Woody Allen a ser Woody Allen – e Baum a ser Woody Allen também. Neste primeiro romance do conhecido cineasta, temo-lo tal como nos habituou, trazendo para o centro da narrativa um jornalista judeu residente em Nova Iorque, dramaturgo e romancista – e totalmente neurótico. Tão neurótico que fala sozinho – assim é Baum, que escreve livros a armar ao intelectual, mas que são vilipendiados pela crítica, e cujo terceiro casamento está por um fio, com ele a acreditar que a esposa teve um caso com o irmão dele. Pelo meio, olha de lado para a relação que Connie – a mulher dele – tem com o filho, que para piorar as coisas é um escritor muito mais bem-sucedido do que Baum. Não bastasse e, no mar alto do seu casamento seco, tentou beijar uma jornalista, acto que esta está prestes a revelar em público. Tudo isto é terreno para Woody Allen woodyallenar à-vontade.
Em Que se passa com o Baum?, tudo é neurose, o que significa que tudo no romance é divertido. Os diálogos entre as personagens deixam sempre alguém a nu – regra geral, o próprio Baum – e os diálogos entre Baum e Baum fazem o mesmo: de um lado, uma voz tenta conter-se; do outro, outra voz diz as verdades, apontando o dedo ao que é mesquinho no escritor, e eis a inveja sem pó de arroz em cima, ou mesmo a fragilidade artística, que causa tanto mal ao ego. Nos momentos em que Baum fala sozinho, o leitor passa a ter acesso a dois planos – num, Baum apresenta-se como gostaria de ser; no outro, apresenta-se com o que tem de parco e de pouco impressionante.
Na apresentação de Baum, tudo é ironia. A personagem é atirada ao ridículo nos momentos em que se posiciona perante a ideia de criar um best-seller – vender é vender-se, mas nem por isso deixa de estar claro o descontentamento com o facto de vender pouco ou ser pouco apreciado. O próprio casamento de Baum parece responder a esta situação: inicialmente, Connie parecia enamorada pelo potencial de Baum, esse que seria génio, esse que estaria ao lado de Dostoiévski e Kafka; posteriormente, não só o russo e o alemão continuam sozinhos, como o potencial nunca se torna realidade. A ambição servira para o salto, mas a falta de habilidades conduz à queda. Pelo meio, a própria neurose, que domina o cérebro, queima qualquer ponte e qualquer traço de segurança e auto-estima: perante a constatação das suas falhas, Baum acha-se, fora o regabofe que afirma para os demais, pouco e insuficiente: compara-se aos outros casamentos de Connie e vê as próprias desvantagens, e até meros casos servem para o pôr em causa, num romance que, além de escorreito, divertido e amplo, é cínico – sendo que o cinismo, como diz o protagonista, “é o realismo escrito de outra maneira” (p. 27).
Título: “Que se passa com o Baum?”
Autor: Woody Allen
Tradução: Miguel Martins
Editora: Edições 70
Páginas: 204
Baum quer ser reconhecido, mas despreza quem tem sucesso (como o filho de Connie); acha que a fama é uma vulgaridade e prova de superficialidade, mas torce-se por não a ter. Isto, ao invés de o mostrar como incoerente, mostra-o como humano comido pela inveja e por sonhos por concretizar. E isso é Woody Allen a voar, mostrando o que é, em simultâneo, ridículo e universal – o homem que desvaloriza o que o outro tem para fingir, até perante si, que não lhe dói não o ter também.
Claro, tudo isto é território familiar para quem já está familiarizado com o trabalho de Woody Allen, que parece verter-se nestas páginas – se Allen tivesse de escrever sobre si próprio, dificilmente se mostraria de forma muito diferente de Baum. Mesmo que os traços biográficos não coincidam, há no olhar de Woody Allen, seja no cinema ou na literatura, esse tal permanente cinismo, que, aliado a uma auto-depreciação e a uma ideia de sempiterna crise de criatividade, constituem uma marca tão pessoal quanto criativa. Com tudo isto em cima da mesa, o romance não surpreenderá o público do cineasta, uma vez que parece uma variação literária de alguns dos seus filmes mais emblemáticos. Na prosa, mantém-se uma continuidade estética, o mesmo universo mental, o mesmo olhar incidente, o mesmo lugar geográfico – por isso, cada página é mais uma crónica da neurose urbana nova-iorquina, com Baum a ser o sempiterno woodyallenesco intelectual em crise, o artista virado para si mesmo e para as suas falhas, o escritor que se acha um génio embora tema não o ser, o intelectual que acha uma ofensa não ser unanimemente venerado, o homem que não aguenta o seu lugar pequeno num mundo tão imenso.
E, no meio de tanta semelhança, temos ainda o olhar de sempre sobre a ideia de fracasso e a teórica fragilidade da criação, num movimento que destrói a vaidade intelectual – movimento esse que tem garantido a Woody Allen um lugar de destaque entre os produtores culturais norte-americanos e, em particular, nova-iorquinos. Assim, o romance de Woody Allen usa a vida de um homem a desmoronar-se como crónica risível do desconforto – o leitor vê a tragédia, mas não deixa de a achar cómica, o que lhe garante a empatia ou um certo paternalismo sobre Baum.
A ironia e o cinismo mostram uma infelicidade intensa, de não-pertença: o amor revelou-se efémero e pouco, nunca redenção; a arte relevou-se fraca e incapaz de tocar o outro; a vida revelou-se o passar do tempo, trazendo a ruína dos afectos e uma incapacidade de chegar aos patamares almejados – e nisto o sarcasmo parece o último reduto de dignidade, uma auto-depreciação que garante que, afinal, tudo o que foi sonhado não era para ser levado a sério. O riso que o livro traz é, por isso, o do desespero de quem se leva muito a sério e fica preso à validação externa, ficando ainda à vista o que resta quando se vive da ideia do talento que cai por terra – sem ele, para onde irão o amor, o prestígio, a auto-estima?
Para quem lê, não era necessário que o livro viesse assinado. Tudo repete a fórmula, tudo é o mesmo universo, e nada disto distancia o leitor. Pelo contrário, logo na primeira página se entende o registo, e a sensação de familiaridade, de um mundo que é só daquele artista, garante a leitura, porque o sentido de humor agarra e o cinismo também. O fascínio pelo fracasso, num mundo em que é tão fácil a colagem a um discurso motivacional, mostra a vida a nu, mostra que não há um Cristiano Ronaldo em cada um de nós – a vida é a falha, a mediocridade, o fracasso, a distância dos sonhos. E, com isto, o autor sublinha a normalidade, sublimando-a, mostrando que a arte não precisa de viver do épico, mas da vida comezinha, e que o humor serve como olhar aguçado.
No meio disto, não sendo o livro autobiográfico – Woody Allen estará muito distante do sucesso mediano ou da ausência de aplausos do público –, nota-se que o autor pega na sua espécie de alter-ego, ou de pequeno criador que julga ter dentro, e que brinca com ele ao mesmo tempo que com a sua imagem pública – e trá-la para o território da ficção como um activo. Em termos técnicos, convém ainda referir que o narrador vai saltitando entre o não-participante e uma incursão tal na psique e na voz de Baum que, por vezes, parecemos estar perante uma primeira pessoa. Também isto ajuda a que a sensação de neurose esteja mais próxima do leitor, que passa a vê-la de forma e de dentro ao mesmo tempo.
Com tudo isto, Que se passa com o Baum? não traz nada de novo à marca Woody Allen. Muda o registo, mas vemos o mesmo filme. E o mesmo filme de Woody Allen é sempre o grande ecrã a mostrar-nos a vida, num retrato cáustico, vivo, cheia de gente de aspirações frustradas, casamentos que morreram na praia e a visão da felicidade como coisa muito ao longe – e, claro, é sempre bom.
A autora escreve segundo a antiga ortografia.