Era um dos dias mais aguardados do regresso de José Mourinho a Portugal. Mais de duas décadas depois de ter deixado o FC Porto para rumar ao Chelsea, o treinador português voltava ao Estádio do Dragão — mas agora como adversário, ao comando do Benfica e para disputar o primeiro Clássico da temporada entre as duas equipas.

Mourinho fintou virose para dar outra aula sobre antídotos (a crónica do FC Porto-Benfica)

No fim, deu a masterclass do costume. O Benfica apresentou-se defensivamente organizado e competente, não permitiu grandes aventuras a um FC Porto que só tinha vitórias no Campeonato e conquistou um ponto depois de uma semana em que vários jogadores foram afetados por uma virose. Em resumo, não perdeu pontos para os dragões e ainda beneficiou do empate do Sporting contra o Sp. Braga, estando agora a um ponto dos leões e a quatro da liderança do Campeonato.

Depois do apito final, na zona de entrevistas rápidas, José Mourinho não escondeu que estava satisfeito com o resultado tendo em conta o contexto em que o Benfica visitou o Dragão. “A nossa situação era complicada. Não podíamos sair a sete pontos, queríamos sair a um. Nem eu no banco me senti em condições de arriscar para ganhar e eles em campo acharam que o jogo estava controlado porque não se podia perder. Eles podiam perder, para nós numa série complicada era fundamental não perder. O outro rival, o Sporting, empatou. Este fim de semana éramos nós que estávamos numa situação mais difícil e acabámos por sair sem pontos perdidos. Estamos cá, estamos vivos”, começou por dizer.

“Foi uma equipa que percebeu tudo, que por caraterísticas individuais não temos jogadores rápidos e diretos. Os jogadores foram fantásticos do ponto de vista de organização contra uma equipa que não é fácil. Viemos com grande personalidade e tranquilidade. O Trubin não faz uma defesa e o [Rodrigo] Mora tem um remate ao pau e nada mais, num campo de uma equipa que ganhou tudo e hoje teve dificuldades”, acrescentou.

Mais à frente, Mourinho comentou as substituições de Francesco Farioli durante o jogo e explicou o que pretendeu com as próprias mexidas. “O William [Gomes] é um jogador diferente do Pepê, tem jogo interior, remate, faz golos. Apanha o [Samuel] Dahl com 70 minutos e no fim protejo com o Tomás [Araújo]. Ainda por cima o Tomás é destro e defende melhor a zona interior, o Lukébakio estava morto. Podia ter arriscado qualquer coisa, mas não me senti confortável. Podiam ter transições. Meti o Leandro [Barreiro] para compactar e ajudar o [Amar] Dedic. O único jogador que hoje apareceu doente foi o Ivanovic. Podia ter pensado para o ataque, para o lugar de Pavlidis, mas não quis arriscar. Foi o único que hoje caiu”, revelou, garantindo que a equipa está num processo de crescimento.

“A equipa vai crescendo. Tivemos esta semana dois jogos de grande grau de dificuldade. Tivemos grande organização nos dois. O FC Porto tinha pernas e motores para a profundidade, mas nós não temos essas caraterísticas. O Aursnes, o Sudakov, são jogadores de aproximação. Fazíamos um golo e ganhávamos”, sublinhou. Sobre a reação dos adeptos dos dragões assim que apareceu no relvado, ainda antes do período de aquecimento e com assobios e vaias, foi muito claro e garantiu que estava à espera: “Claro que sim, perfeito, no problem”, disse, abordando o tema de forma mais aprofundada já na conferência de imprensa.

“A história não muda, a minha gratidão ao FC Porto também não se altera. Não sei se a gratidão deles para comigo se altera ou não, mas a minha não se altera. Tive um jogo absolutamente tranquilo, focado no meu trabalho, focado em tentar ajudar a minha equipa. Já tinha jogado aqui com o Chelsea. Não posso dizer que durante o jogo tive algum sentimento especial. Aquilo que o presidente disse antes do jogo é normal e concordei imediatamente, que devia ser recebido como treinador do Benfica. Foi o que aconteceu. Depois do jogo, encontrei-o no corredor e, como amigos, um abraço e a vida continua”, indicou, detalhando também a forma como o Benfica encarou o Clássico.

“O Benfica joga para ganhar, mas joga para ganhar o Campeonato. Às vezes para se ganhar o Campeonato tem de se jogar para o ponto. Hoje era o dia em que se joga para ganhar, mas sabe-se que não se pode perder”, terminou.