Siga aqui o liveblog sobre o trágico acidente do Ascensor da Glória
Entrou ao serviço em 1885 com uma missão que dava resposta às dificuldades de mobilidade dos lisboetas entre a baixa e o Bairro Alto: transportar de forma fácil e rápida as pessoas que até então, tinham de subir e descer a pé a colina inclinada que ligava os dois pontos.
Desde então que o funicular da Glória — que no final da tarde desta quarta-feira descarrilou e provocou pelo menos 17 mortos — funciona com duas cabines, uma sobe e a outra desce. Hoje em dia têm um motor elétrico, mas quando o transporte foi inaugurado ainda se moviam através de um sistema hidraúlico — com depósitos de água — de peso e contrapeso.
“A cabine que chegava ao topo enchia-se de água e quando chegava cá em baixo esvaziava-se, basicamente funcionava como um sistema hidráulico de compensação”, explica ao Observador, Fernando Nunes da Silva, especialista em mobilidade e transportes e ex-vereador da Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa.
A certa altura o ascensor chegou a ser locomovido a vapor e, desde 1914, tornou-se pioneiro da tração elétrica. Hoje em dia funciona com duas cabines autopropulsoras com o seu motor elétrico, descrito no site da Carris como do tipo “Maley 234”.
“O funicular é composto por duas cabines com os seus motores e um cabo, este último com duas funções primordiais”, afirma Nunes da Silva. “A primeira é assegurar a sincronização das duas cabines, quando uma sobe a outra desce e isso é essencial para diminuir o esforço dos motores e permitir que o andamento seja suave, porque com uma inclinação daquelas, e a acrescer o peso da cabine conjugado com o peso das cercas de 40 pessoas lá dentro [22 lugares sentados e 20 de pé], faz com que seja precisa muita força”, explica.
Segundo o especialista em mobilidade, existe outra função do cabo, muito importante, e que pode ter sido determinante para o desfecho trágico do acidente desta quarta-feira, sabendo-se desde as primeiras horas que o cabo quebrou quando a composição no topo da colina se preparava para a descida. “O cabo no arranque tem uma função de tração importante e que exige maior esforço, que é o de passar de uma situação de imobilização para a situação de movimento”, diz.
“O que se fala é que o cabo estava com folga, mas ele tem de estar esticado porque quando [a composição] começa a andar, a cabine que está em baixo vai ‘comer essa folga’ e vai haver um esticão”, explica Nunes da Silva sobre as possíveis causas do acidente. “Com o solavanco do início da descida a acrescer tensão ao cabo, e havendo a tal folga, pode fazer com que o cabo se parta”, esclarece.
Já em relação à velocidade que este funicular pode atingir, sabe-se que seria sempre reduzida, a rondar os 10 quilómetros por hora a funcionar regularmente. “Quando a cabine começa a andar o cabo tem uma tensão enorme e se a velocidade for grande a tensão seria muito forte e dar-se-ia o desgaste”, explica o mesmo especialista.
Funicular, ascensor ou elevador? Em Lisboa há quatro funiculares e um elevador
O popularmente conhecido ascensor ou elevador da Glória é na verdade um funicular. O meio de transporte com sistema ferroviário por cabo que liga pontos ao longo de uma via férrea colocada num plano inclinado. É caracterizado pelas tais duas composições contrabalançadas permanentemente ligadas a extremidades opostas de um cabo de transporte.
Como explica Fernando Nunes da Silva a expressão técnica do transporte é funicular, apesar de ser ter popularizado enquanto ascensor ou elevador. O mesmo acontece com o funicular da Nazaré, que também é designado de ascensor. Já um elevador transporta pessoas num plano vertical e funciona de maneira diferente — caso do elevador de Santa Justa na capital.
De resto, em Lisboa, circulam mais três funiculares: além do da Glória, o Ascensor do Lavra e o Ascensor da Bica e o Funicular da Graça, inaugurado em março de 2024. As características técnicas dos três ascensores são semelhantes e, precisamente por isso, na noite de quarta-feira, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa deu instruções às empresas municipais para suspenderem de imediato as operações de todos eles e ordem para serem realizadas vistorias técnicas a todos os equipamentos. Nesta quinta-feira, obedecendo às ordens do autarca, os funiculares da Bica e da Lavra estiveram parados.