A desconfiança deu lugar ao empolgamento e, nas ruas de São Miguel, nos Açores, os dias de gravações da segunda temporada de Rabo de Peixe foram uma espécie de teatro improvisado, com público a assistir de pé ou sentado nos muros. Os micaelenses guardaram durante meses um segredo só deles, que chega à Netflix na sexta-feira, dia 17 de outubro, e que vai revelar o destino das personagens que, há cerca de ano e meio, colocaram a série nos primeiros lugares do top em vários países e catapultaram o nome de Rabo de Peixe para o mundo.
“Filmámos por toda a ilha, mas sobretudo no centro as pessoas queriam tirar fotos, perguntavam se o Rafael tinha morrido, se a Sílvia estava mesmo grávida, quem era o pai. Do nosso lado havia o entusiasmo de querer partilhar algo com as pessoas, misturado com o stress e a responsabilidade de ter de esconder o que ia acontecer. Acho que pusemos a pressão às costas, como uma mochila, não a evitámos”, revela José Condessa, o protagonista Eduardo, ao Observador.
Baseada na história verídica de um carregamento de cocaína que deu à costa ao largo da ilha dos Açores e que começou a ser vendida e distribuída localmente, a narrativa expandiu-se, ganhou vida própria e densidade nos seis novos capítulos. As personagens já não são crianças, passaram por muito, estão rodeadas por destruição, interior e exterior, e esse é um dos pontos diferenciadores da segunda temporada. “O sonho que o Eduardo prometeu ao grupo no primeiro episódio da primeira temporada desaparece completamente aqui. Os sonhos e as possibilidades esfumam-se e isso permite criar personagens numa fase completamente nova. Aquela família, aqueles amigos que eram família para o Eduardo, está tudo destruído. Está cada um para seu lado e ele não tem nada, nem sequer a casa. É uma metáfora daquilo que é a vida dele neste momento”, diz José Condessa.
[o trailer da segunda temporada de “Rabo de Peixe”:]
Esse isolamento da personagem que começou por ser uma referência no grupo de amigos e um líder nato foi sendo cavado pelas escolhas feitas ao longo do caminho. Apesar de se basear num episódio verídico, para Augusto Fraga, criador e guionista da série, houve rumos que se desenharam naturalmente sem ser ele a criá-los.
“O Eduardo no papel é mais incompleto e menos interessante do que o Eduardo José Condessa. Acho que as personagens, quando ganham vida, muito graças às interpretações, vão mostrando o caminho para onde têm de ir. Poder colocá-las numa situação desconfortável foi um desafio para nós, mas quisemos fazê-lo com toda a gente”, explica ao Observador, dando exemplos práticos:
“O Eduardo quer ir para a América, mas se calhar não é disso que precisa. A Sílvia quer renegar o pai, mas se calhar não é disso que precisa. Essa dualidade é muito rica e faz com que a segunda temporada seja muito diferente da primeira.”
Quase como uma experiência de laboratório, Augusto Fraga e a respetiva equipa foram acrescentando níveis de dificuldade. “Desta vez pensámos: “Como é que o Eduardo, que é um homem de amigos, reage quando está completamente sozinho em Rabo de Peixe’? Quando começa a recuperar, pensámos: ‘Ok, vamos experimentar acrescentar um obstáculo, como os brasileiros [os donos da droga de que o grupo de Eduardo se apodera no início da história]’ e por aí fora.”
Eduardo tem de crescer e assumir os erros e os defeitos. O mesmo é válido para o restante grupo. Esse foi um ponto decisivo para o guião dos novos episódios, que continuam a ser frenéticos e a conter elementos cómicos de descompressão, com muitas piadas feitas à volta de referências da época. Outro dos elementos que escolheram manter foi o uso de palavrões — foram tantos na primeira temporada que deram, inclusive, origem a memes.
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“Acho que começou por ser uma linguagem nossa, da série. Por vezes, em ficção, escondemo-la [a linguagem com palavrões] e deixamos de ter um discurso natural. Estes rapexinhos [habitantes de Rabo de Peixe] têm, enquanto falam uns com os outros, uma quantidade de asneiras que não têm quando falam com a família ou com alguém que consideram mais respeitável, o que também nos acontece na vida real. A maior parte das asneiras, principalmente o ‘foda-se’ vem como vírgula, é uma expressão que dá para expressar uma dor ou preencher um silêncio desconfortável”, explica José Condessa.
“Eu defendo o caráter libertador da palavra ‘foda-se’. Há muitos momentos na nossa vida em que não há nada para dizer, a não ser isso”, completa Augusto Fraga.
De “atoleimado” e “requinho”, as expressões que o elenco adotou
As expressões açorianas continuam igualmente presentes e não apenas durante as gravações. Apesar de as personagens principais não terem sotaque micaelense na série, os locais sentiram-se representados na primeira temporada e fizeram questão de dizê-lo durante a nova vaga de gravações. “Vinham ter connosco e diziam-se orgulhosos por nós sabermos o significado de certas expressões, como ‘atoleimado’ [tolo] ou ‘requinho’ [bonito]”, diz André Leitão, que é Carlinhos na história. “Mesmo com o nosso PT, que era micaelense, já só falávamos assim, era muito engraçado”.
“Tínhamos poucas pausas, portanto não desligávamos esse botão”, refere Helena Caldeira, que é Sílvia. Também ela recorda como melhores momentos a presença dos locais nas gravações. “Foi tão fixe. Quando estávamos a filmar no exterior, as ruas estavam cheias com pessoas a assistir. Ver isso foi maravilhoso.”
Apesar de concordar, Rodrigo Tomás (Rafael na trama) admite que ficava “envergonhadíssimo e encavacado”. Na primeira temporada, lembra Kelly Bailey (Bruna), “havia uma certa desconfiança” em relação ao que estavam a fazer: estariam ou não os locais a ser mal representados? Agora que a série já não era novidade para ninguém, a reação era outra. “As pessoas estavam simplesmente contentes por estarmos ali e queriam ver o que se passava.”
Ainda assim, o respeito foi sempre uma constante e as barreiras físicas a delimitar o perímetro das gravações quase nunca estiveram presentes. “Lembro-me de estar a filmar uma cena na igreja de Ribeira Grande, uma zona muito central, e de as pessoas estarem simplesmente sentadas ou em pé no muro, a ver”, conta André Leitão.
O Cine Teatro, um décor importante nesta temporada, está abandonado há anos, mas existe agora a possibilidade de lhe dar nova vida. Esse é outro poder da série: dinamizar a região e dar voz ao legado. Para Maria João Bastos, que interpreta a inspetora responsável por resolver o caso de tráfico de droga, há uma sensação especial por ver a zona a ter a devida atenção. “Fomos sempre tão bem recebidos, comemos tão bem, que é muito importante ver que a série deu essa visibilidade à ilha. Até há um trajeto turístico que leva as pessoas aos locais onde filmámos Rabo de Peixe.”
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Para voltarem a agarrar as personagens, sobretudo numa fase mais atribulada das vidas, foi essencial haver uma preparação prolongada. “Houve muitas conversas com o Augusto e encontros. Ele ouviu as nossas questões e chegaram a mudar algumas coisas”, recorda Kelly Bailey.
“Muitas vezes as cenas são contadas de um ponto de vista, aquele que interessa ao espectador, mas as outras personagens têm perspetivas e sensações muito diferentes daquilo que o espectador está a ver. Tivemos de as entender e para isso foi muito importante os encontros em casa do Augusto, em São Miguel, para onde íamos ler os episódios e trabalhá-los. É muito importante estarmos sempre em contacto com quem escreve”, diz André Leitão.
“O Augusto também deu luta às vezes, porque escreveu de determinada maneira por um motivo, mas esteve sempre disponível para fazer alterações”, completa Kelly Bailey.
Em Lisboa encontraram-se várias vezes para almoços e ensaios com a atriz Ana Padrão, que os dirigiu na preparação. “Tivemos improvisações magníficas em grupo, que ajudaram bastante a criar as personagens. Num exercício, tínhamos de imaginar que tínhamos seis anos, estávamos a brincar na rua e tínhamos de recriar esse momento. Improvisamos uma festa”, conta Helena Caldeira, que destaca também os ensaios a solo como a chave para chegar às camadas mais profundas de Sílvia.
“Na linha narrativa desta segunda temporada, foi muito importante ter tempo para escavar essas coisas todas, para amadurecer.”
Mulheres no comando, de lados opostos da barricada
Na segunda temporada, as personagens femininas ganham mais espaço. É o caso de Sílvia que, enquanto tenta lidar com a gravidez e a morte do pai, é quase sugada à força para um lugar de chefia que talvez nunca tenha desejado, mas do qual talvez também não tenha vontade de fugir. Ao mesmo tempo, a inspetora de Maria João Bastos ganha o merecido espaço nos novos episódios para expor a sua tenacidade, mas também as fragilidades e os demónios interiores que fazem com que ultrapasse muitas vezes os limites do que pode ou não fazer no trabalho.
“Ela sente que está sozinha a lutar contra a maré, numa organização de corrupção e de interesses, quer dentro da polícia, quer no setor político. Ela quer prender os criminosos, defender a comunidade, e está nesse caminho sozinha. Tentam que ela não atinja os objetivos, tentam camuflar o que se passa à volta dela”, resume Maria João Bastos ao Observador.
Porém, o fator destabilizador vem mesmo do lado pessoal, onde tudo é caótico e se desmorona. “Ela não gere bem as relações e os sentimentos e isso já estava presente para mim, enquanto background da personagem, na primeira temporada, mas era importante dar esses elementos aos espectadores.”
Revela-se o lado de mãe, que é também o mais frágil, mas que confere humanidade à personagem, que vive obcecada com a resolução do caso de tráfico de droga porque parece ser a única coisa que consegue controlar. Para Maria João Bastos, a inspetora não foi a única a revelar mais camadas esta temporada, o que eleva a história a outro patamar. “Independentemente da história que estão a contar em conjunto, todas estão mais maduras e vêm com uma carga maior.”
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Sem revelar spoilers da terceira temporada, Maria João Bastos tem uma certeza: “Acho que vai ser muito intenso, porque no final desta temporada ela tem um momento de viragem. A partir daqui, nada será igual.”
Atravessando a fronteira da lei, do outro lado está Ofélia, interpretada por Paolla Oliveira, líder de uma rede de narcotráfico. Com uns toques de Griselda — uma narcotraficante colombiana que se destacou no mundo dos cartéis nos anos 90 —, a atriz brasileira diz que esse foi o primeiro nome em que pensou para preparar a personagem, mas forçou-se depois a ignorar isso e foi mais direta.
“Eu vi uma série cheia de ação, enérgica, e tive de pensar como criaria a autoridade da Ofélia nesse cenário. Portanto, escolhi usar um tom diferente do que eles usam. Retirei todas as pressas da personagem e dei-lhe certezas. Ela fala baixo, não se expõe demasiado, sorri — parece quase uma pessoa gentil. Ao mesmo tempo diz: ‘Pode queimar [determinada pessoa]’. Dei-lhe poder de outra forma”, explica.
Num mundo dominado por homens que gritam, praguejam, batem e disparam, ela é de uma calma desconcertante. “Podia quase ser uma inspetora, se fosse noutra vida.”
Noutra vida, se estivessem do mesmo lado, Ofélia e a inspetora que quer apanhá-la uniriam certamente forças. “A Ofélia é traída por um homem e a inspetora é traída por todos os homens à volta dela, que não lhe reconhecem autoridade. Estamos a falar de 2001, uma realidade profundamente machista. É muito bom ver uma série destas a dar-lhes o poder de estarem na frente das respetivas batalhas”, diz Paolla Oliveira.
Uma equipa que já só fala da terceira temporada
A Netflix deu a confirmação, Rabo de Peixe terá uma terceira temporada, e durante as entrevistas que antecipam a segunda temporada, os atores não escondem o entusiasmo relativamente ao futuro da história. Comentam que gostariam que houvesse um visionamento local e confirmam: passaram tanto tempo em São Miguel que são perfeitamente capazes de servir de guias turísticos e gastronómicos. “Vamos para a semana? Se o Observador organizar, temos muita coisa para mostrar”, sugere André Leitão.
Além da relação entre o elenco ser próxima e descontraída — vão almoçar todos juntos quando acabamos de falar —, a ligação à ilha de São Miguel e o carinho pelos micaelenses é inegável para todos.
“As pessoas lá têm aquela sensação de que a série é delas e lhes pertence. Acho que pertence e é muito bonito fazer parte disso”, admite Maria João Bastos.
Depois do sucesso da primeira temporada, José Condessa espera que, além de surpreender com o rumo da história e de ser um cartão de visita dos Açores, Rabo de Peixe tenha outro propósito. “Acho que o facto de, não só termos feito uma série portuguesa na Netflix, mas de termos garantido uma segunda e uma terceira temporadas, pode permitir a muita gente do meio sonhar contar histórias em português. Se assim for, é um motivo de orgulho para nós. Não introduzimos só o ‘foda-se’ na ficção nacional, mas tudo o resto.”