um passe de Aitana Bonmatí para Athenea, a subida de Ona Battle e um cruzamento milimétrico para Caldentey desviar de cabeça (25′).

A Espanha tinha encontrado a sua zona de conforto no jogo frente a uma Inglaterra que perdera capacidade de saída e ficara sem Lauren James por lesão, dando lugar ao amuleto da sorte de Wiegman, Chloe Kelly. Foi por esse lado esquerdo que a final conheceu um novo capítulo, numa jogada onde o meio-campo espanhol deixou demasiado espaço até ao cruzamento para Alessia Russo desviar de cabeça para o empate (57′). A decisão voltava à “estaca zero” mas com as inglesas por cima em termos anímicos tendo Kelly de novo a criar perigo num remate cruzado para defesa de Cata Coll (68′) e as espanholas a tentarem um golpe de última hora com Salma Paralluelo e Vicky López em campo sem sucesso. Tudo seguiria para prolongamento.

Era no tempo extra que chegariam as decisões, com a Inglaterra a parecer pior em termos físicos e a Espanha a aproveitar a frescura na frente para novo triunfo no prolongamento como acontecera com a Alemanha ao som de “Si se puede” das bancadas. Os minutos iam passando, as oportunidades rareavam, as espanholas conseguiam chegar à área contrária pecando depois na altura da finalização e a possibilidade de tudo chegar às grandes penalidades ganhava forma, algo que acabou mesmo por acontecer com as duas selecionadoras a pensarem já nas marcadoras antes dos minutos finais (e com Hannah Hampton, guarda-redes inglesa, a colar no braço as cábulas antes do desempate). Poderia cair para qualquer lado, foi para as britânicas, com a Espanha a converter apenas uma tentativa e Chloe Kelly a fazer o 3-1 final na quinta e última tentativa.