Faltavam poucos minutos para as 12h em Portugal Continental (14h em Israel) desta quinta-feira quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita anunciou: “A provocação Hamas-Sumud acabou”. Ou seja, (quase) todos os barcos da Flotilha Global Sumud, a caminho da Faixa de Gaza para entregar ajuda humanitária, tinham sido intercetados e os membros da missão detidos pelas autoridades israelitas.
A Marinha israelita aproximou-se da frota ainda antes das 19h de quarta-feira e passou toda a noite desse dia e manhã de quinta-feira a deter membros da missão em águas internacionais. Foram precisas cerca de 16 horas para parar os 42 barcos e deter os mais de 500 ativistas, políticos e advogados a bordo — entre os quais quatro portugueses, a deputada bloquista Mariana Mortágua, a atriz Sofia Aparício, o ativista Miguel Duarte e Diogo Matos Chaves, cuja presença a bordo da flotilha só foi noticiada já depois de ter sido detido esta quinta-feira. Horas depois de o Ministério israelita dar a “provocação” por terminada, a flotilha confirmou, para já, a detenção de 443 membros da missão.
The Hamas-Sumud provocation is over.
None of the Hamas-Sumud provocation yachts has succeeded in its attempt to enter an active combat zone or breach the lawful naval blockade.
All the passengers are safe and in good health. They are making their way safely to Israel, from…
— Israel Foreign Ministry (@IsraelMFA) October 2, 2025
Porém, duas das embarcações nunca foram paradas, por estarem identificados como barcos de apoio legal. Já o Mikeno, que também não terá sido intercetado (informação não é clara), encontra-se, segundo os rastreadores da flotilha a pouco menos de uma hora da costa da Faixa de Gaza.
Ainda antes disso, por volta das 11h, o primeiro navio da marinha israelita, com a maior parte dos ativistas a bordo, chegou a Israel, mais precisamente ao porto de Ashod. Os ativistas estavam preparados para uma eventual abordagem israelita, que acabou por se concretizar, mas agora colocam-se novas questões. O que acontecerá às centenas de pessoas e às dezenas de barcos de várias nacionalidades que estão sob controlo israelita?
O que acontece aos ativistas?
Na manhã desta quinta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel publicou imagens de alguns ativistas — entre eles Greta Thunberg e Thiago Ávila, que seguiam a bordo do Alma, o primeiro navio que foi intercetado na noite de quarta-feira. “Estão a ser transportados em segurança e de forma pacífica para Israel, onde os processos de deportação para a Europa vão começar”, pode ler-se na publicação.
Hamas-Sumud passengers on their yachts are making their way safely and peacefully to Israel, where their deportation procedures to Europe will begin. The passengers are safe and in good health. pic.twitter.com/pzzitP5jN8
— Israel Foreign Ministry (@IsraelMFA) October 2, 2025
O destino dos mais de 500 ativistas que seguiam na missão será, portanto, o mesmo: a deportação. Mais especificamente, para Londres ou Madrid, detalhou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália. Contudo, existem duas formas de realizar este processo, como se verificou quando um outro navio da Coligação Flotilha da Liberdade (FFC), o Madleen, foi intercetado em junho deste ano.
Na chegada a Israel, os ativistas podem escolher assinar um documento a autorizar a sua deportação, abdicando de um recurso à ordem de saída do país. Nesse caso, o processo será imediato. Esta foi a opção escolhida por quatro dos ativistas de junho, incluindo por Greta Thunberg.
Caso contrário, a lei israelita prevê um período de detenção de 72h, de forma a que os detidos possam apresentar um recurso à ordem de deportação. Até à data de publicação deste artigo não havia confirmação sobre que processo tinha sido escolhido pelos portugueses a bordo. Além da deportação, todos os ativistas serão proibidos de reentrar em Israel por um período de 100 anos, explica a Reuters.
Como foi a detenção dos ativistas do Madleen?
Em junho, oito dos ativistas a bordo do Madleen, incluindo a eurodeputada francesa Rima Hassan e o ativista brasileiro e um dos organizadores Thiago Ávila, recusaram assinar as ordens de deportação, uma vez que, argumentaram, não tinham entrado em território israelita, mas sim detidos em águas internacionais e levados para Israel contra a sua vontade.
Estes ativistas ficaram presos na prisão de Givon, em Ramla, uma cidade perto de Telavive, até serem presentes a um juiz de imigração para validação da ordem de deportação. O processo demorou três dias. Durante a detenção, Hassan e Ávila foram colocados em celas solitárias. A primeira, por ter escrito “Palestina Livre” nas paredes da cela. O segundo, por ter iniciado uma greve de fome em protesto, escreveu à data a Al Jazeera.
O que se espera da detenção dos ativistas da Global Sumud?
Agora, por comparação a junho, a situação deverá ser diferente, estima Omer Shatz, israelita especializado em Direito Internacional. Dada a quantidade de detidos, o seu processo no sistema israelita torna-se mais difícil, pelo que os ativistas poderão ser transferidos para Ketziot, uma prisão maior no sul de Israel. À Reuters, o professor da Universidade SciencesPo de Paris destacou que Ketziot é uma prisão de alta segurança, pelo que não costuma acolher casos de imigração e as suas condições são bem mais duras.
O Ministério italiano confirmou que os detidos iam ser transferidos para “instalações em Be’er Sheva” — a cidade mais próxima de Ketziot —, onde, a partir da manhã de sexta-feira, poderão receber visitas dos seus representantes consulares.
O processamento dos membros da flotilha também poderá atrasar a sua deportação. Mas mesmo os que escolherem assinar a ordem de saída do país logo na chegada a Israel, não poderão sair pelo menos até à noite deste sábado mas por um motivo completamente diferente: Israel celebra esta quinta-feira o feriado sagrado do judaísmo, o Yom Kippur.
Durante 25 horas, todos os negócios, restaurantes, espaços de lazer e transportes públicos estão fechados, incluindo o aeroporto Ben Gurion. Segundo o Turismo de Israel, este é o único dia do ano em que o aeroporto está encerrado, pelo que os voos de deportação só deverão ser efetuados a partir de sexta-feira.
Depois disso, celebra-se o dia de descanso semanal, o Shabbat. Portanto, é esperado que os voos de deportação, para Londres e Madrid, só comecem a partir a ser realizados efetivamente a partir de segunda-feira, detalhou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália.
Que apoio legal têm os ativistas?
Os ativistas detidos esta quinta-feira terão acesso a apoio legal por duas vias. Em Israel, terão o apoio da Adalah, uma organização de direitos humanos e ajuda jurídica sediada em Israel, que já trabalhou com participantes de outras flotilhas, ao longo dos anos. Suhad Bishara, diretora legal da organização, relatou à Reuters que a equipa aguardou a chegada dos ativistas ao porto de Ashod, para os contactar antes de serem transferidos para Ketziot — ou qualquer outra prisão israelita.
“A nossa principal preocupação é o seu bem-estar, a sua condição de saúde e garantir que tem apoio legal antes de serem ouvidos pelo tribunal de imigração”, detalhou.
Contudo, o apoio também chega do Mar Mediterrâneo, a bordo do barco Shireen — que herda o nome da jornalista da Al Jazeera morta pelas forças israelitas em 2022 — e do Summertime-Jong, com tripulações compostas por advogados e juristas. A primeira embarcação é um “Barco de Apoio Legal Independente”, que tinha como objetivo criar uma “base de dados de violações dos Direitos dos participantes”.”O barco não vai tentar quebrar o cerco; vamos permanecer em águas internacionais”, escreveu uma das advogadas a bordo antes de partir.
Já o rastreador do Summertime Jong, que navegava com o mesmo objetivo, mostra que o barco também não entrou na zona de alto risco e, em vez disso, se dirigiu para o Chipre. A publicação do ministério israelita menciona apenas um barco que não tentou quebrar o bloqueio, não sendo claro a qual dos dois barcos se refere.
O que acontece aos barcos depois de serem intercetados?
Nas flotilhas anteriores — não só do Madleen e do Handala em 2025, mas das missões anteriores da Coligação Flotilha da Liberdade, que remontam a 2010 — os barcos intercetados por Israel são levados para portos israelitas. Em algumas ocasiões, os barcos ficaram inoperacionais devido a ataques israelitas, mas os destroços também foram rebocados para terra. Depois, na maior parte das ocasiões, os donos dos barcos são chamados a ir a tribunal em Israel para reaver os barcos.
O processo foi descrito à emissora canadiana CBC por Zohar Chamberlain Regev, membro da FFC que está registada como dona de três barcos que já navegaram até Gaza, incluindo o Handala. Algumas vezes, destaca, as autoridades israelitas não chegam a contactar os donos dos barcos. Nas vezes que foi a tribunal, argumentou que o barco estava em águas internacionais e condenou a interceção, ninguém lhe deu razão, mas os barcos acabaram por ser devolvidos por Israel.
Nesse caso, as embarcações são reparadas para poderem navegar novamente para a Faixa de Gaza ou vendidas para financiar atividades futuras, detalhou.
E o que acontece à ajuda humanitária?
Segundo a FFC, a ajuda humanitária que segue a bordo das flotilhas não costuma chegar ao enclave palestiniano cercado. De forma oficial, Israel diz que os mantimentos retirados das embarcações são “transferidos para Gaza pelos canais humanitários reais“. Contudo, o bloqueio imposto pelas forças israelitas faz com que os “canais reais” não sejam suficientes para colmatar a situação de fome que foi declarada pela ONU na Faixa de Gaza.