Vinte e cinco anos depois, o regresso de um antigo Deus que se tornou um autêntico “Diabo” na Catalunha: Luís Figo. Após a polémica transferência do Barcelona para o Real Madrid em 2000, naquela que ficou como uma das saídas mais mediáticas na história do futebol mundial (quem não se recorda da cabeça de porco e da garrafa de whisky que foram atiradas para o relvado quando o internacional português foi tentar marcar um canto no primeiro jogo em Camp Nou após a troca), o antigo Bola de Ouro voltava a ver um jogo do conjunto blaugrana, neste caso no Estádio Montjuïc e na condição de conselheiro para o futebol da UEFA. Aleksander Çeferin ou Michael Carrick também estariam por lá mas o potencial para haver história era grande. Quase tão grande como o grande duelo da segunda jornada da Liga dos Campeões, entre dois hinos ao futebol.

Essa era a principal e melhor forma de descrever o duelo entre Barcelona e PSG. Mais do que o duelo entre dois potenciais candidatos ao título, mais do que uma luta entre as equipas dos jogadores que completaram o pódio da Bola de Ouro, mais do que o regresso à Catalunha do antigo campeão europeu Luis Enrique (que em todas as conferências foi referindo que o Barça é o seu clube, apesar de ter jogado no Real Madrid… saindo depois de forma direta para os catalães), Montjuïc recebia um autêntico choque entre duas das melhores e mais evoluídas formações da atualidade. Com identidades de jogo que têm parecenças, com ideias de jogo que são diferentes, com margem para fazerem o jogo pelo jogo por não ser um encontro decisivo. Só havia um problema: as lesões de Raphinha, Gavi, Marquinhos, Kvaratskhelia, Doué ou… Ousmane Dembélé.

Perante esse contexto, o nome de Lamine Yamal assumiu outro protagonismo. Hansi Flick, mais uma vez, não deixou de baixar expetativas em torno do prodígio espanhol de 18 anos. “Não gosto dessas coisas de se dizer que é super. Ele é um jogador excecional mas há outros jogadores excecionais na nossa equipas. Tem apenas 18 anos, precisa de concentrar-se para trabalhar muito. Para chegar ao nível seguinte, para dar mais um ou dois passos, precisa de esforçar-se porque só o talento não chega. Por exemplo, não se trata apenas do que consegue fazer com bola, é preciso também a diferença. Mas não deixa de fazer a diferença…”, dizia o técnico alemão, que ia defrontar “a melhor equipa da última época”: “Têm jogadores fantásticos, um grande treinador e um estilo que adoro. É por isso que estamos tão ansiosos com este jogo da Champions”.

Já Luis Enrique, que entre as más notícias que chegavam do departamento médico teve essa “benesse” que foi a recuperação de Vitinha, falava num desafio “bonito” mas destacava um outro jogador do lado contrário. “Todos sabem que sou adepto e sócio do Barça, serei por toda a minha vida. Assisto a todos os jogos deles. O Barcelona é minha casa. Quero também agradecer ao PSG por jogar com o logótipo da Fundação Xana [em memória da filha falecida do técnico], é um gesto muito especial. Acredito que vai ser um grande jogo, a ideia de Flick encanta-me e só espero que o Pedri Potter não traga a sua varinha mágica…”, destacara.

Estavam lançados os dados da partida mais aguardada da noite, com os olhos de muitos fixados naquilo que Lamine Yamal conseguiria fazer (sobretudo no duelo direto com Nuno Mendes, que na última final da Liga das Nações levou a melhor) mas com o foco de outros mais virado para o duelo entre Vitinha e Pedri na zona do meio-campo. “Somos jogadores que gostamos de ter a bola, não de andar a correr atrás dela. Mas acho que todo o meio-campo vai ter um papel fundamental na balança do encontro. No final, nenhum se ficou a rir. Uns ganharam em alguns momentos, outros foram melhores em determinadas fases. Ainda assim, houve um que esteve sempre por cima. E quando se falavam de tantos nomes, foi Nuno Mendes que dominou até Gonçalo Ramos puxar para si o papel de herói e dar a vitória ao PSG em cima do minuto 90.

A antecâmara do jogo teve mais uma surpresa negativa para Luis Enrique, com João Neves a sentir algo no período de aquecimento e a dar lugar a Zaire-Amery no onze. Pode ter sido coincidência, pode ter sido fruto do próprio encontro, mas o PSG demorou a acertar a partir do meio-campo com o Barcelona a aproveitar o hiato para criar situações de golo. Na primeira, com Lamine Yamal a lançar Ferran Torres nas costas dos centrais, o internacional espanhol passou por Chevalier mas Zabarnyi, de carrinho, evitou o golo perto da linha (14′). Na segunda, que nasceu de um passe errado de Vitinha na construção ainda no seu meio-campo, Rashford assistiu Ferrar Torres e o avançado desta vez não perdoou e fez mesmo o 1-0 (19′).

Só a partir daí houve mais PSG, com Nuno Mendes a ser uma peça fundamental nesse crescimento por toda a capacidade de levar a equipa para a frente com arrancadas que iam deixando a primeira fase de pressão do Barça e criavam superioridades que eram complicadas de travar (De Jong, com uma entrada por trás que poderia ter dado mais do que um simples amarelo, sentiu esse problema). De forma inevitável, e num fase em que as trocas posicionais dos homens da frente dos franceses tiveram referências à defesa dos catalães, foi o lateral que “inventou” a jogada do empate, assistindo Mayulu para a diagonal que fez o 1-1 (38′).

A primeira parte tinha sido boa, a segunda metade não ficou em nada atrás – com essa sensação de que os treinadores pareciam nem se lembrar em mexer perante a cadência de jogo que se via em campo. O PSG teve um início mais conseguido, com Vitinha a conseguir segurar mais nos momentos do jogo e o tridente com Mayulu, Barcola e Mbaye a criar problemas no último terço, o Barcelona respondeu bem com Lamine Yamal a mostrar-se mais ao jogo e Hakimi a cortar um remate de Dani Olmo na área que ia seguir para a baliza. Era altura de começarem a sair os heróis do banco, com Lee Kang-in a ficar a centímetros de ganhar esse estatuto com um remate ao poste (81′) antes de um cabeceamento de Nuno Mendes após canto que ficou nas mãos de Szczesny (84′). Faltava um capítulo, também ele escrito em português: numa saída rápida fulminante a dois toques, Gonçalo Ramos apareceu isolado na cara do guarda-redes polaco e fez o 2-1 da reviravolta (90′).

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