Leonardo Jardim foi campeão na Grécia, em França, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Ficou na história do Olympiacos, do Mónaco, do Al Hilal e do Al Ahli, para além de ainda ter passado por outro clube emirati e pelo Al Rayyan do Qatar, aterrando no Cruzeiro do Brasil no início do ano. Atualmente, está no terceiro lugar do Brasileirão a três pontos da liderança do Palmeiras — e não esconde que a liderança foi uma ferramenta crucial no sucesso que foi atingindo.
No Portugal Football Summit, evento em que participou via vídeoconferência porque o Brasileirão não parou na atual data FIFA, o treinador português lembrou que “cada um lidera à sua maneira”. “Quer de uma forma mais democrática, quer de uma forma mais liberal ou autocrática. O fundamental é sermos coerentes com a nossa forma de estar, a nossa forma de liderar perante todos, seja o staff ou os jogadores. Os jogadores normalmente não gostam de lideranças que não sejam iguais para todos, independentemente de serem mais democráticas ou autocráticas. Eu acredito numa liderança democrática, em que não seja só o treinador a liderar, mas também o staff e alguns jogadores mais importantes”, começou por dizer.
Leonardo Jardim confirmado como treinador do Cruzeiro, horas depois de deixar o Al Ain
Quase sempre associado a Benfica ou Sporting nos últimos anos quando encarnados ou leões precisam de um treinador, Leonardo Jardim explica que mudou de atitude à medida que foi construindo a própria carreira. “No início era muito mais rígido em relação a vários fatores, queria controlar tudo. Agora há muito que já foge da minha responsabilidade, passei de ser um treinador mais rigoroso para me preocupar com coisas mais importantes para mim, como o momento do treino, o momento de preparação do jogo. É aí que me dedico mais, é aí que sou mais rigoroso. As outras coisas não são de primeira linha, dei essa responsabilidade ao staff, à direção do clube, para facilitar a gestão dos meus jogadores”, acrescentou, lembrando que é sempre necessário ter em conta “o diferente contexto de cada um”, seja “família, cultura ou religião”.
Depois de mais de três anos entre Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar, o treinador português defende que passou “do oito para o 80” no que diz respeito à exigência e à “cobrança” a partir do momento em que chegou ao Brasil. “Acho que tem a ver com a emoção dos adeptos, dos jogadores. Ganhamos e fazemos uma festa, somos os melhores do mundo, e depois com uma derrota existe uma crítica avassaladora. Temos de saber pôr isso um pouco fora do grupo de trabalho. Mas também vim para o Brasil para viver essa emoção”, reconhece, lembrando que 19 técnicos já foram despedidos no Brasileirão desde o início do ano.
Para além de Leonardo Jardim, também Pedro Caixinha, Nuno Dias e Paulo Fonseca participaram na mesma conferência, com este último a lembrar que “liderar é cada vez mais difícil”. “É cada vez mais exigente. Gerir o sucesso também não é tarefa fácil, é um desafio enorme. O sucesso camufla um bocadinho o que não fazemos tão bem, as imperfeições. Motivar os que já ganharam é muito difícil, temos de criar novas motivações, novos exercícios de treino, novas propostas, táticas. É difícil liderar depois do sucesso. Mas liderar, de forma muito simples, tem a ver com a nossa capacidade de influenciar. E há aqui um pilar principal: fazer os jogadores acreditar no que propomos, nas nossas ideias”, começou por dizer o atual treinador do Lyon.
“Gerir egos não é fácil. A sociedade mudou, é muito mais difícil criar conexões nos grupos de trabalho. Eu passo pelo balneário e já não é a primeira ou segunda vez em que estão dez jogadores todos agarrados ao telemóvel e ninguém fala com ninguém. O grande desafio é que temos de perceber o mundo atual, a sociedade em que vivemos, e obviamente criar mais laços, mais união. Hoje os jogadores são pequenas empresas, têm à sua volta equipas multifacetadas, os agentes, os ‘personal trainers’, os fisioterapeutas, os psicólogos”, terminou.