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NurPhoto via Getty Images

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Diretos nas redes sociais, telemóveis ao mar e "mãos ao ar". Como três portugueses da flotilha a caminho de Gaza foram detidos por Israel

Mariana Mortágua, Sofia Aparício e Miguel Duarte chegaram ao porto israelita pelas 11h desta quinta-feira. Governo português promete ajuda e alerta que feriado pode atrasar repatriamento.

Passava pouco das 18h00 desta quarta-feira quando os ativistas da Global Sumud Flotilla tiveram os primeiros sinais de que estariam prestes a ser intercetados pelas autoridades israelitas. Nesse momento estavam a 70 milhas náuticas (129 quilómetros) da costa de Gaza. A abordagem era quase certa e o protocolo para o momento do confronto estava decorado há semanas: vestir os coletes salva vidas, atirar os telemóveis à água e colocar as mãos no ar em sinal de rendição. Horas depois, e ao início da madrugada, os três portugueses presentes na missão — a líder do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, a atriz e modelo Sofia Aparício e o ativista Miguel Duarte — estavam entre os detidos pelas autoridades israelitas, que intercetaram pelo menos 13 embarcações da missão humanitária que tem o objetivo de levar comida e bens essenciais até à Faixa de Gaza e abrir um corredor de ajuda humanitária na região, furando o bloqueio israelita.

Quando a interceção se tornou quase certa, os ativistas portugueses desdobraram-se em declarações, detalhando o que se passava em alto mar. “Eles dirigem-se para nós e nós para eles a grande velocidade, deverão ser navios militares e estará próxima a interceção”, afirmou, na altura e em declarações à RTP3, Miguel Duarte.

Logo a seguir, o ativista que seguia a bordo do barco Morgana — a delegação portuguesa estava separada há alguns dias depois de o navio em que seguiam sofrer danos irreparáveis — afirmava que conseguia ver no serviço de navegação da embarcação vinte embarcações que se recusavam “a identificar via rádio”.

Já a bordo do Adara, Mariana Mortágua dizia, por volta das 19h00, que não havia “registo de ataque nem de subida a bordo”. “Só há militares a passar à nossa volta. Vemos 10 a 12 luzes de navios que não são nossos. Isto quer dizer que o cenário é este e o nosso objetivo ainda é chegar a Gaza”, explicava. Comunicava através de diretos no Instagram e foi durante um deles que foi informada em direto que o barco Alma — com a sueca Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila a bordo — tinha sido intercetado e que os seus ocupantes tinham retirados da embarcação.

▲ O antes e o depois do Alma durante a interceção israelita

DR

As imagens em direto, que continuam a ser transmitidas pela Global Sumud Flotilla no YouTube, mostravam, momentos antes, os ativistas do Alma sentados em círculo. Pouco depois a mesma câmara mostrava o convés superior do barco sem ocupantes.

Após a interceção do Alma, seguiu-se a abordagem do Adara. A líder do Bloco de Esquerda relatou e filmou quase até ao momento da sua detenção tudo o que se passou até ao encontro com militares israelitas.

“Ponham as mãos ao ar”. A transmissão em direto de Mariana Mortágua

“Eles acendem a luz e apagam e quando fica escuro não percebemos onde estão”, contou a líder do Bloco de Esquerda, enquanto relatava ao minuto a aproximação de embarcações não identificadas.

Enquanto mais de 13 mil utilizadores assistiam à sua transmissão na rede social avisava: “Se isto se apagar não se preocupem, é protocolo”. Logo depois, explicou que as forças israelitas estavam a “atirar com canhões de água e a pedir para falar com o capitão.” Nessa altura já a marinha israelita tinha chegado ao Adara e ouvia-se pela primeira vez: “Ponham as mãos ao ar”.

A ligação do direto no Instagram foi interrompida e retomada várias vezes até terminar definitivamente — mas ainda se ouviu Mortágua a dizer também ela “ponham todos as mãos no ar”, recordando o protocolo aos colegas. Posteriormente, o Observador confirmou junto de fonte oficial da Flotilha Humanitária em Portugal que, tal como estava no previsto perante a interceção, Mortágua atirou o seu telemóvel à água.

Pouco depois, soube-se que também o barco em que seguia Sofia Aparício, o Sirius, tinha sido intercetado. A bordo seguia igualmente Ada Colau, antiga Presidente da Câmara de Barcelona.

Foi Joana Mortágua que avançou, num grupo da rede social Instagram, que a sua irmã, Mariana, e Sofia Aparício tinham sido “detidas por Israel”, acrescentando que perdera o contacto com os três portugueses a bordo da flotilha. Mais tarde foi também ela que confirmou a detenção de Miguel Duarte.

Tanto Mortágua como Aparício deixaram uma mensagem gravada, publicada quando os barcos onde seguiam foram intercetado pelas forças israelitas.”Olá. Se estão a ver este vídeo é porque o barco em que sigo da missão humanitária Global Sumud Flotilla, o barco Sirius, foi intercetado e fui levada contra a minha vontade pelas forças de Israel. Fui raptada”, diz a atriz no vídeo que foi publicado na sua página do Instagram.

“O que vos peço é que façam pressão no Governo português para que eu, a Mariana Mortágua e o Miguel Duarte — assim como todos os membros desta missão humanitária — sejam libertados e levados em segurança para casa”, acrescenta.

“Não se esqueçam. Juntos somos mais fortes. A mobilização popular tem muita força”, conclui a atriz. O pedido de Mariana Mortágua é o mesmo.

Portugueses chegaram ao porto israelita de Ashdod pelas 11h. Feriado pode atrasar repatriamento

Algumas horas após a primeira interceção e de se saber que Mariana Mortágua e Sofia Aparício estavam detidas por Israel, Paulo Rangel disse que o Ministério dos Negócios Estrangeiros “manteve contacto regular” com todos os membros da delegação portuguesa ou com “representantes” dos mesmos. “Pedimos que aceitassem a proposta do governo italiano para não deixarem as águas internacionais e entregarem a ajuda humanitária no Chipre”, notou o ministro.

Negou ainda, perante as críticas nas últimas semanas, que o Estado português tenha ignorado a flotilha.”Desde o início que a embaixada e os seus serviços consulares estiveram em contacto diário com as autoridades israelitas“, garantiu.

“As autoridades israelitas indicaram-nos o sítio para onde as pessoas seriam levadas e para onde os podíamos visitar para tratar do repatriamento”, acrescentou o ministro, que avançou que os membros da flotilha devem chegar a porto israelita às 8h00 da manhã desta quinta-feira E apontou que a celebração judaica do Yom Kippur pode atrasar saídas de Israel. Os barcos da marinha israelita acabaram por só chegar ao porto de Ashdod por volta das 11h (em Lisboa, 13h em Israel).

Referiu que tudo será feito para acelerar a retirada dos portugueses, mas disse que este “feriado”, que se celebra até à noite de quinta-feira é “um dos tempos mais sagrados judaicos” e faz com que vários serviços israelitas não estejam a funcionar. “Poderemos ter aqui uma janela para que na sexta de manhã consigamos que o nosso cônsul possa estar com os nossos compatriotas”, afirmou.

O ministro destacou ainda a colaboração com as autoridades israelitas. “Dentro das circunstâncias, com as quais não concordamos, estamos a ter uma relação profissional correta”, afirmou.

Paulo Rangel disse ainda estar confiante de que não existe risco de o regresso dos elementos da flotilha não correr bem. Negou ainda que esta situação coloque em causa a relação diplomática com Israel. “Estamos muito encorajados com este passo que deu o Presidente Trump e que foi acompanhado por Benjamin Netanyahu”. “Queremos é que se ponha termo a esta guerra”, apelou ainda.

Pouco antes, o Presidente da República publicou uma nota no site da Presidência da República a informar que “confirmou junto do Governo, que será assegurado, através da Embaixada em TelAviv, todo o apoio consular aos compatriotas detidos, como é de regra, e em particular quando implica titulares de órgãos de Soberania, bem como todo o apoio ao regresso a Portugal”.

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Já Israel, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, publicou as primeiras imagens dos detidos, focando-se em Greta Thunberg, que surge num vídeo partilhado na rede social X a interagir com um soldado israelita. Nas imagens, o militar entrega-lhe um casaco e o que parece ser uma garrafa de água. “A Greta e os seus amigos estão seguros e saudáveis”, afirmou, em tom irónico, o ministério israelita. Telavive confirmava ainda que vários navios da flotilha Hamas-Sumud já tinham “intercetados em segurança” e os seus passageiros estavam “a ser transferidos para um porto israelita”.

De registar que, ainda antes da operação de interceção, foi transmitida uma mensagem da marinha israelita via rádio ao barco Alma. “Vocês estão a entrar numa zona de guerra ativa. Se tentarem romper o bloqueio naval, apreenderemos e confiscaremos as vossas embarcações, e vocês serão totalmente responsabilizados pelas vossas ações”, ouviu-se.

O vídeo do momento em que a mensagem era transmitida foi gravado a bordo da embarcação e foi partilhado nas redes sociais da Flotilha, juntamente com a mensagem: “Israel está prestes a cometer um novo crime de guerra”.

O ativista brasileiro Thiago Ávila, a bordo do barco que estava a ser interpelado por Israel, respondeu: “Vocês dizem que estamos a entrar numa zona de guerra ativa, nós dizemos que estamos prestes a entrar numa zona onde crimes de guerra que estão a ser cometidos. Isso é contra o direito internacional.”

E continuou: “Levamos alimentos, ajuda humanitária, filtros de água, canadianas, leite em pó para bebés, às pessoas que vocês têm morto à fome”. Perante a resposta às forças israelitas, o barco foi intercetado e todos os ocupantes detidos.

O que aconteceu aos ativistas que seguiam no Madleen, o navio que em junho tentou chegar a Gaza?

Esta não é a primeira tentativa de quebrar o bloqueio israelita a Gaza. Em junho deste ano, também Madleen, um navio da organização Flotilha da Liberdade, foi intercetado antes de chegar ao enclave palestiniano. A bordo estava, tal como agora, Greta Thunberg.

Após Telavive ter desviado o navio e os ativistas terem sido transportados para o porto de Ashdod, o ministro da Defesa de Israel deu instruções às forças israelitas para “mostrar aos passageiros o vídeo dos horrores do massacre de 7 de outubro“.

As autoridades israelitas disseram, posteriormente, aos 12 passageiros do Madleen (seis voluntários franceses, um neerlandês, um turco, uma sueca, um brasileiro, uma alemã e um espanhol) para regressarem aos seus países.

Anadolu via Getty Images

Quatro dos passageiros aceitaram ser deportados após a interceção do navio pelo exército israelita. Os restantes recusaram-se a assinar a deportação voluntária e foram detidos e levados a tribunal para ratificar as ordens de expulsão, uma vez que, segundo a lei israelita, quando uma pessoa recebe ordens de deportação é detida durante 72 horas ou mais antes de ser expulsa do país.

Resta saber o que vai acontecer com os membros da delegação portuguesa. É expectável, para já, que fiquem incontactáveis durante várias horas, uma vez que já não têm consigo os seus telemóveis.

Notícia atualizada às 11h25 de quinta-feira com a hora de chegada dos navios israelitas ao porto de Ashdod

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