A antecâmara do Euro 2025 foi complexa para Inglaterra. Para além da confirmação de que a capitã Millie Bright tinha pedido dispensa por motivos de saúde mental e da retirada internacional de Fran Kirby, também se ficou a saber que Mary Earps tinha decidido não voltar a representar a seleção. Ou seja, a cerca de um mês do início do Campeonato da Europa, a crónica guarda-redes inglesa soltou a bomba e deixou um vazio na baliza.

Sem Mary Earps, que desempenhou um papel fulcral na conquista do Euro 2022 que Inglaterra está atualmente a defender, Sarina Wiegman foi forçada a escolher uma nova guarda-redes titular. Com Anna Moorhouse e Khiara Keating também convocadas, a escolha recaiu em Hannah Hampton, guardiã do Chelsea já com várias internacionalizações que tem vivido na sombra da titularidade clara de Mary Earps.

Aos 24 anos, a jogadora que também já passou por Birmingham e Aston Villa tem correspondido e leva três golos sofridos nos três jogos que Inglaterra já disputou na fase de grupos do Euro 2025, contribuindo bastante para o apuramento para os quartos de final. O que poucos sabem, porém, é que Hannah Hampton nasceu com um problema de visão que poderia ter impossível o sonho de ser jogadora profissional de futebol.

Nascida em novembro de 2000 em Birmingham, depressa foi diagnosticada com uma forma agressiva de estrabismo que levou a três operações nos primeiros três anos de vida para tentar corrigir a visão. Mudou-se para Espanha com a família quando tinha apenas cinco anos e integrou as camadas jovens do Villarreal — como avançada, algo que explica a enorme capacidade que tem para jogar com os pés.

Foi já com 12 anos, porém, que tudo ficou ainda mais complicado. Para além do diagnóstico de estrabismo com que já vivia, Hannah Hampton ficou a saber que não tem perceção da profundidade — ou seja, que não consegue ter certezas sobre distâncias ou a verdadeira localização de um objeto. “Ser guarda-redes não faz muito sentido, mas até se percebe mais fora de campo. Por exemplo, a encher um copo com água, se não estiver com o copo mesmo na mão vou falhar e entornar. Disseram-me logo que não podia jogar futebol, que não era uma profissão que pudesse ter. Não era suposto jogar e não poderia ter certas profissões. Mas aqui estou”, contou a guarda-redes à BBC.

O novo diagnóstico não a parou. Hannah Hampton foi aprendendo a viver e a jogar com a condição, integrando a formação do Stoke City quando a família regressou a Inglaterra — e foi aí que acabou por assumir o desafio de jogar à baliza, face à necessidade de render uma colega e ao jeito que mostrou para defender. Passou depois pelo Birmingham, onde estreou como profissional em 2017, e após duas temporadas no Aston Villa mudou-se então para o Chelsea, onde está desde 2023. Pelo meio, foi convocada pela primeira vez em 2022 e fez parte da equipa que conquistou o Euro 2022, marcando depois presença na lista de Sarina Wiegman para o Mundial 2023.

Em 2021, antes sequer de assinar pelos blues, decidiu contar publicamente a extensão do problema de visão — algo que lhe trouxe alguns dissabores, como o facto de muitos opinion makers ingleses terem defendido que deveria ter resguardado a informação. Hannah Hampton, porém, sempre escolheu a honestidade. “Descobrir o que tinha tornou-me ainda mais determinada para chegar ao nível mais alto possível. A minha paixão sempre foi o desporto, sempre foi o meu sonho. Acho que passei a vida a provar que os médicos estavam errados. Sempre disse às gerações mais novas que, se não pudermos perseguir os nossos sonhos, o que é que estamos a fazer na vida? Temos de perseguir os nossos sonhos e eu posso dizer que sempre o fiz”, atirou na altura.

Apesar de não conseguir explicar como é que consegue contornar o problema em campo, a internacional inglesa admite que tem “truques” para o “trabalho de ajuste constante” que implica medir trajetórias para perceber de onde vem e para onde vai a bola, usando referências como o corpo das colegas e das adversárias. Ao The Athletic, porém, um especialista oftalmológico explicou que quando o estrabismo surge numa idade muito precoce o corpo é capaz de “desligar” parte da visão do olho afetado, num termo médico chamado “supressão”.

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