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Com vários jornais, uma rádio, e sem televisão, a Global Media era mais vulnerável à crise da comunicação social
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Com vários jornais, uma rádio, e sem televisão, a Global Media era mais vulnerável à crise da comunicação social

ARMENIO BELO/LUSA

Com vários jornais, uma rádio, e sem televisão, a Global Media era mais vulnerável à crise da comunicação social

ARMENIO BELO/LUSA

Global Media. Do negócio de 300 milhões à venda das sedes até ficar com salários em atraso e um dono misterioso

Comprada por 300 milhões em 2005, a Global Media vendeu as sedes dos jornais, fez cinco despedimentos coletivos e conheceu vários acionistas até chegar a um dono misterioso e sem fundos para salários.

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Há quase 20 anos, em 2005, a Controlinveste de Joaquim Oliveira, o empresário que detém a Sport TV, bateu as propostas de outros grupos, incluindo a espanhola Prisa (que viria a comprar a TVI), com uma oferta que valorizou a Lusomundo em 300 milhões de euros. A negociação realizou-se num período de vazio político — Jorge Sampaio tinha demitido o Governo de Santana Lopes — e foi fechada antes da tomada de posse do primeiro Governo de José Sócrates.

Este grupo chama-se hoje Global Media Group e nos últimos anos mudou várias vezes de acionistas. Do último só se conhece o procurador em Portugal (e presidente executivo José Paulo Fafe) e um nome francês — Clément Ducasse — que é o gestor do World Opportunity Fund com sede nas Bahamas.

A dona dos jornais Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Jogo, do site Dinheiro Vivo e da rádio TSF enfrenta uma situação impensável quando a operação de 2005 foi feita, com salários em atraso desde dezembro, uma ameaça de despedimento de mais um terço dos seus 560 colaboradores e uma incerteza sobre o futuro. Para o presidente executivo, não há alternativa senão a reestruturação. Chamado ao parlamento, José Paulo Fafe justificou: “Não há dinheiro” e atirou culpas para anteriores acionistas, ex e atuais administradores e políticos.

O governo afastou, através do ministro da Cultura, uma intervenção direcionada para apoiar financeiramente o grupo — e muito menos uma nacionalização —, depois de fracassada a compra pelo Estado da participação na agência Lusa. Para Adão e Silva, a operação não serviria para injetar fundos na tesouraria do grupo, mas seria uma opção estratégica do Estado que permitiria dar uma ajuda à comunicação social privada com a cedência gratuita dos serviços da agência de notícias.

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“Tínhamos todos saído a ganhar se compra da Lusa tivesse sido concluída”. Pedro Adão e Silva confirma ‘não’ do PSD

Como chegamos aqui e cinco despedimentos coletivos em dez anos

Desde a crise de 2008/2009 que secou os mercados financeiros e colocou pressão sobre a banca para fechar a torneira do crédito a setores de maior risco que a comunicação social em Portugal tem sentido uma dificuldade crescente em obter fundos. O que, associado à queda das receitas de publicidade e às vendas em banca (no caso dos jornais), agravou ainda mais o quadro. E se, no passado, as crises eram ultrapassadas por ciclos de crescimento económico com retoma do investimento nos media, a mudança tecnológica e a digitalização dos conteúdos desviaram receitas para os motores de busca e redes sociais. Ao mesmo tempo que os consumidores desabituaram-se de pagar pelo acesso a notícias que lhes começaram a chegar gratuitamente.

Num mercado pequeno e com poucos hábitos de consumo de notícias fora da televisão, como é Portugal, o fenómeno agrava-se. Em particular nos grupos que não detêm televisão, meio que tem resistido à fuga de audiências e publicidade.

Joaquim Oliveira queixou-se de ter comprado um porco arriscando-se a receber um leitão, a propósito da compra da Lusomundo

LUSA/JOSE COELHO

É neste quadro que a Global Media, um grupo sem televisão e com uma grande exposição à imprensa, sofre, nesses anos, mais os efeitos da crise, com a agravante de ter um acionista muito endividado — Joaquim Oliveira — num tempo de grande pressão sobre os bancos para resolverem dívidas de alto risco. E, assim, inicia-se na Global Media um ciclo de mudança de acionistas, de instabilidade estratégica, venda de ativos e reestruturações com despedimentos coletivos que afetam mais o Diário de Notícias e a TSF.

Só entre 2009 e 2020, o grupo realizou cinco despedimentos coletivos e acordos para rescisão que afetaram jornalistas e outros colaboradores — 110 trabalhadores em 2009, 40 em 2010 pelo fecho do jornal 24 Horas e um jornal gratuito (o Global Notícias), em 2012 pelo fim do jornal Ocasião, 140 em 2014 com impacto nos jornais e TSF, e 81 em 2020. Uma parte destas reestruturações coincidiu com a entrada de novos acionistas, em movimentos também associados a acordos para reduzir a dívida com a banca.

De Joaquim Oliveira a Marco Galinha

Foi na sequência de um acordo com os bancos credores da Controlinveste e da Global Media em 2014 que Joaquim Oliveira reduz a sua posição, cedendo uma parte a bancos credores (BCP e Novo Banco) — dando lugar a novos acionistas como o empresário angolano António Mosquito e Luís Montez, promotor musical e genro de Cavaco Silva. Estes acionistas, em particular António Mosquito que investiu ainda na Soares da Costa, tinham boas relações com os bancos credores, em particular com o BCP que tinha como um dos seus maiores acionistas a angolana Sonangol. Daniel Proença de Carvalho assume, então, a presidência não executiva.

Daniel Proença de Carvalho assumiu a presidência não executiva depois de Oliveira deixar de controlar grupo

MÁRIO CRUZ/LUSA

Em 2017, o então CEO Vítor Ribeiro (que ocupou o cargo entre 2014 e 2019) dizia que o grupo estava em fase de consolidação e recuperação após a reestruturação desencadeada em 2014 que pretendia reduzir 160 trabalhadores, dos quais 140 por despedimento coletivo. Depois deste processo ficou com 750 pessoas. Nesse mesmo ano é conhecida a entrada do empresário macaense Kevin Ho que ficou com 30% do capital, mediante o investimento de 15 milhões de euros. Saem Mosquito e Montez e entra José Pedro Soeiro, “empresário e gestor com participação em empresas portuguesas, angolanas e do Reino Unido”, como se refere em comunicado.

Em setembro de 2020, Marco Galinha compra 40% da Global Media, entre os quais as participações dos bancos, por quatro milhões de euros, segundo foi noticiado, e a de Joaquim Oliveira. O empresário de Leiria assumiu o compromisso de colocar mais seis milhões para financiar uma nova redução de pessoal, desta vez de 120 pessoas, numa altura em que os jornais eram especialmente afetados pela pandemia.

Os ativos vendidos aos acionistas e que também serviram para pagar a banca

Além de reduzir os custos (por via do número de trabalhadores) para responder à queda de receitas, a Global Media foi também vendendo património. Primeiro, o mais valioso. A sede do Diário de Notícias, um edifício classificado situado no coração de Lisboa, foi vendida em 2016 por um valor entre 20 e 25 milhões de euros, segundo foi noticiado. Em 2018, a sede do JN, no Porto, foi alienada por cerca de 10 milhões de euros.

Presidente da Global Media diz que explicou a Marcelo negócio da Lusa antes do Presidente revelar surpresa

O atual presidente da comissão executiva, José Paulo Fafe, disse, no Parlamento esta semana, que o produto destas vendas realizadas durante o mandato de Proença de Carvalho “foi torrado”, não tendo sido investido no pagamento de dívida ou na reestruturação do grupo. Mas fontes contactadas pelo Observador contestam esta conclusão. No caso do DN, a maior parte do encaixe, cerca de 16 milhões de euros, terá sido canalizado para o BCP para amortizar a dívida bancária. Também pelo menos uma parte da venda do edifício do JN terá servido para amortizar dívida, já que estes imóveis tinham sido dados como garantias.

Sede do DN na Avenida da Liberdade vendida em 2016 era um dos ativos mais valiosos da Global Media

Ainda assim, algum do dinheiro da venda ficou no grupo. E terá financiado algumas opções ou aquisições denunciadas pelo atual presidente executivo como casos de “gestão danosa”, ainda que José Paulo Fafe tenha tido a cautela de separar as águas entre o advogado Proença de Carvalho que na altura presidia à Global Media e estas decisões.

Entre estas encontra-se a compra de equipamento novo de vídeo no valor de um milhão de euros “que estaria fechado numa sala” ou dívidas relativas a licenças de jogo em Macau e Malta. Segundo fontes ouvidas pelo Observador, estas últimas relacionadas com uma área de “gaming” que o acionista Kevin Ho quis explorar via Global Media, o que não foi possível confirmar.

O empresário de Macau, que ainda é o maior acionista da Global Media, surge associado, de acordo com uma investigação da revista Sábado de 2019, à compra da sede do JN por 9,5 milhões.

Marco Galinha, o empresário que queria a VASP e não gosta de perder dinheiro

Quando entrou em 2020 na Global Media, Marco Galinha estaria de olho em dois ativos do grupo, pelos quais terá chegado a fazer uma oferta antes de entrar na empresa: a participação na Agência Lusa e a distribuidora VASP. O empresário de Leiria, dono do Grupo Bel, que terá acumulado uma parte importante do seu património com as máquinas de distribuição de produtos (vending), adquire em 2021 à Impresa (dona do Expresso e da SIC) a empresa Páginas Civilizadas por 1,25 milhões de euros, o que lhe deu 22,5% da Agência Lusa. A Global Media já tinha 23,3%. E, assim, fica com 45,5%, no conjunto, só superado pelos 50,150% do Estado (via Direção Geral do Tesouro).

O empresário adiantou que quando estava na Global Media os ativos não estratégicos para venda já tinham sido identificados, mas garante que a sua compra salvaguardou sempre os interesses do grupo. O Grupo Bel comprou a Empresa Gráfica Funchalense e os terrenos e o edifício da Naveprinter na Maia (que passou a pagar renda), mas a maior aquisição foi a VASP, a principal distribuidora de jornais em Portugal. Esta aquisição começou em 2021 com a compra por um milhão de euros da posição detida pela Impresa, a dona do Expresso. Segundo disse Marco Galinha no Parlamento, a posição controlada pela Global Media na VASP foi comprada pelo mesmo valor pago à Impresa.

Um popular compra os jornais num quiosque de venda de revistas e jornais, em Lisboa, 13 de julho de 2013. Nos últimos anos, na Avenida da Liberdade, em miradouros pelas sete colinas, nos jardins, à beira Tejo, nas praças, os quiosques foram nascendo ou ganhando vida “como cogumelos” e, reinventando um centenário hábito lisboeta, puseram a cidade a mexer. (ACOMPANHA TEXTO). MIGUEL A. LOPES / LUSA

Marco Galinha comprou a principal distribuidora de jornais, a VASP

MIGUEL A. LOPES/LUSA

A totalidade da distribuidora de jornais e jogos sociais da Santa Casa foi adquirida com a compra dos 50% que eram da Cofina em 2023 por 4,5 milhões de euros de euros. Esta operação que resultou do exerício da opção de venda da dona do Correio da Manhã aguarda ainda luz verde da Autoridade da Concorrência e haverá receio por parte de alguns concorrentes de que a distribuidora fique nas mãos de um só acionista detentor de um grupo de imprensa. Durante a sua audição na comissão de cultura e comunicação, Marco Galinha apelou várias vezes à necessidade de dar apoios à distribuição de jornais que não chegavam a todo o país por causa dos custos.

Marco Galinha promete agir legalmente contra fundo a quem vendeu Global Media e que acusa de incumprimento

Marco Galinha falou numa “dívida monstruosa” mas garantiu que, durante a sua gestão, a dívida bancária foi reduzida em 90% e que depois de grandes dificuldades vividas na pandemia com perda de 12 milhões de euros em receitas (publicidade, mas também pela venda física de jornais) e que levaram a Global a aderir ao RERT (Regime Excecional de Regularização Tributária) para pagar dívidas ao Estado no valor de 7,5 milhões de euros, o EBITDA tornou-se positivo em 2,5 milhões de euros (reportando-se ao início de 2023).

Em 2023, o empresário diz que aproveitou uma oportunidade de negócio para vender a sua participação na Páginas Civilizadas e pelo qual terá recebido sete milhões de euros, segundo José Paulo Fafe.

Novo acionista teria fundos para dois meses de salário e o “rombo de três milhões”

Segundo Marco Galinha, o primeiro contacto para a venda surgiu em outubro de 2022, mas haveria quatro propostas de outros fundos. Diz que entrou na Global Media “como uma missão com amor ao país”, mas referiu igualmente que também gosta de ganhar dinheiro. “Eu sou operador na área logística e tenho os meus stakeholders” e invocou ainda, para justificar a sua saída, razões de saúde, a família e uma “enorme pressão”.

O dono da Bel afirma ter investido 16 milhões na Global Media em compras de dívida à banca, aumentos de capital, compra de ativos (participações) e suprimentos. E garante ter deixado fundos no grupo para pagar salários durante dois meses (sem precisar quando começa a contar o prazo).

O fundo que comprou a posição na Global Media — além dos 7 milhões que segundo Fafe foram pagos a Galinha — investiu mais 3,2 milhões de euros, mas a sua orientação passa por aplicar dinheiro em aquisições e reestruturações e não em pagar diretamente salários.

Três meses depois de chegar e ter anunciado planos de expansão nos mercados lusófonos e contratações — concretizadas apenas no Diário de Notícias — a Global Media anunciou uma reestruturação que passava pela saída de mais de um terço dos 530 colaboradores efetivos, o que poderia passar por mais um despedimento coletivo. Foi anunciada a intenção de suspender as prestações dos serviços com os correspondentes do JN e na TSF foram suspensas colaborações com colunistas e programas de opinião. Com a exceção do DN, cujo diretor foi escolhido por José Paulo Fafe e viu a redação reforçada com a atual gestão, os outros diretores dos órgãos do grupo estão demissionários, havendo ainda acusações de interferências editoriais e de desvalorização pública dos títulos.

Os trabalhadores do Global Media Group (GMG) cumpriram na quarta-feira um dia de greve

Protesto dos trabalhadores da Global Media

FERNANDO VELUDO/LUSA

Esta quarta-feira, os trabalhadores da TSF, DN, JN, Dinheiro Vivo e Jogo paralisaram e concentraram-se em protestos em Lisboa e Porto. Estes protestos e as audições que têm decorrido no Parlamento durante os últimos dias da legislatura colocaram o tema no topo das notícias, aumentando a pressão sobre os dirigentes do grupo.

José Paulo Fafe justifica medidas drásticas com o clássico “não há dinheiro”. E atribui a falta de tesouraria ao “rombo financeiro” nos planos do fundo de cerca de três milhões de euros. A maior fatia de 2,5 milhões de euros viria da venda da participação na Lusa que o Governo acabou por não concretizar apesar de já existirem (segundo Marco Galinha) responsabilidade pré-contratual e uma “assinatura digital” de um ministro. Quase ao mesmo tempo, e invocando o “impacto mediático” do anúncio da reestruturação, o Banco Atlântico Europa suspendeu, diz a Global Media, uma conta caucionada que era garantida pelas receitas que vinham da VASP (pela venda dos jornais do grupo em banca). Essa conta receberia cerca de 700 mil por mês.

O presidente da comissão executiva disse aos deputados que estas receitas vão passar a chegar diretamente à Global Media e indicou que o fundo se comprometeu a fazer uma transferência que permitirá regularizar, pelo menos em parte, os salários em atraso. Segundo a Lusa, os salários de dezembro na TSF já terão sido processados e foram pagos salários aos trabalhadores nos Açores onde o grupo detém o jornal Açoriano Oriental.

Palavras (pouco) civilizadas entre acionistas

A mudança acionista na Global Media ocorreu em setembro do ano passado quando o World Opportunity Fund (WOF) adquiriu uma participação de 51% na empresa Páginas Civilizadas, Lda. (Páginas Civilizadas), proprietária direta da Global Notícias – Media Group, SA (Global Media), ficando com 25,628% de participação social e dos direitos de voto na Global Media Group (GMG). Esta transação foi notificada ao regulador em outubro.

Marco Galinha deixou a presidência executiva que foi assumida por José Paulo Fafe. O dono da Bel garantiu que toda a informação financeira sobre a Global Media era do conhecimento do Fundo e que foram trocados mais de 600 mil emails. Diz que foi feito um rigoroso trabalho de compliance para verificar a capacidade financeira e idoneidade dos detentores do fundo e uma “due dilligence” para concretizar o negócio.

O sucessor contrariou esta versão umas horas mais tarde, também numa audição na comissão parlamentar de cultura e comunicação. “Fomos surpreendidos por factos, negócios que denotam a forma leviana como o grupo foi gerido””, disse José Paulo Fafe.

O presidente da Comissão Executiva do Global Media Group (GMG), José Paulo Fafe, discursa durante a sua audição na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, sobre o GMG, na Assembleia da República, em Lisboa, 09 de janeiro de 2024. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

José Paulo Fafe é a "única cara" do novo acionista da Global Media

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A gestão executiva da Global Media passa para uma nova equipa liderada por José Paulo Fafe indicado como procurador que, por sua vez, tem um contrato de gestão com o Fundo Opportunity que investe, mas não gere. Nas explicações dadas por Fafe, o único beneficiário último é Clément Ducasse, o administrador da sociedade gestora, a UCAP Bahamas Limited. E foi este o único nome remetido para a ERC, juntamente com a garantia, não fundamentada, de que nenhum detentor de unidades de participação do fundo ultrapassaria o limiar dos 5% no grupo dos media que obrigaria à sua identificação pela lei da Transparência. Fafe não dá essa informação, até diz que não sabe quem são os investidores nem tem de saber, e a ERC abriu um processo para averiguar quem são os donos do fundo que pode, no limite da lei, levar ao congelamento dos direitos de voto.

Marco Galinha, ainda acionista da Global Media, acusa o novo acionista de diversos incumprimentos, nomeadamente por não ter colocado os fundos previstos, e diz que vai acionar todos os mecanismos legais e judiciais em defesa dos contratos assinados com o World Opportunity. Nega ainda alegações feitas por José Paulo Fafe de que encontrou um passivo de 50 milhões de euros e mais faturas por pagar de cinco milhões de euros, além do que já teria sido detetado na due dilligence realizada antes do fecho da operação.

Quem são os novos donos e quem manda na Global Media? As dúvidas que levam a ERC a abrir processo

Já José Paulo Fafe reconheceu que enquanto procurador do fundo teve autorização para formalizar a aquisição, deixando a due dilligence para mais tarde.

Apesar do conflito acionista que emerge dos comunicados do atual e do ex-presidente executivo da Global Media e das declarações feitas no Parlamento, as audições também revelam uma grande proximidade entre os dois “homens fortes da GMG”. Fafe garante ainda que todos os membros da comissão executiva da Global, incluindo Marco Galinha, aprovaram o plano de reestruturação, o qual prevê a saída de 150 a 200 colaboradores.

O ex-presidente da Comissão Executiva do Global Media Group, Marco Galinha, durante a audição na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto esta manhã na Assembleia da República em LIsboa, 9 de janeiro de 2024. MIGUEL A. LOPES/LUSA

Marco Galinha terá apresentado proposta de compra do JN e do Jogo à Global Media

MIGUEL A.LOPES/LUSA

Por outro lado, e como testemunhou o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, foi Galinha quem negociou a venda da participação de 45,5% da Global Media na Lusa ao Estado. E foi também o empresário que quis apressar a operação para que ficasse fechada antes de vender ao fundo.

Para além do fundo que Fafe representa, e que tem indiretamente 27% do GMG através da Páginas Civilizadas, são ainda acionistas Kevin Ho que tem 30%, Marco Galinha que terá 24,5% e José Pedro Soeiro com 20%. O empresário de Macau é presidente da KNJ Investments Limited e tem projetos imobiliários em Portugal. Foi ainda este empresário que em 2022 e num evento realizado em Macau revelou planos para deixar de publicar em papel algumas publicações, o que aconteceu com o DN.

Kevin Ho não é o único elo a Macau no circuito de nomes que surgem envolvidos na venda da Global Media. Apesar de invocar acordos de confidencialidade quando questionado sobre com quem negociou a sua posição nas Páginas Civilizadas, Marco Galinha indicou ter negociado com representantes legais do fundo — o escritório de advogados de Macau, MdME, referindo o nome de José Leitão.

Quanto a José Pedro Soeiro foi o empresário com ligações a Angola que ficou com as ações de António Mosquito e que assumiu a presidência da Global Media após a saída de Proença de Carvalho em 2020 e até à chegada de Marco Galinha. Soeiro surge identificado no Linkedin como business developer com contactos no Dubai e para além da Global Media surge como acionista da Mota-Engil Angola.

Do Tal&Qual ao “poder” na Global Media e o papel do consultor Luís Bernardo

Fafe conta que conheceu Galinha há oito ou nove anos. Mas só quando este comprou a Global Media é que o convidou para uma conversa no Farol Design Hotel (de que é proprietário) para pedir conselhos, mas também para o convidar para o grupo. Fafe diz que o aconselhou a devolver o DN às bancas, o que veio a acontecer no final de 2022, e a encontrar parceiros no Brasil, África e até Macau para edições das marcas do grupo. Já o convite profissional ficou pelo caminho porque Fafe fez uma proposta financeira que Galinha considerou excessiva.

Ainda segundo José Paulo Fafe, foi nessa conversa que surgiu o relançamento do Tal&Qual, um jornal que estava fechado desde 2009 e que era propriedade da Global Media. Com o aluguer do título, veio a reclamação de uma dívida antiga do ex-jornalista a uma empresa da Lusomundo (antecessora da Global Media). O acordo era que Fafe pagaria 20 mil euros ao longo de 5 anos, mas os pagamentos foram suspensos após os primeiros meses, reconheceu o próprio, na sequência de um acordo com o empresário, contou aos deputados. “A ajuda que eu te vou dar é libertar-te do pagamento mensal, deixando-te pagar como te der mais jeito”, terá dito Marco Galinha.

Horas antes, o empresário justificou a cedência da marca Tal&Qual como uma tentativa de recuperar algum dinheiro de uma dívida que tinha mais de 20 anos. “Se ele paga ou não paga…. tenho a ideia de que está tudo em dia”. Ainda nesta audição, o empresário mostrou surpresa pelo escolha feita pelos novos acionistas para o suceder na comissão executiva. “Não é para desvalorizar, mas fiquei surpreso por ver como entregaram tanto poder a José Paulo Fafe”.

Microfone da CNN - Portugal, Lisboa, 03 de dezembro de 2021. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

José Paulo Fafe destacou o trabalho consultor Luís Bernardo no lançamento da CNN Portugal

António Cotrim/LUSA

O homem que recebeu o poder dá a sua versão de como saltou do Tal&Qual para um projeto que o levou a Genebra mais do que uma vez e à presidência da Global Media. José Paulo Fafe conta que foi bater à porta da UCAP, a sociedade gestora do fundo que ficava na Suíça — e que segundo o jornal Público levantou dúvidas a reguladores europeus —, por sugestão de um amigo, que não identifica, que a apresentou como um fundo e uma sociedade gestora que gere 30 mil milhões e que está disponível para investir em media. Foi a Genebra, aonde voltaria, mais tarde, com Marco Galinha.

Ao fim de 15 dias, recebeu o conforto para ir em frente e voltou “mandatado” para levar a cabo este projeto. “A primeira pessoa que desafiei a entrar no projeto foi o Luís Bernardo porque tenho confiança nele, tenho boa relação com ele. Apesar de conhecer o consultor desde a década de 1990, Fafe relatou que não falou com ele quanto Bernardo era assessor do ex-primeiro ministro José Sócrates (segundo Governo). Mas acompanhou o trabalho posterior, considerando que “tem provas dadas na montagem de projetos semelhantes”, diz, citando a Media Capital. Antes Luís Bernardo tinha trabalhado com Paulo Fernandes na compra da TVI. “Teve um grande trabalho no digital do Benfica. E foi um dos responsáveis pelo lançamento da CNN Portugal”.

Luís Bernardo participou em algumas reuniões com várias pessoas, mas Fafe garantiu aos deputados que o consutor de comunicação nunca esteve com o fundo e que foi contratado quando assumiu funções na comissão executiva. E até contratou uma assessora de comunicação sugerida pelo consultor.

Os estilhaços políticos e a proposta do ainda acionista para comprar o JN e o Jogo

Na longa audição realizada esta terça-feira, o presidente da comissão executiva da Global Media atirou ainda ao PSD, acusando-o de ter recuado no acordo dado à compra da posição do grupo na Lusa pelo Estado por razões políticas (queda do Governo), ao ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, pela falta de coragem para avançar com a operação, mas sobretudo ao Presidente da República. Para José Paulo Fafe, Marcelo será mesmo o principal culpado pela frustração do negócio pelo clima de “intriga” que terá instigado, sobretudo ao ter publicamente manifestado a sua “surpresa” pela compra da Lusa, quando o próprio lhe teria explicado dias antes toda a operação.

Presidente da Global Media diz que explicou a Marcelo negócio da Lusa antes do Presidente revelar surpresa

Ao contrário do fundo, que ninguém sabe quem é, o dono do grupo Bel tem de fazer negócios em Portugal e está mais exposto. E, como Marco Galinha contou, até houve um banco que quis deixar de trabalhar com ele quando investiu em comunicação social.

Além de ter ficado com o espólio histórico do grupo, que não queria que “fosse parar às mãos de um fundo estrangeiro”, Marco Galinha disse ter apresentado um plano urgente ao novo acionista. José Paulo Fafe revelou que recebeu de Galinha uma oferta — que, segundo apurou o Observador, estaria ligada a empresários do Norte — de 12 milhões de euros pela compra do Jornal de Notícias e do Jogo que, no entanto, foi recusada. Isto porque exigia que a maior parte dessa receita fosse utilizada para liquidar as dívidas ao Estado que estão a ser pagas em prestações, através do RERT. Ou seja, concluiu, não resolvia os problemas do grupo, apenas os adiava.

E, depois de reafirmar que ou a Global Media passa de 530 pessoas para 330 ou 350, ou não é viável, José Paulo Fafe recusou demitir-se. “Daqui não saio”.

 
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