Aos 84 anos, Lucinda Childs está numa posição que não imaginava: a dirigir uma companhia de dança e — mais do que isso — a dançar. “Pensei que já estaria reformada, mas o Merce [Cunningham] continuou a trabalhar até aos 90 anos e isso dá que pensar. Talvez consiga até lá, seria bom.”
Acaba de aterrar no Porto diretamente de Paris, duas cidades que partilham o ar fresco que a obriga a socorrer-se do agasalho, mais uma camada que não esconde a elegância da coreógrafa e bailarina, figura principal da história da dança. O cabelo é branco, curto e domado. A voz suave, sem hesitações.
É também a história da dança que Lucinda Childs (EUA, 1940) traz a Portugal, país do qual guarda algumas memórias, como a de “chorar muito” numa casa de fado algures nos anos 1980. Por estes dias, está na cidade Invicta para apresentar esta sexta-feira e sábado Four New Works, no Teatro Rivoli. São quatro novas peças, os primeiros trabalhos desenvolvidos pela artista com a Companhia Lucinda Childs em quase uma década. A apresentação das quatro obras (Actus, Geranium ’64, Timeline e Distant Figure), em conjunto, permite uma visão aprofundada do universo estético e criativo da coreógrafa e evidencia a progressão do seu trabalho enquanto pioneira da dança pós-moderna nos últimos 50 anos. Entre elas está um solo interpretado pela própria.
▲ Lucinda Childs em “Geranium ’64”, a segunda peça de “Four New Works”, que mostra no palco do Rivoli, no Porto
Alexandra Polina
Geranium ’64, solo de e com Lucinda Childs, é uma revisitação de Childs’s solo Geranium, apresentado em 1965. “Decidimos pensar em Geranium porque alguns dos meus solos dos anos 1960 foram revisitados, mas não este. É uma peça grande, longa. Decidi focar-me apenas numa única secção, uma em que estou suspensa”, diz esboçando um sorriso.
Num macacão cinzento, Childs surge suspensa por uma corda. Na parede, uma projeção do artista multimédia albanês Anri Sala mostra imagens de jogadores de futebol americano durante um jogo dos Cleveland Browns e os Baltimore Colts, em 1964. Fora do palco, um bailarino (Kyle Gerry) controla a corda que sustem Lucinda Childs, que parece flutuar pelo palco, imitando os movimentos violentos e bruscos feitos pelos jogadores. Contrabalançada pelo peso do seu duplo invisível, o corpo de Lucinda Childs é dirigido pelo comentário contínuo da emissão de rádio com o relato do jogo. “O tipo descreve maravilhosamente estes movimentos, quem foi contra quem, quem caiu, quem vai para onde. É uma descrição física belíssima”, descreve a bailarina. “Encaixa-se perfeitamente nesta ideia da descoberta do movimento, mas também de não usar o vocabulário da dança, usar movimentos pedestres.” Em puro espírito pós-moderno, a Geranium ’64 questiona e ultrapassa os limites da dança. E confronta-nos: o que pode ou não ser considerado um movimento de dança?
Mas não é tudo o que Childs tem para mostrar no Porto. Depois de se apresentar no palco do Rivoli, a Companhia Lucinda Childs leva Early Works ao Museu de Serralves, no domingo. É uma coleção de sete peças de 1963 e 1979, as primeiras criadas para a Companhia de Dança Lucinda Childs, que fundou em 1973. O conjunto de performances, entre as quais um solo protagonizado pela artista (Particular Reel, de 1973) evidenciam a singular voz coreográfica que a bailarina trouxe à dança contemporânea, com uma tónica assente no ritmo e na geometria, uma matemática precursora do seu trabalho em Dance (1979), emblemática colaboração com o compositor Philip Glass e o artista visual Sol LeWitt.
“Foi uma grande questão para mim fazer um solo, interpretado por mim… Ainda interpreto, mas de uma forma mais teatral, em produções do Bob Wilson. Mas falei com os bailarinos que me disseram: vá lá, tu consegues”, relata ao Observador. Perto de completar 85 anos, Lucinda Childs mantem-se ativa. “Tenho uma rotina diária, que me mantém bem. Se estiver numa companhia de bailado, claro que tenho alguém a ajudar-me, mas levanto-me, faço coisas, não estou só sentada numa cadeira. Gosto de me manter na melhor forma possível.”
Mas o tempo é uma inevitabilidade, reconhece. “Disse-lhes que a única forma em que estaria confortável era num solo num modo tipo anos 60, sem um lado muito técnico. Quer dizer, todos fizemos ballet, mas não há uma demanda técnica como eles fazem porque eu já não treino assim”, conta a coreógrafa, que durante a pandemia de Covid-19 começou a preparar o que pode vir a ser um livro de memórias.
“Pensava que tinha de ser produtiva. Não podia ir a lado nenhum, não podia viajar com a companhia… Decidi escrever o meu memoir. Mas não cheguei muito longe”, diz entre risos. “Andar para trás, explorar a minha família… É uma família louca.”
▲ Em “Geranium ’64”, Childs surge suspensa por uma corda, puxada por um bailarino fora do palco. Na versão original da peça, a corda estava presa à parede
Alexandra Polina
Natural de Nova Iorque, Lucinda Childs nasceu em 1940 e cresceu na nobreza do Upper East Side, no seio de um pai médico e uma mãe modelo, ambos resistentes em deixá-la voar. “Comecei tarde, os meus pais não queria quem eu tivesse aulas de dança, queriam que eu tocasse piano”, recorda. “Por outras palavras, a minha família não era a favor desta ideia. Infelizmente, desapontei o meu pai.”
Quando entrou pela porta da Sarah Lawrence, uma universidade norte-americana nos arredores de Nova Iorque dedicada às artes, sentiu que tinha de recuperar o atraso. A carreira despontou pouco depois, no Judson Dance Theater, em 1963. Fez parte de um grupo revolucionário de artistas que experimentava então uma nova abordagem à dança que, entre outras coisas, evitava o “espetáculo”. Childs tornou-se sinónimo de movimentos minimalistas, executados com precisão, ricos em repetições e variações. “O Merce Cunningham foi o professor mais importante. De repente tinha no estúdio John Cage, Jasper Johns, Robert Rauschenberg. Estava num meio incrível de todos estes artistas contemporâneos, todos a trabalhar juntos. Foi uma altura muito, muito entusiasmante. Era o sítio para se estar. Não havia melhor sítio para estar, a meu ver.”
Dançou em coreografias de Yvonne Rainer, Steve Paxton, Robert Morris. Em 1973, emancipou-se e criou a sua própria companhia, a Lucinda Childs Dance Company, e concebeu mais de 50 obras, tanto a solo como em coletivo. Recebeu inúmeros prémios, incluindo o Dance Magazine Award, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza e o prémio Samuel H. Scripps American Dance Festival, pela sua carreira. Em 1976, fez Einstein On the Beach, a ópera vanguardista de Philip Glass e Robert Wilson que marcaria o seu percurso para sempre.
“É uma questão que tenho feito a mim mesma ao escrever. O que quero que as pessoas se lembrem?”, interroga-se, sem estar certa da resposta. “Einstein on the Beach foi muito importante para mim”, admite. “A colaboração com Bob Wilson também”, continua. Dance, que Childs coreografou em 1979, com composição de Philip Glass e filme de Sol LeWitt, também é um dos pontos altos da sua carreira. Um peça para palco abstrata e minimalista, que fez digressões internacionais e foi adicionada ao repertório do Ballet da Ópera de Lyon.
Haveria muito por onde mergulhar numa carreira vasta e com tantas memórias, mas o confinamento foi curto para que perdesse mais tempo a navegar em águas passadas. Assim que o mundo recuperou alguma normalidade, Childs apanhou o primeiro voo que pôde, retomou os projetos com a companhia, voltou aos espetáculos com Robert Wilson, colaborador de longa data. “Nunca mais toquei [no manuscrito]”, confessa. “É um trabalho difícil. É um grande projeto.”
O tempo é escasso e contado ao minuto, sinaliza-nos a equipa que a acompanha ao Porto. “Quem me dera que houvesse uma outra forma”, diz, quando lhe perguntamos sobre a eterna vida entre bagagens de porão, horários de voos e quartos de hotel. “Há coreógrafos que dizem que já não voam. Mas eu preciso de estar fisicamente aqui, sobretudo para interpretar”, assegura.
Não deixa de ser curioso que uma figura como Lucinda Childs tenha trabalhado tão pouco no seu país de origem. “É verdade. A mesma coisa com o Bob Wilson. Somos mais convidados para trabalhar aqui, na Europa, do que no nosso próprio país. O que diz muito do nosso país…”, deixa escapar.
▲ "Comecei tarde, os meus pais não queria quem eu tivesse aulas de dança, queriam que eu tocasse piano", recorda. "Por outras palavras, a minha família não era a favor desta ideia"
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Pouco dada a posicionamentos públicos, Lucinda Childs explica porque os tempos que vivemos adquirem regime de exceção. “Normalmente não [falo], mas nesta situação, se não perguntasse eu não o mencionaria, mas se perguntou, falo de bom grado”, precipita.
“[O que se passa hoje nos EUA] É terrível. Vai além do imaginável. Há quem faça referências a McCarthy [ex-senador norte-americano], mas isto é muito pior. Houve muito sofrimento naquele tempo, as pessoas eram tratadas pessimamente, mas isto é simplesmente alucinante porque inclui a Europa, o Canadá, e a Gronelândia. Há tanta coisa que está a ser mal feita, com incompetência. É terrível. Estou muito, muito triste”, critica. “Nada disto aconteceu alguma vez, pelo menos não no meu tempo de vida, que é longa. As pessoas em controlo estão a fazer coisas que não são aceitáveis.”
Numa altura em que é habitual que lhe peçam para olhar pelo retrovisor, em jeito de retrospetiva, como olha Childs para o futuro? “Bem, temos de ultrapassar isto, e temos de manter o nosso espírito elevado, e ficar o mais alerta possível para ver se há alguma coisa que possamos fazer. Estou muito feliz por haver um movimento no país com dois nomes importantes, Bernie Sanders e AOC, como lhes chamamos, a Alexandria Ocasio-Cortez. E eles estão lá fora, e estão a receber grandes multidões. Ela está a ir a todo o país, e a conseguir grandes multidões. Isso é a coisa mais positiva que está acontecer neste momento. As pessoas parecem estar a ouvir. Aqui estamos neste caos. O que podemos fazer?”.