Valioso pela simplicidade dos gestos e pela sobriedade das emoções, Two Seasons, Two Strangers, novo filme do japonês Shô Miyake (curiosamente o último a ser mostrado a concurso), venceu este sábado o Leopardo de Ouro da 78.ª edição do Festival de Locarno, na Suíça. Foi o preferido do júri presidido pelo cineasta cambodjano Rithy Panh, a produtora e argumentista americana Joslyn Barnes, a actriz suíça Ursina Lardi, a actriz neerlandesa Renée Soutendijk e o realizador mexicano Carlos Reygadas.
Os “estranhos” do título deste novo trabalho de Shô Miyake dividem-se em duas partes. Na primeira, assistimos ao encontro de um rapaz e de uma rapariga na casa dos vinte anos, ambos imaginados por uma argumentista (papel da actriz sul-coreana Shim Eun-kyung) no Verão de uma orla costeira. Em seguida, o filme passa para o Inverno, para uma aldeia montanhosa coberta de neve, onde a argumentista da história anterior, em busca de um sítio para passar a noite, cruza-se com um enigmático homem que lhe oferece hospedagem. As duas histórias acabam então por reverberar uma na outra, a imaginada e a vivida. As interpretações são notáveis, em especial a da actriz principal. As personagens são baseadas em livros manga do autor surrealista Yoshiharu Tsuge, sem que o filme evidencie a nível técnico qualquer inspiração desse traço animado.
Miyake (n. 1984) vem da geração imediatamente posterior à de Ryûsuke Hamaguchi e tem privilegiado personagens solitárias, magoadas, frequentemente relacionadas com a história de lugares específicos. O seu cinema é devedor do trabalho de Shinji Sômai (1948-2001), cuja obra não teve ainda a divulgação que merece no Ocidente. Há três anos, Miyake estreou um filme extraordinário no concurso da (entretanto reformulada) secção Encounters, da Berlinale, Small, Slow But Steady (2022), drama existencial em torno de uma lutadora de boxe que era também deficiente auditiva. Com Two Seasons, Two Strangers, Locarno confirma agora o seu valor: é o prémio mais significativo do percurso do cineasta.
“Two Seasons, Two Strangers”, de Shô Miyake
Ignorado do palmarés foi o grande trunfo que Locarno conseguiu desviar da “concorrência”, de longe o filme mais badalado do festival pela imprensa internacional — Mektoub, My Love: Canto Due, de Abdellatif Kechiche — assim como um dos mais irreverentes, Dracula, de Radu Jude.
A um nível mais frontalmente político, foi ruidosa a ausência de prémios para With Hasan in Gaza, construído a partir de material de arquivo julgado perdido há mais de vinte anos e entretanto reencontrado por Kamal Aljafari, cineasta nascido em Ramla, uma das vozes mais vivas do actual cinema da Palestina. Em 2001, Aljafari estava em Gaza para reencontrar um companheiro. Filmou a vida, o destino, as batalhas do seu povo. Nada mais do que se vê em With Hasan in Gaza existe para lá desta inscripção. Retrato de uma terra ocupada, o filme cristaliza os movimentos de uma vida incomparável à catastrófica situação presente, num tempo em que também o Hamas era apenas um pequeno partido e não havia ainda imposto a sua lei. Gaza foi assunto omnipresente na cerimónia de entrega dos prémios. Já With Hasan in Gaza acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser exibido em todo o mundo.
“With Hasan in Gaza”, de KamalAljafari
Sobre o conflito no Médio Oriente, o júri de Rithy Panh preferiu validar antes Tales of the Wounded Land, filmado pelo iraquiano Abbas Fahdel no sul do Líbano, em Nabatieh e regiões circundantes — é essa a “terra ferida” do título — massacradas pelos bombardeamentos israelitas de Outubro de 2024. Ali vive ainda o cineasta com a mulher Nour e a filha do casal, tão pequenina mas já tão familiarizada com sirenes de emergência, “boums” e desesperados planos de evacuação. Imagens de drones, de valor sempre discutível, medem o grau de destruição que Fahdel testemunhou. Venceu o prémio de Melhor Realização.
“Tales of the Wounded Land” valeu a Abbas Fahdel o prémio de Melhor Realização
Por outro lado, Locarno continuou a ser rampa de lançamento para cinematografias mais pequenas, como a portuguesa, este ano representada por As Estações, de Maureen Fazendeiro e pelo documentário Nova’78, de Rodrigo Areias e Aaron Brookner. Já houve anos mais abundantes para o cinema nacional, mas é preciso ser realista: na Mostra de Veneza, que está à porta — começa dentro de dez dias — não haverá cinema português salvo a exibição, em cópia restaurada, de Aniki-Bóbó, filme de Manoel de Oliveira realizado há mais de 80 anos.
Com a “medalha de prata” do Prémio Especial do Júri de Locarno ficou White Snail, que a dupla austríaca Elsa Kremser e Levin Peter foi rodar à remota Bielorrússia, em condições de dificuldade acrescida devido à Guerra na Ucrânia. Havia bem melhor para tão alta distinção, dramaticamente falta-lhe consistência. O trunfo de White Snail é a sua dupla de intérpretes, ambos não-profissionais (e também galardoados), unidos por uma história romântica a priori nada provável (tal como acontecia em Anora, de Sean Baker): uma jovem aspirante a modelo de Minsk que sonha partir para a China, com queda para dark lady, e um homem solitário, pintor nas horas vagas, que ainda vive na casa dos pais e trabalha na morgue local. Atraídos pela morte, ainda chegam a colocar em equação um futuro em conjunto que rapidamente desaba pela realidade.
“White Snail”, de Elsa Kremser e Levin Peter: Prémio Especial do Júri
Também não faltaram equívocos à recta final do festival. Locarno nada ganhou em acrescentar um 18.º filme aos 17 títulos previamente anunciados. Ficou subentendido que a graça concedida deveu-se ao nome da realizadora em questão, a japonesa Naomi Kawase, que concorreu várias vezes à Palma de Ouro de Cannes nestes últimos vinte anos. Além de melodrama xaroposo, Yakushima’s Illusion, com Vicky Krieps numa equipa francesa de pediatras enviada para o Japão, cruza todas as linhas de mau gosto ao misturar desilusões sentimentais com crianças em estado terminal à espera de transplantes de órgãos, num país em que o assunto é tabu.
Voltemos antes a dois premiados: Mare’s Nest, de Ben Rivers (venceu o Pardo Verde) e Dry Leaf, de Alexandre Koberidze (Menção Especial). Seria ingrato não mencionar o facto de Rivers ter inventado um mundo só com crianças, numa nova aproximação do britânico a um imaginário de ficção-científica. A ideia de Mare’s Nest não é especialmente original. Afinal, que pode ainda ser inventado? Mas nestes meados de anos 20 do presente século, nestes tempos em que o mundo, não satisfeito de ter atravessado uma pandemia, continuou a abrir frentes de guerra e de retrocesso civilizacional, é saboroso depararmo-nos com a alegoria de um filme que inventa muito com quase nada; no caso, um mundo sem paternalismos que só as crianças podem habitar.
“Mare’s Nest”, de Ben Rivers
Em Mare’s Nest temos uma guia, que nos leva pela mão: uma miúda, chama-se Moon. Estamos num filme de sketches que é também um road movie por um enigmático território em que não há adultos. Em paisagens desertas, Moon guia um automóvel, fala com tartarugas e diz coisas que não são para os 10 anos de idade que aparenta ter. Mais tarde cruza outras crianças da sua idade que já não falam inglês, mas catalão (o filme foi rodado em parte na ilha de Menorca, nas Baleares). Com outro grupo, volta ao inglês e participa na representação de uma peça de um só acto de Don DeLillo, The Word For Snow. E continuam neste mundo de aventuras, sem saberem aonde vão dar.
Já o georgiano Alexander Koberidze, apresentado em Portugal pela estreia comercial em sala de O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?, estimula a reverie do espectador com jogos pouco comuns entre imagem e voz off. Na sua terceira longa-metragem agora estreada em Locarno, Dry Leaf, a audiência é persuadida a acreditar em personagens invisíveis, por exemplo. O filme prolonga o fluxo do encantamento narrativo dos trabalhos anteriores. Seguimos duas personagens em busca do paradeiro de Lisa, uma fotógrafa que saiu de casa após ter deixado breve carta à família. Supostamente, ela anda pela Geórgia rural a fotografar campos de futebol abandonados, ou já em ruína. Por ter deixado de dar notícias, o pai dela e um amigo chegado decidem partir no seu encalço.
“Dry Leaf”, de Alexander Koberidze, estimula a reverie do espectador com jogos pouco comuns entre imagem e voz off
Sinopse esquisita, “sem história”, com personagens que desaparecem? Programa insensato? Koberidze não se rala. Dry Leaf está próximo do filme que apresentou o georgiano ao mundo, Let the Summer Never Come Again, revelado pelo Fid Marseille em 2017 (certame que Koberidze, aliás, ganhou.) Dry Leaf é uma opção estética arriscada, decerto pouco convidativa para os hábitos do olho guloso de 2025. Ambos os filmes foram rodados com a câmara de um telemóvel Sony Ericsson, anterior à proliferação dos smart phones. Que resultado dá isto nos ecrãs de Locarno? As pessoas, a natureza e os objectos têm formas perceptíveis, mas a imagem é quase sempre baça, por vezes desfocada pela baixa definição, um “borrão” que se aproxima da pintura e se afasta de uma representação convencional da realidade no cinema. Foi um dos filmes mais arrojados do festival e, certamente, de todo este 2025.
Conclusão: do que foi possível ver após cobertura parcial do concurso, esta 78.ª edição de Locarno, sem ser memorável, esteve à altura do seu historial e deu um contributo evidente para a diversidade do cinema contemporâneo. Não isento de falhas — artísticas e políticas — o festival acabou por coroar a ouro uma obra de valor que passou ao lado de todas as controvérsias.
PALMARÉS LOCARNO 2025
LEOPARDO DE OURO
TWO SEASONS, TWO STRANGERS
De Shô Miyake (Japão)
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
WHITE SNAIL
de Elsa Kremser e Levin Peter (Áustria/Alemanha)
MELHOR REALIZADOR
ABBAS FAHDEL
Por “Tales of the Wounded Land” (Líbano)
MELHORES INTERPRETAÇÕES
MARYA IMBRO e MIKHAIL SENKOV em “White Snail”, de Elsa Kremser e Levin Peter
(Áustria/Alemanha)
MANUELA MARTELLI e ANA MARIJA VESELCIC em “God Will Not Help”, de Hana Jušić
(Croácia/ItáliaRoménia/Grécia/França/Eslovénia)
MENÇÃO ESPECIAL
DRY LEAF
De Alexander Koberidze
(Geórgia/Alemanha)
CINEASTAS DO PRESENTE
LEOPARDO DE OURO
HAIR, PAPER, WATER…
De Nicolas Graux e Trương Minh Quý
(Bélgica/França/Vietname)
PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
GIOIA MIA
de Margherita Spampinato
(Itália)
MELHORES INTERPRETAÇÕES
AURORA QUATROCCHI em “Gioia Mia”, de Margherita Spampinato
(Itália)
LEVAN GELBAKHIANI em “Don’t Let the Sun”, de Jacqueline Zünd
(Suíça/Itália)
MELHOR REALIZADOR EMERGENTE
CECILIA KANG por “Hijo Mayor” (Argentina/França)
MELHOR PRIMEIRA-OBRA
BLUE HERON
De Sophy Romvari (Canadá/Hungria)
PARDO VERDE
MARE’S NEST
De Ben Rivers (Reino Unido/França/Canadá)
CURTAS-METRAGENS
PARDINO D’ORO
(INTERNACIONAL)
HYENA
De Altay Ulan Yang (China)
(CORTI D’AUTORE)
A VERY STRAIGHT NECK
De Neo Sora (Japão/China)
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia