O Prémio Literário Irene Lisboa foi este ano entregue a Marta Hugon pelo seu livro de contos Souvenir, anunciou esta quinta-feira a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos, que promove o concurso.
O júri, constituído por Paula Morão, Isabel Soares e Inês Fonseca Santos, deliberou, por unanimidade, atribuir o galardão a esta obra, pela “elevada qualidade estético-literária, destacando-a das restantes pelo seu equilíbrio narrativo e riqueza linguística, reconhecendo ainda nela pontos de contacto com a narrativa ireniana, no que respeita ao tratamento dado ao tema da memória, como ‘reconstrução’ e reinterpretação dos quotidianos”, refere em nota de imprensa o município.
Com o prémio, no valor cinco mil euros, a autarquia procura “divulgar o nome e a obra de Irene Lisboa”, escritora natural deste concelho do distrito de Lisboa.
“Souvenir”, publicado pela editora Tinta da China, é o primeiro livro de ficção de Marta Hugon, depois de ter publicado o conto Conceição, na 10.ª edição da Granta em Língua Portuguesa.
Conhecida no panorama musical, Marta Hugon tem cinco discos em nome próprio e várias colaborações como cantora e compositora.
Hugon é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, escreve para publicidade, é professora da Escola de Jazz Luís Villas-Boas e cocriadora do projeto a três vozes Elas e o Jazz.
Irene Lisboa, autora de 13 Cantarelos, a sua primeira obra publicada, nasceu em 25 de dezembro de 1892 na Quinta da Murzinheira, em Arruda dos Vinhos, fruto de uma relação entre Luís Emídio Vieira Lisboa e uma criada, “a rapariga do campo enganada”, como escreve em Começa uma vida.
O pai renegou a sua paternidade, separando para sempre a criança da mãe aos três anos de idade. Nessa altura, Irene Lisboa, que só aos seis anos foi registada com o nome do pai, passou a residir com a madrinha, Ilda Gouveia, entre a casa da Baixa de Lisboa e a Quinta do Monfalim, no Sobral de Monte Agraço, afastando-a da Quinta da Murzinheira.
O Município de Arruda dos Vinhos veio, em 2009, a adquirir a quinta, para salvaguardar aquele património que estava ao abandono e vir aí a criar no futuro a Casa-Museu Irene Lisboa.
Quando o projeto for concretizado, a autarquia pretende transferir para aí o acervo documental da vida e obra da escritora, que está reunido num pequeno núcleo museológico existente desde 2007 em Arranhó, freguesia do concelho de onde a poetisa é natural.
A autarquia criou também o Prémio Literário Irene Lisboa.
Irene Lisboa, nome com que a partir de 1942 passou a assinar os seus livros, foi professora primária, fez estudos de pedagogia na Suíça, França e Bélgica.
Publicou ensaios pedagógicos sob o pseudónimo de Manuel Soares, e estreou-se na literatura em 1926, com 13 Contarelos.
Dez anos mais tarde regressou com os livros de poesia Um Dia e Outro Dia… e Outono Havias de Vir, ambos sob o pseudónimo de João Falco, com que também assinou as narrativas Solidão, de 1939, e Começa Uma Vida, de 1940.
Escritora de vocação confessional, Irene Lisboa afirmar-se-ia como uma das mais importantes narradoras da literatura portuguesa, com obras como Esta Cidade!, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma e Voltar atrás para Quê?.