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William recordou que o bom não tem de vir de fora (a crónica do Sporting-FC Porto)

Este artigo tem mais de 1 ano

Quando o FC Porto esteve por cima, não marcou. Quando William apareceu, fez os golos. Quando o Sporting arregaçou Mangas e promoveu a anarquia, reagiu e quase empatou. No final, ganhou o melhor (1-2).

William Gomes esteve na jogada do primeiro golo, marcou o segundo (num remate fantástico) e construiu quase todos os momentos de perigo do FC Porto em Alvalade
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▲William Gomes esteve na jogada do primeiro golo, marcou o segundo (num remate fantástico) e construiu quase todos os momentos de perigo do FC Porto em Alvalade

PATRICIA DE MELO MOREIRA

▲William Gomes esteve na jogada do primeiro golo, marcou o segundo (num remate fantástico) e construiu quase todos os momentos de perigo do FC Porto em Alvalade

PATRICIA DE MELO MOREIRA

A jornada era a mesma, a antecâmara do fecho do mercado de transferências também se repete, o período do ano também não muda. Tal como tinha acontecido em 2024, num dia que até ficou marcado pela notícia do despedimento de Roger Schmidt pelo Benfica, Sporting e FC Porto voltavam a encontrar-se na quarta ronda só com vitórias, a lutar pela liderança isolada – algo confirmado pela derrota do Moreirense em Barcelos com o Gil Vicente – e atravessarem um bom momento ainda com o plantel nas últimas mudanças, agora tendo as chegadas de Ioannidis e Kiwior (pelo menos) e as saídas de Conrad Harder, Ricardo Esgaio e Zé Pedro (entre outros). No entanto, e daí para a frente, tudo era oposto ao que se tinha visto na última época, dos técnicos às principais referências, passando pelos esquemas táticos e pelas próprias ideias de jogo, com esse claro mote: o velho Sporting com uma nova pele tática defrontava o novo FC Porto com a velha mentalidade.

Sporting-FC Porto. Victor Froholdt remata à malha lateral (0-0, 35′)

“Não acho que parta à frente por estar há mais tempo no Sporting. O FC Porto é uma equipa fiel ao seu jogo, muito vertical, um jogo agressivo com bola, ao nível defensivo forte em duelos. Fisicamente tornou-se mais forte e temos de estar preparados para os duelos, para equilibrar essa parte em termos físicos e impormos o nosso jogo. São duas equipas confiantes, que jogam bem. Supertaça? É um adversário diferente. Em relação à intensidade, temos de ser iguais a eles. Temos qualidade técnica para nos sobrepormos a essa capacidade física do FC Porto, estamos habituados a equipas que procuram duelos e que marcam 1×1. Até posso dar um ligeiro favoritismo ao Sporting mas apenas por jogar em casa, espero que os nossos adeptos possam fazer a diferença. Também são fortes nas bolas paradas defensivas, não temos o Diomande que é bom nessa parte mas devemos adaptar-nos a isso e continuar a ser fortes”, apontara o técnico Rui Borges.

Depois de um arranque de pré-temporada que não deixou saudades, a Supertaça foi mostrando um Sporting diferente apesar da derrota frente ao Benfica e o arranque do Campeonato, com o triunfo frente ao Casa Pia, consolidou uma equipa bem mais solta, rotinada e envolvida com a nova referência ofensiva, Luis Suárez. Até no plano recuado, com a nova linha de apenas quatro unidades que constrói da mesma forma mas defende com outro modelo, só sentiu dificuldades nas bolas paradas defensivas contra o Nacional. Ainda assim, este seria o primeiro grande desafio a essa fase crescente dos leões, com outros dilemas defensivos e ofensivos como os leões não tinham encarado até agora jogando num Alvalade renovado e com casa cheia.

“Estes jogos são também afetados pela parte emocional. A parte crucial é tratá-lo como mais um. Vai ser importante mas perder, empatar ou ganhar não vai definir nada. Temos de lhe dar atenção mas não torná-lo maior do que é. Favoritismo do Sporting? Temos muito respeito, vamos jogar na casa dos campeões. É correto o que disse [Rui Borges] mas vamos lá com as nossas ideias, com o desejo de continuar o nosso processo. É continuar o nosso caminho. Vamos com a nossa mentalidade, temos muito respeito e desejo”, destacara Francesco Farioli, que juntou na antecâmara do encontro um “picante” extra: “Foi um jogo mais complicado de preparar, temos de ver vários jogos quando os adversários estão com 11. Nos últimos jogos, foi difícil ver os adversários com 11 diante do Sporting. Num terço dos jogos, jogaram contra dez jogadores. Preparámos todos os cenários, em inferioridade também, só pelo sim pelo não…”.

O que o técnico disse era um facto, o que aconteceu do outro lado também são factos. Facto 1: no último ano, antes de chegar a Alvalade, o FC Porto jogou sempre em superioridade. Facto 2: nos derradeiros quatro jogos ao Dragão, o Sporting teve cinco expulsões. Facto 3: desde que Rui Borges chegou aos leões, em comparação com os dragões, teve mais três expulsões e viu o adversário reduzido menos uma vez. No entanto, e num jogo que já se previa quente, Farioli fez por aquecer ainda mais o ambiente. Por um lado, os números jogavam a seu favor, depois de ter sido superior em todos os jogos grandes nos Países Baixos pelo Ajax em 2024/25. Por outro, sentia a equipa azul e branca confiante, cada vez mais identificada com a ideia de jogo, confortável em todos os momentos e capaz de desafiar um conjunto mais “consolidado” em sua casa.

Os dados do clássico estavam lançados, com uma surpresa de última hora que prometia mexer e muito com o que poderia ser o encontro: Gabri Veiga foi uma baixa de última hora devido a uma lombalgia aguda e ficou fora da ficha de jogo, dando lugar a Rodrigo Mora com Luuk de Jong na mesma titular em vez do regressado Samu. A ausência do espanhol, que agarrou na batuta do meio-campo qual número 10, fez-se sentir em parte mas nem por isso o FC Porto perdeu qualidade de jogo ou deixou de ser melhor. Porquê? Vendo a preparação do encontro, Farioli goleou Rui Borges, o meio-campo portista esteve quase sempre por cima e houve um herói improvável chamado William Gomes que parecia meio perdido na última época mas que voltou a mostrar aos responsáveis dos dragões que não é preciso gastar milhões de investimento como aconteceu até aqui perante a qualidade escondida que sobrava do plantel que transitou de uma temporada sem sucesso.

Ficha de jogo

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Sporting-FC Porto, 1-2

4.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: João Gonçalves (AF Porto)

Sporting: Rui Silva; Fresneda (Vagiannidis, 63′), Debast, Gonçalo Inácio, Ricardo Mangas; Hjulmand, Kochorashvili (Harder, 67′); Geny Catamo (Geovany Quenda, 63′), Francisco Trincão, Pedro Gonçalves (Alisson, 89′) e Luis Suárez

Suplentes não utilizados: João Virgínia, Matheus Reis, João Simões, Rayan Souza e Eduardo Quaresma

Treinador: Rui Borges

FC Porto: Diogo Costa; Alberto Costa, Nehuén Pérez, Bednarek, Francisco Moura (Zaidu, 58′); Alan Varela, Victor Froholdt, Rodrigo Mora (Pablo Rosario, 58′); William Gomes (Deniz Gül, 71′), Borja Sainz (Prpic, 79′) e Luuk de Jong (Samu, 79′)

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Zé Pedro, Stephen Eustáquio, e Vasco Sousa

Treinador: Francesco Farioli

Golos: Luuk de Jong (61′), William Gomes (64′) e Nehuén Pérez (74′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Bednarek (18′), Borja Sainz (33′), Debast (40′), Luuk de Jong (45+1′), Samu (64′), Gonçalo Inácio (66′), Pablo Rosario (68′) e Vagiannidis (80′)

O encontro começou a um ritmo diabólico e com uma bola no poste tendo 13 segundos decorridos: Diogo Costa lançou longo na frente após o pontapé inicial, Luuk de Jong foi bem à luta no jogo aéreo e Borja Sainz, sem marcação na área, aproveitou uma segunda bola perdida na área para atirar num pontapé de bicicleta ao poste da baliza de Rui Silva. Logo de seguida, numa saída que poderia ter criado muito perigo, Francisco Trincão foi derrubado por Alberto Costa a meio-campo e perdeu-se uma jogada que apanharia os portistas em contrapé. O FC Porto, com o pulmão Froholdt a querer ditar leis no meio-campo, ia ganhando confiança no clássico mesmo nos períodos de maior posse dos leões e William Gomes teve outra tentativa de longe à figura de Rui Silva (5′). A pressão verde e branca metia risco quando a bola saltava essa barreira inicial, a pressão portista metia risco quando a bola entrava nas costas dos laterais. O jogo estava bom.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-FC Porto em vídeo]

Luis Suárez, que rapidamente percebeu que teria muitas dificuldades em bolas pelo ar na área, quis mostrar-se ao jogo e deixou a primeira ameaça do Sporting no clássico, com um remate forte de fora descaído sobre a esquerda que passou muito perto da trave de Diogo Costa (9′), antes de uma tentativa de Ricardo Mangas numa segunda bola na área que saiu por cima (12′). Havia nessa fase um conjunto da casa mais confortável na partida mas bastaram dois erros no primeiro terço do Sporting para o FC Porto criar duas oportunidades com um remate de Luuk de Jong para defesa fácil de Rui Silva (19′) e uma mais distância de Froholdt que ainda desviou em Hjulmand e passou perto do poste (20′). Erros de um lado, erros do outro e, na sequência de um passe errado de Francisco Moura, Pedro Gonçalves surgiu isolado para um remate que ia enquadrado com a baliza de Diogo Costa mas acabou por ser cortado de carrinho por Alberto Costa (21′).

A partida parecia entrar então numa fase de tentativa de maior controlo com bola das duas equipas, com os lances individuais de William Gomes da direita para o meio a serem uma constante dor de cabeça não só para Ricardo Mangas como para toda a linha defensiva dos leões (30′). Até as paragens de jogo eram aproveitadas pelos dois treinadores para fazerem mini reuniões junto dos bancos, com Rui Borges a pedir verticalidade ao ataque do Sporting e Farioli a fazer sinal para o espaço que havia para explorar do meio-campo para a frente. Contudo, indicações à parte, era o FC Porto que estava melhor na partida, com Froholdt a ganhar em força uma segunda bola na área para rematar às malhas laterais (35′) e Mora a ter uma jogada de génio entre três adversários antes de atirar de pé esquerdo por cima (36′). Os leões continuavam a falhar muitos passes ainda no seu meio-campo fruto das boas zonas de pressão dos portistas e o intervalo chegava sem golos mas com os dragões por cima pela capacidade de ganharem o meio-campo com os movimentos de Mora e com os adeptos da casa protestarem um potencial penálti por marcar de Francisco Moura sobre Geny Catamo (45′).

As conversas ao intervalo teriam de fazer diferença. No caso de Farioli, apesar de tudo, era mais fácil: o FC Porto saía a partir de trás com segurança, descobria os espaços no meio-campo, conseguia colocar unidades entre médios e defesas e tinha zonas de pressão que bloqueavam a saída contrária. Do lado de Rui Borges, as mexidas eram obrigatórias para dar outra competitividade à equipa, fosse na forma de sair a jogar que fosse evitando o número anormal de passes de risco falhados, fosse nos equilíbrios sem bola que a equipa perdia quando a primeira barreira de pressão era ultrapassada, fosse na falta de presença no último terço em lances ofensivos que estavam muito dependentes da criatividade de Geny Catamo. Substituições, nem uma. E os leões até tiveram o primeiro sinal de perigo, com Kochorashvili a arriscar a meia distância por cima (47′), num clássico que não começou com o mesmo ritmo e que ainda procurava mais motivos de interesse.

O FC Porto perdera vida no meio, com os alas sem bola e em dificuldades para manterem os argumentos a descer da primeira parte (também pela forma como o meio-campo leonino bloqueava Froholdt). Foi isso que o Sporting foi tentando aproveitar, com Francisco Trincão, que andou desaparecido do jogo, a ganhar um palmo em posição central fora da área para rematar forte para defesa de Diogo Costa (56′). Foi isso que Farioli também percebeu, fazendo as primeiras duas alterações com entradas do estreante Pablo Rosario e de Zaidu para os lugares de Rodrigo Mora e Francisco Moura. Quase de forma direta, foi nessa fase que surgiu o primeiro golo do jogo: Zaidu deu em Alan Varela, o argentino soltou na direita para William Gomes fazer a combinação com Alberto Costa e Luuk de Jong surgiu ao segundo poste para encostar para o 1-0 (61′).

Só aí Rui Borges lançou Quenda, que já estava preparado, acrescentando Vagiannidis para refazer toda a ala direita. Ia tarde. Tão tarde que, logo de seguida, num momento de génio, William Gomes voltou a fazer a tal diagonal da direita para o meio para fazer um golo fabuloso que aumentou para 2-0 (64′). Eram dois choques demasiado grandes em termos anímicos em menos de três minutos para o Sporting recuperar tudo aquilo que fizera no arranque do segundo tempo, sendo que o técnico leonino ainda teve uma mexida de risco ao abdicar de Kochorashvili para lançar Conrad Harder (67′). Era o tudo por tudo, não demorou também a trazer resultados: com mais presença na área, um passe de Hjulmand para Mangas deu um cruzamento tenso que terminou com um autogolo de Nehuén Pérez depois de um corte defeituoso de Bednarek (73′).

O encontro voltava a ficar reaberto, com os leões a recuperarem desse abalo anímico dos dois golos sofridos sem que o FC Porto conseguisse aproveitar o espaço ainda mais evidente que havia do meio-campo para a frente face ao risco assumido pelo Sporting. Farioli deu um passo atrás perante o que acontecia, abdicando dos alas para jogar com dois avançados na frente e reforçar o eixo defensivo com Prpic, mas eram os leões que tentavam forçar, com Luis Suárez a ter um bom trabalho à entrada da área para um remate que ficou nas mãos de Diogo Costa (83′) e a obrigar depois o guarda-redes portista à melhor intervenção da partida em mais um grande lance individual (86′). Apesar do esforço, não seria suficiente para evitar a derrota, com Deniz Gül a ter ainda um remate perigoso para defesa de Rui Silva aproveitando todo o espaço (90+5′).

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