Joaquim Oliveira, empresário que fundou a Olivedesportos, empresa detentora do canal desportivo SportTV e de ações das SAD de Benfica, FC Porto e Sporting, morreu este sábado, aos 78 anos. De acordo com o Correio da Manhã, o irmão do antigo jogador e treinador António Oliveira foi vítima de uma bactéria hospitalar contraída durante um tratamento. Segundo um comunicado da família, assinado pela mulher, pelos filhos e pelos netos, e a que a agência Lusa teve acesso, a morte aconteceu em consequência de uma “pneumonia grave”.

Em comunicado, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), através do seu presidente Pedro Proença, já reagiu à notícia, destacando o “legado de Oliveira”. “Joaquim Oliveira foi uma figura importantíssima na promoção e desenvolvimento do futebol português, que fica inegavelmente mais pobre com a sua partida. À família, em especial à mulher e aos filhos, e a todos aqueles que com ele tiveram o privilégio de privar, deixo em meu nome pessoal, e em nome da FPF, as mais sentidas condolências”, disse Proença.

“O futebol português fica de luto com a partida de Joaquim Oliveira. Portugal perdeu uma das maiores referências nacionais e eu perdi um amigo de uma vida e uma pessoa por quem tinha uma sincera e enorme estima pessoal e profissional. Vamos ter um minuto de silêncio nos jogos deste fim de semana em sua memória. Que saibamos honrar o seu exemplo, a sua paixão e o seu histórico legado”, partilhou, por sua vez, Reinaldo Teixeira, presidente da Liga Portugal. Tanto a FPF como a Liga Portugal decretaram um minuto de silêncio nos jogos dos próximos dias.

“É com profundo pesar e consternação que o FC Porto lamenta o falecimento de Joaquim Oliveira, personalidade que marcou o setor da comunicação e o desenvolvimento do desporto em Portugal, associado número 5.262 do clube e vencedor do Dragão de Ouro para sócio do ano em 1990. A sua visão, o seu espírito empreendedor e o seu enorme contributo para o crescimento e modernização do desporto formam um legado que ficará para sempre associado à modernização do futebol português e da sua indústria. O FC Porto endereça sentidas condolências à família, amigos e colaboradores de Joaquim Oliveira e presta homenagem a uma personalidade que ficará para sempre gravada na história do clube e do futebol português”, declararam os dragões.

O legado do empresário que mudou o futebol português

Nascido a 12 de fevereiro de 1947, em Penafiel, Joaquim Oliveira tornou-se num dos principais nomes do futebol português, mas não foi só pelo desporto que passou o seu nome. No período pré-25 de abril, Joaquim dividiu-se entre Penafiel, Lisboa e Angola, onde cumpriu o serviço militar durante a guerra colonial, tendo sido precisamente em Luanda que teve o primeiro contacto com o mundo dos negócios, ao assumir a gerência de um restaurante de várias sapatarias. No regresso a Portugal, assumiu a gerência de um clube de strip na cidade do Porto, em 1981, e, pouco depois, acabou por viajar para Lisboa, para acompanhar o irmão António na sua passagem pelo Sporting. Apesar de não ter a mesma apetência do irmão para o desporto rei, Joaquim Oliveira não virou a cara ao futebol e, quando chegou à capital portuguesa, conheceu um engenheiro civil que, entre 1989 e 1995, viria a ser vice-presidente do clube de Alvalade e lhe estendeu a mão. Anos mais tarde chatearam-se e Joaquim abriu uma charcutaria naquele que é hoje o Centro Comercial de Alvalade.

Por entre as ruas da capital e a extroversão de quem tem olho para o negócio, Joaquim Oliveira conheceu um italiano que lhe abriu o horizonte para outra vertente do futebol-negócio: a publicidade estática em redor do relvado. Foi assim que, em 1984, nasceu a Olivedesportos, marca que começou por tratar da publicidade estática e que rapidamente se associou aos grandes do futebol português, bem como à Seleção Nacional, tanto que, no ano seguinte, intermediou os direitos televisivos do Checoslováquia-Portugal, realizado em Praga (1-0). Nessa altura, criou ainda a Futinvest, uma empresa para agenciar jogadores e intermediar transferências no mundo do futebol. Contudo, a sua presença na liderança da agência durou pouco tempo, por Joaquim considerar que havia um eventual conflito de interesses. Cedeu a gestão da Futinvest a José, um empresário oriundo do Luxemburgo, e continuou a explorar a publicidade na Olivedesportos que, no início da década de 90, já estava em praticamente todos os estádios da Primeira Liga.

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Nessa altura virou a bitola para outro ramo e decidiu comprar o jornal O Jogo que passava por dificuldades financeiras, num negócio alegadamente avaliado em 250 mil euros. Foi ainda na década de 90 que a Olivedesportos se intrometeu no concurso dos direitos televisivos da Primeira Liga lançado pela Liga de Clubes, comprando-os por 9,9 milhões de euros, e que até então estava ligado a uma longa disputa entre a RTP e a SIC. Problema? A empresa não tinha qualquer canal de televisão, tendo de vender os direitos a canais externos. Com o negócio do futebol a render cada vez mais através da publicidade e dos direitos, Joaquim criou, em 1996, a PPTV, uma empresa que visava apenas comercializar a publicidade e os direitos televisivos. Essa empresa acabou por dar origem à SportTV, que nasceu dois anos depois como o primeiro canal televisivo desportivo do cabo, numa parceria que contemplava ainda a televisão pública e a Portugal Telecom. Foi assim que o empresário criou mais um modelo de negócio até então inédito em Portugal: cobrar para que o telespectador possa ver desporto na televisão da sua casa.

A eleição de João Vale e Azevedo para a presidência do Benfica foi um dos problemas que encontrou pelo meio, já que o novo presidente anulou os contratos assinados por Manuel Damásio e vendeu os direitos das águias à SIC. O processo contra Vale e Azevedo seguiu para tribunal e arrastou-se durante vários anos até, em 2003, o Tribunal Cível de Lisboa condenar o antigo presidente do Benfica a pagar uma indemnização de 25 mil euros à Olivedesportos. Nessa altura, Oliveira já detinha participações nas Sociedades Anónimas Desportivos de Benfica, FC Porto e Sporting, através da Sportinveste, holding criada em 1998. Ao chegar à SAD encarnada, o empresário perdoou uma dívida que o clube tinha por liquidar e trocou-a por 49,95% da Benfica Multimédia. Nos dragões assinou um acordo de 30 anos e ficou com 59% da parte da multimédia. Ao passo que, nos leões, comprou 25% da SGPS e ficou com opção de compra de mais 24%. Em 2004 comprou a participação que a RTP tinha na SportTV, aumentado para 50% a sua participação.

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Foi nesse ano que Joaquim Oliveira e o irmão António se desentenderam, com as divergências no mundo dos negócios a virem ao de cima. Foi também em 2004 que Joaquim ficou com a parte de António da Controlinveste, ligada à Sportinveste, e o treinador passou a deter 11% da SAD do FC Porto, percentagem que lhe valeu a posição de maior acionista individual da SAD do clube portuense. Em 2005 deu-se a maior compra de sempre de Oliveira: a Controlinveste comprou a Lusomundo Serviços à PT por 300 milhões de euros, detendo o Jornal de Notícias, o Diário de Notícia, o 24 Horas, o Açoriano Oriental e a rádio TSF, entre outros, num negócio que Joaquim Oliveira explicou, à data, como uma célebre frase: “Comprei um porco, recebi um chouriço”. 

A Lusomundo foi comprada à PT numa altura em que Joaquim Oliveira era acionista. O empresário manteve uma grande proximidade com a gestão da operadora e viria também a ser acionista da Zon que resultou do spinoff da PT Multimedia e, mais tarde, da NOS, empresa que juntou a Sonae e a Zon. Oliveira vendeu as participações nas duas empresas em 2015, numa altura em que já eram notórias as dificuldades financeiras do grupo Controlinveste.

Os últimos anos de Joaquim não foram fáceis e as perdas foram grandes, até que, em 2014, negociou com dois bancos (BES e BCP) credores três quartos da dívida do grupo, passando a deter 27,5% do negócio dos média, e mantendo-se como presidente do conselho estratégico. Foi aí que entraram dois novos acionistas: António Mosquito, empresário angolano, e Luís Montez, dono da promotora Música no Coração, passando a administração a ser liderada por Proença de Carvalho..

Em 2014, a Autoridade da Concorrência inviabilizou a entrada da PT no capital da SportTV, por considerar que a entrada dos dois maiores operadores de televisão paga colocava em causa a concorrência no setor, mas MEO, NOS e Vodafone acabaram mesmo por entrar no capital, com 25% cada, numa altura em que começaram a negociar diretamente os direitos de transmissão com os clubes, sem intermediários pelo meio, como era o caso de Joaquim Oliveira — a NOS detém os direitos de Benfica e Sporting, ao passo que a MEO tem, atualmente, os do FC Porto. Foi precisamente por aí que começou a azedar a relação do empresário com os clubes. Primeiro, em 2012, Luís Filipe Vieira decidiu recusar a proposta da PPTV e colocou os jogos em casa do Benfica na Benfica TV, vendendo-os depois à NOS, bem como os direitos de exploração do canal, agora denominado de BTV. Para além de perder os direitos de um dos clubes mais apetecíveis, Oliveira ficou ainda sem a Premier League, a Ligue 1 e a Serie A.

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Com Jorge Nuno Pinto da Costa a relação de amizade foi bem mais conturbada, terminando em dezembro de 2015, quando o então presidente do FC Porto vendeu os direitos televisivos e de publicidade à MEO. Oliveira tentou evitar o negócio a todo o custo e chegou a envolver Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, no assunto, sem sucesso. Mais recentemente, Joaquim Oliveira apoiou André Villas-Boas quando este apresentou a candidatura à presidência dos dragões.

Também a FPF, por Fernando Gomes, teve desacertos com o empresário, quando, em 2013, o presidente da Federação resolveu passar os direitos dos jogos da Seleção da SportTV para a UEFA. Gomes bateu logo o pé em 2011, quando entrou na FPF, ao renegociar o contrato com a Cosmos, a agência de viagens de Oliveira, responsável pelas deslocações das seleções. Mas a relação federativa manteve-se e continuou com Pedro Proença agora na presidência. Curiosamente foi com Proença no comando da Liga Portugal que o organismo que tutela o futebol profissional realizou o maior contrato de patrocínio da sua história, quando, em 2021, a Bwin garantiu o naming sponsor da Primeira Liga. A casa de apostas que pertence à Bet.pt, que tinha como acionista maioritário Joaquim Oliveira, terá pagado um valor acima dos seis milhões de euros, superando os 5,5 milhões oferecidos pela Betano, que avançou para tribunal por quebra de acordo.

Corrigido às 21h50 de dia 18 de agosto de 2025 com a correção da informação inicialmente avançada de que Fernando Gomes tinha sido administrador da Olivedesportos