Livro: Lucy
Autora: Jamaica Kincaid
Editora: Alfaguara
Tradução: Alda Rodrigues
Nascida Elaine Potter Richardson em Antígua em 1949, Jamaica Kincaid viria a tornar-se numa das mais proeminentes vozes literárias da literatura pós-colonial. Nos seus romances, agora a ser publicados na Alfaguara, chancela da Penguin, não raras vezes se vêem traços da sua vida. Este Lucy (1990) não será excepção, já que, como a personagem que dá nome ao livro, também a autora trabalhou como au pair nos Estados Unidos aos 16 anos. Também Annie John, publicado em 1985, incluía pontos autobiográficos que dificilmente passariam despercebidos a quem quer que conhecesse os contornos gerais da vida de Kincaid. Num e noutro livro, a autora, através de uma linguagem depurada, incisiva até, explora temas como a perda da inocência, o fim da juventude ou o peso da família.
No romance, conta-se a história de Lucy, que deixa a Antígua para trabalhar como au pair em Nova Iorque. A protagonista encontra na ida não uma procura de mundo ou de liberdade, mas uma fuga ao que deixa para trás, e ao passado com que rompe. Ao chegar, contudo, encontra o vazio, num movimento que Kincaid faz muito bem: é subtil a forma como Lucy, deparando-se com uma realidade nova, estranha as coisas e se sente à margem. Por exemplo, vendo o sol brilhar pela janela, assume que lá fora está calor, sendo-lhe difícil entender que, em Nova Iorque, é possível que esteja frio quando se pode ver o sol. Como esta, muitas outras coisas servem para lhe mostrar, dia após dia, que está longe de casa, numa realidade desconhecida que, por vezes, faz mossa e lhe tira o tapete debaixo dos pés. E, com isso, a enorme Nova Iorque também vai parecendo vazia, por vezes de tão incompreensível, contrastando com a vida cheia que Lucy deixa para trás.
Na nova casa, Lucy observa a família com quem está – Mariah, Lewis e as duas filhas –, presa entre o fascínio e a repulsa. A relação com Mariah é tensa: vê-a com boa-fé, e até gentil, o que a faz lembrar da mãe, mas a incapacidade de se entender verdadeiramente cria o mesmo espelho. E, estando Lucy com o peso emocional da fuga e da distância, até pequenas coisas servem para criar um gatilho emocional. Por exemplo, Mariah tenta oferecer-lhe narcisos, citando um poema que Lucy teve de memorizar na infância, e é o que basta para um efeito interior: afinal, as flores que a rapariga nunca vira bastam para se evocar o colonialismo, a mentira, e tudo o mais que a faz viajar sentimentalmente a casa. É que, tendo sido obrigada, aos 10 anos, a decorá-lo, vira-se furiosa por ter de citar versos sobre uma flor que nunca vira. Por dentro, esforçara-se por apagar da memória todas as palavras do poema, mas a memória impusera-se, e agora perseguia-a. De resto, o cuidado maternal que Mariah demonstra para com ela, incentivando-lhe os interesses e mostrando-lhe o caminho para os museus, mostra a clivagem entre aquele meio e o de Lucy, cuja própria mãe era mais dada a dureza e cuja relação era mais feita de silêncios – embora, e isto nunca desaparece, fique claro que ali havia mais honestidade. Ao mesmo tempo, o aparentemente perfeito casamento entre Mariah e Lewis tem, afinal, camadas de tensão que vão vivendo no subjectivo, sendo dificilmente aceites, admitidas.
Kincaid cria bem este jogo de distâncias, sem exagerar, sem dramas, mas mantendo a arder devagarinho a tensão. Nenhum momento do quotidiano parece desligado do estado emocional, num romance carregado de sentidos, em que se mostra que até os detalhes têm ansiedade dentro. Além disso, com habilidade, a autora criou uma narrativa em que rompe com a linearidade, saltando no tempo, evocando memórias, espetando uns momentos dentro de outros, deixando ao leitor a sensação de que o passado é uma coisa que não larga. A mãe de Lucy é uma figura que domina o romance todo, em parte pela sua ausência: ao afastar-se dela, a jovem cortou os laços com a vida que conhecia. Nada sobrou, de amigos a amantes a conhecidos. Chegou a Nova Iorque como se não tivesse amarras, mas as amarras atavam-na por dentro, e o isolamento denuncia mais do que isso, sendo a fase mais visível de uma solidão imposta. O papel da mãe de Lucy é de tal ordem, de tal proeminência, que é impossível aos leitores de Kincaid não fazerem a ponte com Annie John, onde também se desconstrói a relação entre mãe e a filha e se faz uma tentativa, mais do que de emancipação, de desapegamento.
Em Lucy, Jamaica Kincaid mostra um grande poder de contenção. A prosa, sendo seca, voa; sendo descritiva, impõe um estado emocional; sendo agarrada aos factos, transcende o quotidiano. Nenhuma acção se prende em si, tudo carrega algo mais. Em cada momento, há ambiguidade, e expectativas destruídas – tudo abraçado por uma sensibilidade permanente, que, ao invés de atravessar as camadas da vida, as expõe de forma horizontal.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.