Faltavam poucos minutos para as 12h em Portugal Continental (14h em Israel) desta quinta-feira quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita anunciou: “A provocação Hamas-Sumud acabou”. Ou seja, (quase) todos os barcos da Flotilha Global Sumud, a caminho da Faixa de Gaza para entregar ajuda humanitária, tinham sido intercetados e os membros da missão detidos pelas autoridades israelitas.

A Marinha israelita aproximou-se da frota ainda antes das 19h de quarta-feira e passou toda a noite desse dia e manhã de quinta-feira a deter membros da missão em águas internacionais. Foram precisas cerca de 16 horas para parar os 42 barcos e deter os mais de 500 ativistas, políticos e advogados a bordo — entre os quais quatro portugueses, a deputada bloquista Mariana Mortágua, a atriz Sofia Aparício, o ativista Miguel Duarte e Diogo Matos Chaves, cuja presença a bordo da flotilha só foi noticiada já depois de ter sido detido esta quinta-feira. Horas depois de o Ministério israelita dar a “provocação” por terminada, a flotilha confirmou, para já, a detenção de 443 membros da missão.

Porém, duas das embarcações nunca foram paradas, por estarem identificados como barcos de apoio legal. Já o Mikeno, que também não terá sido intercetado (informação não é clara), encontra-se, segundo os rastreadores da flotilha a pouco menos de uma hora da costa da Faixa de Gaza.

Ainda antes disso, por volta das 11h, o primeiro navio da marinha israelita, com a maior parte dos ativistas a bordo, chegou a Israel, mais precisamente ao porto de Ashod. Os ativistas estavam preparados para uma eventual abordagem israelita, que acabou por se concretizar, mas agora colocam-se novas questões. O que acontecerá às centenas de pessoas e às dezenas de barcos de várias nacionalidades que estão sob controlo israelita?

O que acontece aos ativistas?

Na manhã desta quinta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel publicou imagens de alguns ativistas — entre eles Greta Thunberg e Thiago Ávila, que seguiam a bordo do Alma, o primeiro navio que foi intercetado na noite de quarta-feira. “Estão a ser transportados em segurança e de forma pacífica para Israel, onde os processos de deportação para a Europa vão começar”, pode ler-se na publicação.

O destino dos mais de 500 ativistas que seguiam na missão será, portanto, o mesmo: a deportação. Mais especificamente, para Londres ou Madrid, detalhou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália. Contudo, existem duas formas de realizar este processo, como se verificou quando um outro navio da Coligação Flotilha da Liberdade (FFC), o Madleen, foi intercetado em junho deste ano.

Na chegada a Israel, os ativistas podem escolher assinar um documento a autorizar a sua deportação, abdicando de um recurso à ordem de saída do país. Nesse caso, o processo será imediato. Esta foi a opção escolhida por quatro dos ativistas de junho, incluindo por Greta Thunberg.

Caso contrário, a lei israelita prevê um período de detenção de 72h, de forma a que os detidos possam apresentar um recurso à ordem de deportação. Até à data de publicação deste artigo não havia confirmação sobre que processo tinha sido escolhido pelos portugueses a bordo. Além da deportação, todos os ativistas serão proibidos de reentrar em Israel por um período de 100 anos, explica a Reuters.

Como foi a detenção dos ativistas do Madleen?

Em junho, oito dos ativistas a bordo do Madleen, incluindo a eurodeputada francesa Rima Hassan e o ativista brasileiro e um dos organizadores Thiago Ávila, recusaram assinar as ordens de deportação, uma vez que, argumentaram, não tinham entrado em território israelita, mas sim detidos em águas internacionais e levados para Israel contra a sua vontade.

Estes ativistas ficaram presos na prisão de Givon, em Ramla, uma cidade perto de Telavive, até serem presentes a um juiz de imigração para validação da ordem de deportação. O processo demorou três dias. Durante a detenção, Hassan e Ávila foram colocados em celas solitárias. A primeira, por ter escrito “Palestina Livre” nas paredes da cela. O segundo, por ter iniciado uma greve de fome em protesto, escreveu à data a Al Jazeera.

O que se espera da detenção dos ativistas da Global Sumud?

Agora, por comparação a junho, a situação deverá ser diferente, estima Omer Shatz, israelita especializado em Direito Internacional. Dada a quantidade de detidos, o seu processo no sistema israelita torna-se mais difícil, pelo que os ativistas poderão ser transferidos para Ketziot, uma prisão maior no sul de Israel. À Reuters, o professor da Universidade SciencesPo de Paris destacou que Ketziot é uma prisão de alta segurança, pelo que não costuma acolher casos de imigração e as suas condições são bem mais duras.

O Ministério italiano confirmou que os detidos iam ser transferidos para “instalações em Be’er Sheva” — a cidade mais próxima de Ketziot —, onde, a partir da manhã de sexta-feira, poderão receber visitas dos seus representantes consulares.

O processamento dos membros da flotilha também poderá atrasar a sua deportação. Mas mesmo os que escolherem assinar a ordem de saída do país logo na chegada a Israel, não poderão sair pelo menos até à noite deste sábado mas por um motivo completamente diferente: Israel celebra esta quinta-feira o feriado sagrado do judaísmo, o Yom Kippur.

Durante 25 horas, todos os negócios, restaurantes, espaços de lazer e transportes públicos estão fechados, incluindo o aeroporto Ben Gurion. Segundo o Turismo de Israel, este é o único dia do ano em que o aeroporto está encerrado, pelo que os voos de deportação só deverão ser efetuados a partir de sexta-feira.

Depois disso, celebra-se o dia de descanso semanal, o Shabbat. Portanto, é esperado que os voos de deportação, para Londres e Madrid, só comecem a partir a ser realizados efetivamente a partir de segunda-feira, detalhou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália.

Que apoio legal têm os ativistas?

Os ativistas detidos esta quinta-feira terão acesso a apoio legal por duas vias. Em Israel, terão o apoio da Adalah, uma organização de direitos humanos e ajuda jurídica sediada em Israel, que já trabalhou com participantes de outras flotilhas, ao longo dos anos. Suhad Bishara, diretora legal da organização, relatou à Reuters que a equipa aguardou a chegada dos ativistas ao porto de Ashod, para os contactar antes de serem transferidos para Ketziot — ou qualquer outra prisão israelita.

“A nossa principal preocupação é o seu bem-estar, a sua condição de saúde e garantir que tem apoio legal antes de serem ouvidos pelo tribunal de imigração”, detalhou.

Contudo, o apoio também chega do Mar Mediterrâneo, a bordo do barco Shireen — que herda o nome da jornalista da Al Jazeera morta pelas forças israelitas em 2022 — e do Summertime-Jong, com tripulações compostas por advogados e juristas. A primeira embarcação é um “Barco de Apoio Legal Independente”, que tinha como objetivo criar uma “base de dados de violações dos Direitos dos participantes”.”O barco não vai tentar quebrar o cerco; vamos permanecer em águas internacionais”, escreveu uma das advogadas a bordo antes de partir.

Já o rastreador do Summertime Jong, que navegava com o mesmo objetivo, mostra que o barco também não entrou na zona de alto risco e, em vez disso, se dirigiu para o Chipre. A publicação do ministério israelita menciona apenas um barco que não tentou quebrar o bloqueio, não sendo claro a qual dos dois barcos se refere.

O que acontece aos barcos depois de serem intercetados?

Nas flotilhas anteriores — não só do Madleen e do Handala em 2025, mas das missões anteriores da Coligação Flotilha da Liberdade, que remontam a 2010 — os barcos intercetados por Israel são levados para portos israelitas. Em algumas ocasiões, os barcos ficaram inoperacionais devido a ataques israelitas, mas os destroços também foram rebocados para terra. Depois, na maior parte das ocasiões, os donos dos barcos são chamados a ir a tribunal em Israel para reaver os barcos.

O processo foi descrito à emissora canadiana CBC por Zohar Chamberlain Regev, membro da FFC que está registada como dona de três barcos que já navegaram até Gaza, incluindo o Handala. Algumas vezes, destaca, as autoridades israelitas não chegam a contactar os donos dos barcos. Nas vezes que foi a tribunal, argumentou que o barco estava em águas internacionais e condenou a interceção, ninguém lhe deu razão, mas os barcos acabaram por ser devolvidos por Israel.

Nesse caso, as embarcações são reparadas para poderem navegar novamente para a Faixa de Gaza ou vendidas para financiar atividades futuras, detalhou.

E o que acontece à ajuda humanitária?

Segundo a FFC, a ajuda humanitária que segue a bordo das flotilhas não costuma chegar ao enclave palestiniano cercado. De forma oficial, Israel diz que os mantimentos retirados das embarcações são “transferidos para Gaza pelos canais humanitários reais“. Contudo, o bloqueio imposto pelas forças israelitas faz com que os “canais reais” não sejam suficientes para colmatar a situação de fome que foi declarada pela ONU na Faixa de Gaza.