É um homem de meia-idade, chama-se Luís, vem acompanhado por um rapazinho e estão ambos claramente deslocados no meio da multidão de criaturas “alternativas” que dançam, saltam e se contorcem ao som da música techno ribombante que sai de uma parede de colunas de som, em pleno deserto de Marrocos. Luís e o filho não vieram dançar, fumar charros nem consumir LSD. Eles andam, em Sirât, à procura da filha e irmã, Mar, que desapareceu em Marrocos faz vários meses numa rave como esta, e distribuem por toda a gente folhetos com uma foto dela e um número de contacto. Mas ninguém a conhece nem se lembra de a ter visto.
[Veja o trailer de “Sirât”:]
Realizado por Oliver Laxe, produzido pela El Deseo dos irmãos Almodóvar e vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes, Sirât começa por parecer um thriller (pai e filho buscam uma parente adolescente num ambiente estranho e, à primeira vista, pouco acolhedor). Mas a rave é interrompida pelo exército marroquino, os participantes são dispersados, e Luís (Sergi López, um dos poucos atores profissionais do elenco) e o filho Esteban (Bruno Núñez Arjona), na esperança de encontrarem Mar, decidem seguir dois camiões com cujos passageiros falaram e que desobedeceram às ordens dos militares, rumando à Mauritânia, onde haverá outra rave. E Sirât transforma-se num misto de road movie marginal e de Dakar dos ravers, tão bravia, perigosa e desafiadora é a rota escolhida, por deserto e montanhas.
[Veja uma entrevista com Oliver Laxe:]
Luis e Esteban viajam numa carrinha nada adequada às estradas e aos caminhos que vão percorrer. E têm que ser auxiliados na travessia pelos espanhóis e franceses que vão nos dois camiões, Jade (Jade Oukid), Steffi (Stefanian Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Tonin (Tonin Janvier) e Bigui (Richard Bellamy), e que parecem viver neles e andar de rave em rave, acabando por se instalar um espírito de entreajuda, com a partilha de combustível, comida e água. Entretanto, e graças à rádio de um dos camiões, apercebemo-nos que começou, lá longe, um conflito mundial.
[Veja uma entrevista com Sergi López:]
O título da fita refere-se, na escatologia islâmica, à estreitíssima ponte que aparecerá sobre o inferno no Dia do Juízo Final, e que apenas os justos conseguirão atravessar, caindo todos os outros nas chamas castigadoras. Parece óbvio que Oliver Laxe quer lançar as personagens de Sirât numa jornada infernal de provação, com fundo apocalíptico de guerra nuclear e pretensões de subentendidos religiosos, ou pelo menos “espirituais”. Só que o filme é mais monótono e mastigado, e menos tenso e crispado do que se poderia esperar, e tem bastante palha entre os seus dois únicos picos emocionais, o acidente trágico na estrada montanhosa e o clímax de roer as unhas nem pleno deserto.+
[Veja uma sequência do filme:]
Laxe também não consegue que o deserto, mais do que um cenário, uma paisagem, seja igualmente uma personagem de pleno direito da história, e este formato narrativo já foi mais bem feito e bem contado em dois filmes com vários pontos de contacto com Sirât: O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot (1953), e o seu remake, O Comboio do Medo, de William Friedkin (1977), dos quais esta fita é como que o parente menor, atulhado de música techno e trance, coberto de tatuagens e de charro nos lábios.