Quando José Mourinho foi confirmado como novo treinador do Benfica, depressa se analisou o calendário dos encarnados até às eleições do próximo dia 25 de outubro. E praticamente todos os comentários iam num único sentido: era imperativo vencer os três jogos consecutivos para o Campeonato antes da visita ao Chelsea para a Liga dos Campeões e do Clássico no Dragão com. FC Porto.

Mourinho, como se sabe, falhou a premissa. O empate com o Rio Ave afastou os contornos de conto de fadas criados depois da vitória contra o AVS e atribuiu ao jogo desta sexta-feira, contra o Gil Vicente, uma carga de importância ainda maior. Perder mais pontos não era uma opção, por muito que o Campeonato ainda esteja numa fase embrionária, mas uma nova escorregadela era muito mais do que isso — era a confirmação de que a crise do Benfica não se cura com mudanças de treinador, mercados de transferências ou até campanhas eleitorais.

Ficha de jogo

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Benfica-Gil Vicente, 2-1

7.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: João Gonçalves (AF Porto)

Benfica: Trubin, Amar Dedic, António Silva, Otamendi, Samuel Dahl (João Rego, 80′), Richard Ríos, Fredrik Aursnes, Sudakov (Tomás Araújo, 80′), Lukébakio (Leandro Barreiro, 68′), Pavlidis (João Veloso, 90+10′), Schjelderup (Ivanovic, 68′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Gianluca Prestianni, Henrique Araújo, Gonçalo Moreira

Treinador: José Mourinho

Gil Vicente: Andrew, Zé Carlos (Hevertton, 87′), Ghislain Konan, Marvin Elimbi, Facundo Cáseres (Sergio Bermejo, 79′), Pablo Felipe, Luís Esteves, Agustín Moreira (Joelson Fernandes, 45′), Jonathan Buatu, Murilo Souza (Martín Fernández, 79′), Santi García (Zé Carlos, 72′)

Suplentes não utilizados: Dani Figueira, Jonathan Mutombo, Antonio Espigares, Gonçalo Maia

Treinador: César Peixoto

Golos: Luís Esteves (11′), Pavlidis (18′ e gp, 26′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Luís Esteves (51′), a Marvin Elimbi (56′), a Amar Dedic (65′), a Richard Ríos (90′), a Hevertton (90+4′ e 90+9′); cartão vermelho por acumulação a Hevertton (90+9′)

E José Mourinho, na antevisão, não escondia as dificuldades. “É difícil afinar porque quanto mais jogamos mais fadiga há, menos trabalho de campo… Analisar ajuda, como disse aos jogadores, vamos tentar não cometer os mesmos erros que cometemos. Honestamente, não sei quando haverá o meu cunho, temos o jogo com o Chelsea, depois a Seleção… Vamos fazer umas peladas com oito, mas são seis treinadores e dois jogadores. Vai ser o Aursnes e um gajo qualquer. Precisamos de ganhar e temos de pensar que vai ser amanhã”, explicou o treinador português.

Ora, neste contexto e sem contar com Enzo Barrenechea, que estava castigado depois de ter visto o quinto cartão amarelo, Mourinho puxava Fredrik Aursnes para o meio-campo e apostava na titularidade de Lukébakio e Schjelderup, deixando Ivanovic no banco. Do outro lado, num Gil Vicente que tem sido a grande sensação do Campeonato e que tinha quatro vitórias em seis jornadas, César Peixoto tinha o natural Pablo como referência ofensiva.

O Gil Vicente entrou a todo o gás e quase abriu o marcador logo nos instantes iniciais, com Murilo a obrigar Trubin a uma defesa atenta com um remate na área e Agustín Moreira, na recarga, a testar novamente o guarda-redes (1′). Os gilistas estavam claramente por cima, o Benfica não conseguia sair a jogar e o quase inevitável golo acabou por aparecer: na sequência de um livre direto, Luís Esteves não deu qualquer hipótese a Trubin e abriu o marcador, gelando a Luz (11′).

Os encarnados não conseguiram propriamente reagir, com o Gil Vicente a manter-se muito ativo e a discutir cada duelo na zona do meio-campo, mas a verdade é que o empate surgiu mesmo depois de um lance de insistência. Pavlidis jogou com Schjelderup na esquerda e voltou a receber na área, atirando em força para bater Andrew e relançar o jogo (18′). A equipa de César Peixoto não pareceu sentir o empate e ficou perto de recuperar a vantagem, com Agustín Moreira a rematar para defesa de Trubin e Pablo a atirar por cima da trave no mesmo minuto (23′), mas bastou um erro para permitir a reviravolta.

Ainda dentro da meia-hora inicial, Lukébakio foi carregado em falta por Ghislain Konan na grande área e Pavlidis, na conversão da grande penalidade, bisou para colocar o Benfica a vencer pela primeira vez no jogo (26′). A dinâmica da partida mudou a partir daí, ainda que os encarnados nunca tenham dominado ou mostrado capacidade para controlar as ocorrências. Os gilistas tinham sempre muita facilidade para criar perigo, aproveitando a passividade defensiva do adversário e as autênticas passadeiras vermelhas que se estendiam nas imediações da grande área, e o resultado manteve-se em aberto até ao fim da primeira parte.

Do outro lado, o principal inconformado era Lukébakio, que causava muitos calafrios sempre que acelerava na direita e acumulou remates cruzados ao lado, demonstrando uma simplicidade acima da média para atirar à baliza mas também uma clara falta de pontaria. Ao intervalo, o Benfica estava a vencer o Gil Vicente na Luz mas o jogo estava longe de estar resolvido.

César Peixoto mexeu logo ao intervalo, trocando Agustín Moreira por Joelson Fernandes, e o Gil Vicente repetiu a boa entrada da primeira parte: Santi García obrigou Trubin a uma boa defesa antes de acertar na trave no seguimento da jogada (47′) e Pablo marcou mesmo na sequência de um cruzamento de Joelson Fernandes (49′), mas o lance foi anulado por fora de jogo do avançado. Os gilistas não desistiam, com Murilo a acertar também na barra com um pontapé fortíssimo de fora de área (54′), e o Benfica limitava-se a sobreviver.

José Mourinho fez as primeiras substituições já depois da hora de jogo, numa altura em que os encarnados tinham conseguido colocar algum gelo nas investidas contrárias mas sem arriscarem um ataque, e lançou Ivanovic e Leandro Barreiro. A lógica da partida, contudo, mantinha-se quase contra-natura: o Benfica só defendia, só avançava em transição rápida e limitava-se a defender, com Luís Esteves a obrigar Trubin a mais uma defesa atenta com um remate de fora de área (75′).

César Peixoto fez all in já à beira dos derradeiros dez minutos, colocando Sergio Bermejo e Martín Fernández em campo, e José Mourinho cerrou fileiras com João Rego e Tomás Araújo, acabando o jogo com três centrais. Já nada mudou até ao fim, com os encarnados a terem o mérito de até terem tido alguma posse de bola na ponta final e os gilistas a acabarem por cair em intensidade e discernimento, não voltando a ficar verdadeiramente perto do empate e terminando mesmo em inferioridade numérica face à expulsão de Hevertton por acumulação de cartões amarelos.

O Benfica sofreu muito, mas venceu o Gil Vicente na Luz e regressou às vitórias depois do empate com o Rio Ave, conquistando três pontos importantes antes da deslocação a Londres para defrontar o Chelsea na Liga dos Campeões — e principalmente antes da deslocação ao Dragão para o Clássico com o FC Porto. Ainda assim, esta equipa de José Mourinho ainda se vê grega para fazer o mínimo.