Em maio de 2018, António Carloto estava na Calçada da Glória a olhar para as rodas do ascensor em que circulava todos os dias depois de saber que tinha descarrilado. Soube por moradores da zona o que tinha acontecido e foi ver com os próprios olhos os estragos de um pequeno incidente que não provocou vítimas, para logo depois dizer ao Público que tinha havido “incúria” na manutenção do transporte e que as rodas da composição estavam desgastadas. “Descarrilou e desta vez não houve consequências. Da próxima poderá não ser assim”, afirmou na altura.
Um dia depois do acidente que esta quarta-feira tirou a vida a 16 pessoas no Elevador da Glória, o homem de 60 anos conta ao Observador o golpe de sorte que teve por estar de férias, e fora de Lisboa, quando se deu o acidente que temia há sete anos. António Carloto é funcionário da Santa Casa da Misericórdia e esta quinta-feira ao início da tarde dizia ainda não saber quem são os quatro colegas que morreram. Muitos dos funcionários, ele incluído, faziam diariamente duas viagens de funicular — que liga a baixa lisboeta ao Bairro Alto — para chegar e sair da instituição.
“Fiquei mesmo muito triste, porque todos os dias servia-me do ascensor e ouviam-se ruídos estranhos e nós falávamos com os guarda-freios e perguntávamos se aquilo era mesmo assim”, recorda, dizendo que há vários anos que o ascensor “anda aos tombos e sempre cheio”, referindo-se ao elevado número de turistas a usar o transporte todos os dias.
Carloto relata que os guarda-freios com quem ia falando lhes diziam “que já tinham informado” instâncias superiores das queixas dos utilizadores frequentes, mas que “havia pressão para que o elevador continuasse a trabalhar fosse em que condições fosse”.
“Os funcionários queixavam-se várias vezes que aquilo não parava e que tinha de estar sempre a funcionar, mesmo com ruídos estranhos e com peças a bater”, conta ainda.
“Sou utilizador desde que nasci, já usava aquele elevador na barriga da minha mãe”
Não foi por se tornar funcionário da Santa Casa que António Carloto começou a ser passageiro do Elevador da Glória. “Sou utilizador desde que nasci, já usava aquele elevador na barriga da minha mãe”, conta o sexagenário natural de Lisboa.
Começou a interessar-se pela ferrovia e foi por isso que acabou por ser entrevistado em 2018, enquanto membro da Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro (APAC), para falar sobre um acidente que na altura dizia ser um sinal de que algo devia mudar no funcionamento daquele ascensor. Apesar de conhecer bem este funicular diz que não está “interessado em especular” e que não quer “tirar conclusões precipitadas sobre as causas” do acidente. “É preciso esperar para ver o resultado do inquérito e das conclusões”, assegura.
“É muito prematuro dizer o que quer que seja”, afirma ao Observador. Mas diz que lhe parece que “houve uma série de forças que se excederam”. E afirma: “Aquele elevador já devia estar num museu, tem mais de 100 anos. A resistência dos materiais já estava a ser colocada à prova há muito tempo.”
Acrescenta que o funicular “trabalhava bem mais agora do que quando era novo”. As viagens eram muito frequentes, de um quarto em um quarto de hora, mas diz que “às vezes até fazia mais”, quase sempre com a capacidade máxima preenchida, para acomodar turistas e quem usava o elevador como meio de transporte.
“Estava com uma utilização super intensiva. Aquele elevador, para a idade que tem, tinha de ter uma utilização muito ligeira”, considera o funcionário da Santa Casa de Lisboa, referindo que em vez disso “estava a fazer um serviço de transporte público de uma forma que nunca se imaginou e para o qual não foi imaginado”. “Era uma crónica anunciada“, afirma sobre a tragédia.
Mesmo com os receios que tinha e os avisos que fez aos guarda-freios, e até mesmo ao público em geral em 2018, António Carloto continuou a apanhar o ascensor todos os dias. “Uma pessoa usando todos os dias acha que nunca vai acontecer, até ao dia em que acontece”. Quarta-feira, 3 de setembro, acabou por acontecer.