Eis os animais selvagens. Foi essa a expressão que mais ecoou no seio da Seleção Nacional de hóquei em patins ao longo desta semana em Lordelo. Foi essa a expressão que o selecionador Paulo Freitas utilizou para descrever o que os seus jogadores tinham de fazer na fase a eliminar depois de uma fase de grupos em que perderam todos os jogos e acabaram no último posto do Grupo A. Freitas voltou a utilizá-la para antecipar o duelo com a Espanha, nas meias-finais, e a verdade é que, frente à tricampeã da Europa e campeã do mundo, Portugal mostrou um nível nunca antes visto neste Campeonato da Europa e ganhou nas grandes penalidades, marcando encontro com a França para uma final inédita (2-2, 2-3 g.p.).

A alma de Gonçalo e um Xano indomável comandaram o voo para a final com ligação a Barcelos: Portugal vence Espanha nos penáltis

“Portugal fez um jogaço. Os primeiros 25 minutos, então, foram fantásticos e acho que o desfecho acaba por ser justo, embora ache que não deveríamos ter ido à bola parada. Há quem fale em sorte, mas eu digo que, fundamentalmente, foi um momento de competência. A Espanha produziu aquilo que nós também deixámos. Fomos uma equipa muito intensa, com muita mobilidade, com e sem bola, e controlámos a maioria dos tempos de jogo. Conseguimos tornear a primeira linha defensiva da Espanha, criando sensações positivas aos nossos jogadores e deixando a Espanha desconfortável. Os jogadores hoje [sexta-feira] deram uma primeira resposta. Vamos tentar recuperar e estaremos aqui na final de cara lavada e peito aberto. As finais não se disputam, ganham-se”, começou por dizer o selecionador após a meia-final.

“Teremos de ser novamente uns animais competitivos [na final], porque a França é uma equipa muito forte e competente. Teremos de estar na nossa melhor versão, ou ainda melhor. Não há ainda um diagnóstico [sobre a lesão de Hélder Nunes]. O jogador apresenta dores na zona da virilha. A primeira impressão é a de que poderemos contar com o Hélder, mas vamos ver. Foi um pavilhão fantástico no apoio à equipa, mas nós também puxámos por eles. Esta dicotomia funcionou muito bem e já tive oportunidade de agradecer na flash interview este apoio”, concluiu Paulo Freitas.

Antes da final do 56.º Campeonato da Europa de hóquei em patins, a única garantia era que, no final, um português ia levantar o troféu, já que a seleção gaulesa é treinada por Nuno Lopes, técnico do Tomar. Com Hélder Nunes recuperado e a manter-se no cinco inicial, Freitas entrou de início com Xano Edo, Zé Miranda, Gonçalo Alves e Rafa Costa, repetindo a equipa que alinhou na meia-final. Do outro lado, Lopes contou com Pedro Chambell, Rémi Herman, Roberto Di Benedetto, Bruno Di Benedetto e Carlo Di Benedetto. A reedição da final da Golden Cat, que Portugal venceu por 4-3, começou com os franceses a ficarem perto do golo nos primeiros segundos, num lance em que Roberto obrigou Edo a aplicar-se (1′). Pouco depois, o defesa do Benfica voltou a criar perigo com um remate enrolado, mas o guarda-redes do Sporting superiorizou-se (4′).

O jogo continuou com uma entrega brutal das duas equipas, que não se coibiram de fazer faltas, principalmente os gauleses, que se apresentaram mais intensos e a caírem na estratégia montada pela equipa técnica de Portugal. França continuou mais perigosa, com os irmãos Di Benedetto em grande evidência, mas Xano Edo não queria ficar atrás e negou o golo a Bruno com uma defesa com o ombro (11′). Na resposta, Rafael Bessa recebeu ainda longe da baliza, ultrapassou Roberto e, já dentro da área, atirou fora do alcance de Chambell, num golo em que o atleta de Paredes acabou por dedicar à família, que se deslocou em peso ao Pavilhão Rota dos Móveis (15′). Em estreia absoluta na Seleção, o avançado do Sporting estreou-se a marcar… numa final. Nuno Lopes parou o jogo de imediato e mudou a forma de atacar da sua equipa, mas Portugal deu continuidade ao bom momento, com Bessa a obrigar o luso-francês a uma defesa apertada (17′).

À beira do intervalo, França atingiu a décima falta de equipa e, chamado à responsabilidade, Alvarinho deixou Pedro Chambell pregado à pista e levantou para o 2-0, na primeira vez que tocou na bola (19′). A quatro minutos do intervalo, Freitas pediu a sua pausa técnica e pediu à sua equipa para “jogar com razão” e foi isso que os jogadores fizeram, com Alvarinho a criar perigo com uma picadinha, mas Chambell voltou a impor-se (21′). Na última ocasião do primeiro tempo, Herman teve espaço na esquerda e atirou cruzado, mas a bola saiu ao lado da baliza (24′).

Na etapa complementar, Portugal voltou a entrar por cima e, nos primeiros minutos, Zé Miranda ficou perto do terceiro golo (27′). Pouco depois, Roby derrubou Rafa dentro da área e, na cobrança, Gonçalo Alves voltou a mostrar-se irrepreensível e aproximou a Seleção Nacional da reconquista do troféu (29′). De seguida, Rafael Bessa voltou a ter espaço no corredor central e, isolado, atirou para mais uma grande defesa de Pedro Chambell (33′). Nuno Lopes reagiu de pronto a parar o jogo e Paulo Freitas aproveitou para dar dois minutos de descanso ao quarteto principal. Nessa fase, Gonçalo Alves (36′) e Bessa (37′) quase marcaram, mesmo com Portugal à beira da décima falta. Na resposta, Carlo apareceu isolado, mas atirou ao lado (40′). Gonçalo Alves voltou a fazer das suas de seguida e, numa jogada magistral, atirou para mais uma defesa de Chambell, que continuou a salvar França (41′).

Os franceses responderam com mais um lance de Carlo Di Benedetto, que levantou a bola e obrigou Xano Edo a uma defesa em cima da linha de baliza (42′). Na outra baliza, Luís Querido isolou Bessa, que voltou a desperdiçar a oportunidade de fechar a final (43′). Nos últimos cinco minutos, Portugal tentou controlar o jogo a circular a bola por todo o ringue mas, a 1.50 minutos do fim, a dupla de arbitragem assinalou penálti para os franceses e mostrou o azul a Querido. Na cobrança, Rémi Herman atirou diretamente para a baliza, mas Xano Edo defendeu e voltou a levar a melhor na recarga (49′). Com França a jogar em 5×3, Carlo chegou a reduzir, mas com o patim, pelo que o golo foi anulado. Contudo, depois de consultarem o Serviço de Revisão de Vídeo (SRV), os árbitros que inicialmente anularam o golo, validaram-no de forma inacreditável (49′). No recomeço, Portugal recuperou rapidamente a bola e, sem guarda-redes na baliza Rafael Bessa fez o 4-1 final (50′).

Depois de uma fase de grupos desastrosa que gerou muitas críticas fora do seio do hóquei em patins, Portugal reconquistou o título europeu nove anos depois e chegou às 22 vitórias no Campeonato da Europa, voltando a distanciar-se de Espanha, que tem 19. Esta foi a primeira vez que a Seleção triunfou em Paredes, que recebeu o Europeu pela terceira vez. Por outro lado, é a 12.º vez que a Seleção de hóquei em patins vence a competição em território português, ao cabo de 15 edições.

Nas contas finais do Europeu, Itália completou o pódio, depois de ter vencido Espanha na luta pela medalha de bronze (1-3). Há 75 anos, desde a 16.ª edição, que os espanhóis não terminavam fora dos três primeiros. O quinto lugar ficou para Andorra, que bateu a Suíça (3-1) e conseguiu, assim, a qualificação direta para a “primeira divisão” do Mundial do próximo ano. O sétimo lugar ficou para a Alemanha, que venceu a Áustria na primeira partida deste último dia de competição (3-9).