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O voo da Trans World Airlines aterra em Lisboa a 3 de março de 1985, 30 minutos depois das 7h00. A bordo seguem duas figuras bem conhecidas dos bastidores da política norte-americana, Lee Atwater e Paul Manafort, conselheiros políticos do presidente Ronald Reagan. Rui Mateus, fundador do PS, responsável pelas relações internacionais do partido, é quem os recebe no aeroporto. O encontro entre aqueles três homens foi organizado por outro velho amigo e aliado de Soares, Frank Carlucci, o antigo embaixador dos Estados Unidos em Lisboa. Soares tinha-lhe pedido ajuda para a campanha presidencial e Carlucci prometeu-lhe arranjar o melhor que o dinheiro podia comprar. Não faltou com a palavra. Atwater e Manafort são muito bons e custam mesmo muito dinheiro. Reúnem-se durante a tarde na casa de Soares, em Nafarros, perto da Praia das Maçãs. Trazem precisamente aquilo que o socialista pediu a Carlucci: o esboço de uma estratégia que permita a Soares, pelo menos sonhar com a hipótese de vencer as presidenciais. Os americanos reconhecem que é quase impossível elegê-lo, mas não faltam ideias para superar o péssimo ponto de partida. Algumas bem criativas, como envolver Freitas do Amaral e o KGB numa conspiração internacional, obviamente fantasiosa, através de jornais americanos onde Atwater e Manafort têm algumas toupeiras. Quando a reunião termina, Soares está eufórico. Nos próximos meses, o staff do candidato continuará a encontrar-se com Atwater e Manafort e a trabalhar na estratégia de campanha. A dada altura, os americanos vão ser afastados. Soares afirma que eles estão descolados da realidade portuguesa, mas outras pessoas chamam a atenção para uma evidência difícil de ultrapassar. O candidato não tem dinheiro para os pagar. Os americanos vão deixar Lisboa sem ver um único dólar do que lhes foi prometido. A verdade é que pelo menos um dos conselhos de Atwater e Manafort vai ser decisivo para o sucesso da campanha de Mário Soares. Os americanos explicaram ao socialista que a prioridade número um da campanha tinha de ser manter a divisão entre adversários à esquerda. É essencial que tanto Salgado Zenha como Maria de Lourdes Pintasilgo continuem na corrida até ao dia da primeira volta das eleições. Especialmente Pintasilgo, que a dada altura vai ficar numa posição de fragilidade. Para conseguir isso, vale tudo. Arranjar uma intermediária para enviar mensagens discretas, descobrir voluntários para ajudar no que for preciso e até financiar uma parte da campanha. Esta é a eleição mais louca de sempre. Uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Episódio três: ele não é meu irmão.
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Os papéis tinham-se invertido completamente. Meses antes, ainda em julho de 1985, Soares, desesperado com a hipótese de não passar sequer à segunda volta, tinha tentado uma jogada arriscadíssima. Sob a condição de o fazerem no mais absoluto segredo, deu instruções a Jorge Sampaio e a Nuno Brederode Santos para se encontrarem com Nuno Grande, médico, amigo de Soares e mandatário nacional de Maria de Lourdes Pintasilgo. Teriam de convencer a antiga primeira-ministra a desistir em nome da unidade à esquerda e contra o perigo real que representava a candidatura de Freitas. Algo embaraçados, os dois socialistas encontram-se com Nuno Grande no Porto e levam uma primeira proposta. Como gesto de boa vontade, Soares admitia incluir algumas figuras da simpatia de Pintasilgo nas listas de candidatos a deputados do PS nas eleições legislativas de outubro. Só que era óbvio para os três ali presentes que Pintasilgo nunca aceitaria selar aquele acordo com Soares. Por que haveria de o fazer? Afinal, estava confortavelmente à frente do socialista nas sondagens e com boas hipóteses de derrotar Freitas numa segunda volta. Se alguém tivesse de desistir, deveria ser Soares e não ela. Mas a entrada surpreendente e tardia de Salgado Zenha na corrida veio mudar por completo esta relação de forças. Zenha vai roubar muitos votos à antiga primeira-ministra e, com isso, Soares recupera terreno. Pintasilgo cai nas sondagens, vai perdendo força anímica para continuar. A campanha começa a arrastar-se penosamente, sem estruturas e sem dinheiro, entre o desânimo e uma convicção que os jornais descrevem como quixotesca Esperava que o presidente se mantivesse neutro, mas a traição de Ramalho Eanes, ao apoiar abertamente Salgado Zenha, afeta-a. A saúde, que já era frágil, ao ponto de ter sido aconselhada a não ser sequer candidata, ressente-se. A morte do único irmão, José Manuel, abalá-a profundamente. Fica paralisada, como revela aos mais próximos. Os comícios, antes cheios, estão cada vez menos preenchidos. E pior: começa a faltar dinheiro para pagar as contas da campanha. É urgente procurar soluções, mesmo nos sítios mais improváveis. Um elemento da Organização para a Libertação da Palestina garante à campanha de Pintasilgo que é capaz de acertar um encontro com Yasser Arafat, o histórico líder da OLP, e arranjar financiamento. O staff da candidata anima-se com a ideia. Pintasilgo tem boas relações com Arafat. Tinha-o recebido em 1979 em Lisboa, enquanto primeira-ministra, e é uma forte defensora da causa palestiniana. Só que, como revela Rodrigo Sousa e Castro, diretor de campanha, até esse plano vai falhar.
Eu arranjei uma equipa para ir ao quartel-general do Arafat ver quais eram as maneiras de ele financiar uma parte da campanha. Estávamos nós com tudo organizado. Nas vésperas, ainda não tínhamos os bilhetes de avião, felizmente, senão tínhamos tido despesa em vez de ganho. Os israelitas destroem o quartel-general do Arafat e, por sorte, ele não estava lá. O representante palestiniano perdeu o contacto do Arafat. Ele disse-nos: "Isto agora vai ser impossível. Não vou conseguir, nos tempos mais próximos, saber onde é que o Arafat se refugiou, mesmo dentro de Telavive."
Pintasilgo começa a ficar sem saídas. Sente-se obrigada a tomar uma decisão. Vai convocar a equipa e anunciar a desistência. Mas, à última hora, uma intermediária faz-lhe chegar uma mensagem urgente e inesperada. Há alguém que quer ajudá-la a manter-se na corrida presidencial. Esse alguém não é uma pessoa qualquer, é um dos maiores rivais dela. No Palacete de Santa Catarina, sede da campanha de Freitas do Amaral, a máquina não para. A onda de euforia à volta do candidato sente-se nas ruas e os apoiantes até têm um dress code: um sobretudo verde e um chapéu de palha na cabeça. Mas ali continua a fazer-se de tudo para evitar que a ideia de que a eleição já está ganha desmobilize uma única pessoa. Os telefones, às dezenas, tocam todos ao mesmo tempo. Toneladas de papel continuam a ser enviadas para cada recanto do país. O staff reúne-se todos os dias e os tempos de antena são preparados ao pormenor.
Queremos um Portugal que não seja de direita, nem de esquerda, mas para a frente. Para símbolo desse Portugal, símbolo do "para a frente Portugal", só há um candidato: Freitas do Amaral.
A mobilização de Freitas do Amaral ultrapassa as expectativas e as melhores memórias do tempo da AD de Sá Carneiro.
Cedo reparámos que estávamos perante o melhor Freitas do Amaral que alguma vez tínhamos conhecido. Nós sentíamos uma resposta na rua como nunca se tinha vivido. As pessoas que frequentavam a nossa sede em Santa Catarina, o entusiasmo, o encorajamento, era uma coisa formidável.
As imagens transmitidas pela televisão são triunfantes. Na rua, Freitas não encontra praticamente resistência. Até no Alentejo, onde ser de direita é algo impensável, as coisas lhe correm bem, recorda José Ribeiro e Castro, porta-voz da campanha.
Estamos no coração do Alentejo, nunca tínhamos tido uma campanha assim. O Centro de Admiras cheio de gente para o ouvir falar. Isto eram coisas completamente novas, que nós não estávamos experimentados, mas nos davam um grande ânimo, uma grande esperança para o que se seguisse.
Freitas está tão otimista que até admite a hipótese de vencer à primeira volta. Já Mário Soares está a fazer tudo para que isso não aconteça. Soares chegou a dizer publicamente, durante a campanha, que se algum dia Maria de Lourdes Pintasilgo chegasse a presidente da República, não ficaria um castiçal de prata em Portugal. Mas agora, a mulher que tentou convencer a desistir tornou-se uma peça fundamental nas aspirações dele a Belém. Só com ela na corrida é possível enfraquecer Salgado Zenha, dividindo os votos dos eleitores do PRD e do PCP. É preciso agir rapidamente. Em Lisboa, Jorge Sampaio reúne-se uma segunda vez com elementos da candidatura da antiga primeira-ministra. Mas desta vez, não para a convencer a desistir. O objetivo é exatamente o contrário: quer assegurar-se de que ela vai mesmo a votos. Outros conselheiros de Soares fazem o mesmo.
A certa altura, eu estava no Rato e recebo um telefonema do Dr. Canelas. Quem era o Dr. Canelas? Era um médico ali da Figueira, mas que era o motorista da Pintasilgo. E o Dr. Canelas, que era um amigo pessoal meu, telefona-me a dizer: "Eu estou aqui em Santarém com a Maria de Lourdes Pintasilgo e ela convocou uma reunião para desistir da candidatura". Eu disse: "Ó Canelas, você segure aí essa coisa, que eu vou tentar resolver o problema".
António Campos é um dos braços direitos de Soares no PS e o principal operacional da campanha. Confrontado com a iminência do anúncio de Pintasilgo, Campos não perde tempo. Só há uma pessoa que pode salvar a situação. Recorda-se de ter saído disparado do Largo do Rato em direção ao Miradouro da Graça. É lá que fica o Botequim, o icónico bar fundado pela escritora Natália Correia e que era ponto de encontro habitual de figuras das artes, da cultura e da política. Por sorte, quando chega ao Botequim, Natália Correia já lá está. A poetisa geralmente só aparece no bar mais à noite.
Encontrei a Natália Correia e disse: "Ó Natália, você tem que me fazer um favor. Tem que saltar imediatamente a Santarém e dizer à Pintasilgo que o PS faz a campanha dela".
Natália Correia tinha acabado de ser reeleita deputada justamente pelas listas do PRD de Ramalho Eanes, o partido que apoia Zenha e que dispensa que Pintasilgo se mantenha como candidata. Mas Natália tinha decidido apoiar Pintasilgo. A jogada é arriscada, mas vai dar resultado. E no final, António Campos acaba a supervisionar não uma, mas duas campanhas.
Tive que fazer a campanha da Pintasilgo e tive que pedir a muitos socialistas para ajudar a candidatura da Pintasilgo e tive que fazer cartazes, tudo para a Pintasilgo e tive que aguentar a candidatura do Mário Soares.
Tinham sido os americanos a alertar para a necessidade de manter Pintasilgo na campanha. A vitória de Mário Soares, apesar de improvável, ainda era possível. Só que para isso, era obrigatório fazer tudo para que a ex-primeira-ministra não abandonasse a corrida. Mas, até hoje, a história do apoio americano é motivo de controvérsia. Soares manteve sempre a mesma versão. Sim, de facto, ouviu aqueles dois conselheiros de Reagan, mas dispensou-os rapidamente por achar que os contributos, além de caríssimos, eram inúteis. Como a ideia peregrina de enviar propaganda eleitoral por correio, ignorando o óbvio. Qualquer português que se preze, quando abre uma carta e vê que é propaganda, atira de imediato para o caixote do lixo. Mas há testemunhas e documentos que comprovam a participação dos americanos, pelo menos numa fase inicial da candidatura, incluindo um plano de campanha com mais de 67 páginas, entregue a 14 de junho de 1985. Rui Mateus, autor do livro "Contos Proibidos, Memórias Desconhecidas do PS", obra que lhe valeria mais tarde o estatuto de proscrito no partido, chegou a publicar uma carta de Manafort. Nela, o americano queixa-se de que os 200 mil dólares prometidos pela campanha de Soares ainda não tinham sido pagos e acrescenta, num tom ameaçador, que a paciência se está a esgotar. A forma como o staff de Soares ajudou a financiar o último esforço de Pintasilgo é outra das histórias mais controversas das presidenciais de 1986. Soares também nunca o admitiu abertamente. Nas muitas entrevistas que deu sobre a campanha, assumiu apenas que as duas candidaturas conversavam com regularidade. Ao longo dos anos, o apoio da equipe de Soares à antiga primeira-ministra foi sendo confirmado por pessoas que participaram dessas reuniões, como Jorge Sampaio. Na biografia de Pintasilgo, "Uma História para o Futuro", de Luísa Beltrão e Barry Hatton, conta-se que um candidato rival não identificado tinha tentado ajudá-la a não se retirar da campanha por falta de dinheiro. No mesmo livro, Vítor Alves, o homem que Eanes tinha encarregado de convencer Pintasilgo a não ser sequer candidata, garante que houve quem tivesse prometido à antiga primeira-ministra cobrir as despesas da campanha para que ela não tivesse de desistir, mas não revela quem o fez. Em contrapartida, esta versão dos acontecimentos apresentada por António Campos é abertamente contestada por Rodrigo Sousa e Castro, porta-voz de Pintasilgo.
Completamente mentira. Isso foi divulgado por um senhor que é um aldrabão político, eu digo aldrabão com todas as letras, porque ele ainda está vivo. Se estivesse morto, respeitava a memória, que é o António Campos. Sempre foi um grande aldrabão. Ele não teve nenhum papel na campanha da Pintasilgo.
O que ninguém é capaz de negar é que Soares vai ganhar, e muito, com a continuidade de Pintasilgo em jogo. Com a antiga primeira-ministra a dividir o eleitorado e a travar o crescimento de Zenha, Soares está finalmente em condições de se bater de igual para igual com o antigo número dois do PS. E o momento mais importante desse combate vai ser um frente a frente em direto na RTP. Joaquim Letria não quer acreditar. Mas Salgado Zenha terá enlouquecido? É agora, a poucas horas de enfrentar Mário Soares no debate mais decisivo da campanha, que resolve ir ao dentista? O país inteiro vai estar agarrado à televisão. A primeira volta à esquerda pode decidir-se ali, naquele confronto, e Zenha arrisca-se sair para os estúdios da RTP com a boca anestesiada. Tenta convencê-lo a desistir do dentista e a ir ao cinema descontrair para estar em boa forma na hora do debate. Até lhe sugere dois filmes. Mas Zenha, como quase sempre, não está muito disponível para ouvir. Tinha passado mal a noite e decide que a primeira coisa que tem de fazer é ir ao dentista. Quando regressa a casa, bem para lá da 13h, almoça croquetes com arroz de ervilhas, dorme uma sesta e passa o resto do dia na companhia de Joaquim Letria. Mas até mesmo ele, de um controle férreo das emoções, não consegue disfarçar o óbvio. Está apreensivo com o duelo que tem pela frente. Soares não se sente muito melhor do que Zenha. Passou quase todo o dia em casa. Comeu bacalhau, leu alguns documentos e saiu apenas para um passeio de uma hora no Jardim do Campo Grande. À tarde, pede ao gabinete da candidatura algumas notas sobre economia e alguns exemplares da revista Plural, publicação que junta textos e reflexões dos grandes intelectuais da esquerda e que Zenha tinha dirigido em 1982. Mal consegue conter o nervosismo, recorda Isabel Soares, que por vontade do pai, assistiu ao vivo a todos os debates, desde o grande frente a frente com Álvaro Cunhal. A filha era um verdadeiro talismã para Soares.
E acho que o debate que lhe correu pior foi esse, porque era um irmão. Eu acho que ele estava triste, se quer que lhe diga. Estava, sobretudo, triste e apreensivo com o que ia ser. E acho que ele não teve a reação e que teve com qualquer dos outros candidatos.
O estado anímico dos dois agrava-se à medida que as horas passam. Zenha é o primeiro a chegar aos estúdios da RTP, na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa. Vem acompanhado de Letria e de outras seis pessoas, incluindo três guarda-costas. Soares chega 20 minutos depois, apenas com a filha Isabel e Vasco Pulido Valente. O cumprimento entre os dois adversários é tenso, tal como o ambiente que os rodeia. Zenha prefere o silêncio. No gabinete da maquilhagem, encosta-se para trás, cerra os olhos e aperta as mãos contra o braço da cadeira. Parece preocupado. Soares sente o mesmo, mas esforça-se por disfarçar. Olha para a televisão. Repara que estão a transmitir a novela brasileira do momento. Confessa ser fã do "Louco Amor" de Fábio Júnior e Glória Pires. Perguntam-lhe se tem pena de perder o episódio daquela noite. "Nem pensar", responde Soares. Tinha deixado uma cassete a gravar a novela e vai vê-la assim que sair da RTP.
Não quero, não quero que ele vá embora. Eu só quero que ele converse comigo feito gente.
Ai, meu Deus, aí sim, minha filha, se você quiser que ele vá embora, ele vai num instantinho. Diga apenas-
Estão finalmente prontos. Antes de entrarem no estúdio quatro, Miguel Sousa Tavares, o jornalista que vai moderar o debate, convida os candidatos a escolherem as faces da moeda, que vai ditar quem começa e quem termina o debate. "Escolhe tu, Mário", convida Zenha. Soares fica com o lado onde aparece uma caravela, Zenha com o escudo. Será Francisco Salgado Zenha a começar. Soares e Zenha sentam-se um diante do outro. O ar está carregado de tensão. Soares pede que lhe ajeitem a cadeira. Zenha limpa os óculos. Não trocam uma única palavra. Soares veste um fato cinzento escuro com uma gravata às riscas roxas e cinzentas. Zenha tem um fato de três peças, igualmente escuro, e traz uma gravata com pequenos quadrados vermelhos e brancos. Soares debruça-se, ombros caídos e cotovelos pousados sobre a mesa. Zenha está recostado na cadeira, costas direitas, as mãos entrelaçadas sobre o colo.
Boa noite, bem-vindos a este quarto debate entre os principais candidatos à Presidência da República, Mário Soares e Francisco Salgado Zenha. Ambos são suficientemente conhecidos da opinião pública para que não nos atardemos esta noite.
Miguel Sousa Tavares, o moderador, arranca o debate dizendo que os dois dispensam apresentações. Recorda o percurso comum e como ambos ajudaram a construir os alicerces do regime democrático. Mas não deixa de notar como os dois chegam ali em circunstâncias muito diferentes. Soares tem estado na boca de cena nestes últimos 10 anos. Já Zenha tem estado entregue a uma espécie de solidão política, justamente imposta pelo adversário que tem agora pela frente. É Sousa Tavares quem promove o confronto. Pergunta a Zenha o que é que o separa de Soares enquanto candidato presidencial. Salgado Zenha desfere o primeiro golpe. Diz que a candidatura do adversário é irrealista e não tem condições para triunfar.
Fazendo essa campanha anti, ele não tem possibilidades de vencer. E além de tudo mais, seria um mau presidente da República se fosse eleito, pois um presidente da República, em meu entender, deve ser um elo de ligação entre todos os portugueses e uma campanha que é dirigida com o espírito de cruzada antianista e anticomunista, não pode ser um elo de ligação entre os portugueses.
Enquanto ataca, Zenha nunca olha o adversário nos olhos. O jornalista faz a mesma pergunta a Soares. O socialista começa por lembrar que toda a gente sabe que Zenha sempre o acompanhou em muitas lutas e que nem naquele debate poderá esquecer esse fato. Mas é apenas um elogio tático.
E que eu considero que a candidatura dele, não discutirei pessoas, discuto ideias, discuto projetos, que a candidatura dele, se viesse a vingar, seria, de facto, terrível para o país. O que nos separa, fundamentalmente, do doutor Salgado Zenha, é esta simples questão: eu sou da esquerda democrática, mas entendo que a esquerda democrática não deve estar unida com a esquerda totalitária.
Zenha mantém o sorriso que sempre irritou os adversários. Mas o que Soares disse sobre o passado conjunto mexeu com ele.
Isto é um debate que não é um confronto pessoal. O doutor Mário Soares fez referência ao nosso passado. Eu não acompanhei o doutor Mário Soares. Nós acompanhamos um ao outro.
Soares dramatiza. Recorda o verão quente e assegura que o PCP continua a querer tomar de assalto o poder em Portugal. Também não olha Zenha nos olhos. Conhecem-se há uma vida, mas tratam-se por doutor Salgado Zenha e doutor Mário Soares. A tensão não para de aumentar. Se Soares quer falar sobre o passado e sobre a luta contra o PCP, Zenha tem coisas para lhe dizer. Recorda-lhe que estava em Portugal na resistência ao Estado Novo, quando Soares estava resguardado em Paris. Lembra-lhe que depois da revolução, estava no país a lutar contra a unicidade sindical, enquanto Soares estava numa das muitas viagens que fazia ao estrangeiro. E diz-lhe que ele, Zenha, estava em Lisboa quando se deu o 25 de novembro. Já Soares estava no Porto, para onde tinha fugido. Quando retoma a palavra, Soares insiste que Álvaro Cunhal é o patrono da candidatura do adversário e lamenta que Salgado Zenha se tenha esquecido dos tempos em que combateu os comunistas.
As manobras de intoxicação que vêm de vez em quando nos jornais a fingir que o Partido Comunista não vai apoiar o doutor Salgado Zenha, é só para fazer aquilo que sempre fez nesses movimentos unitários, cujo modelo é conhecido em toda a Europa desde os anos 30 até hoje, que o doutor Salgado Zenha sempre conheceu, sempre contrariou, mas que agora mudou de opinião. Eu não mudei, ele é que mudou.
Sousa Tavares interrompe. Quer saber se Salgado Zenha pensa que vai ter o apoio formal do PCP. Zenha repete que não rejeita qualquer voto e diz que não faz ideia se vai ou não contar com o apoio de Cunhal. Está desconfortável e isso nota-se. Mas Soares não se dá como satisfeito. Está finalmente pronto para desferir o gancho que trazia preparado.
Eu acho que a candidatura do doutor Salgado Zenha é, em primeiro lugar, uma candidatura de visão da esquerda, é, em segundo lugar, uma candidatura fratricida, é, em terceiro lugar, uma candidatura inequivocamente frentista, do tipo frentismo popular e, em quarto lugar, uma candidatura imobilista e, ainda por cima, uma candidatura sem projeto político.
Soares está mais solto e agressivo do que o adversário, mas Zenha não deixa de sorrir. Conhece o homem que tem pela frente e conhece-lhe os truques. Diz que Soares fala tanto e de forma tão torrencial que é difícil responder a tudo. Reclina-se na cadeira como se fosse dar uma aula. Insiste que não pode nem vai recusar os votos de ninguém e que está ali para ser o presidente de todos os portugueses, ao contrário de Soares.
Portanto, o meu programa é esse.
Doutor, o senhor tem de se apressar.
Agora, o que eu não compreendo muito bem é como é que o doutor Mário Soares, com este seu fervor antianista e anticomunista, pode ser amanhã o presidente de todos os portugueses. E a sua candidatura é irrealista, não pode ganhar. Não pode ganhar. Será, portanto, a Aliança Democrática que vai votar no doutor Mário Soares? Isso é um absurdo.
Soares reconhece que Zenha não é comunista, mas sugere que o adversário aceitou o apoio de Cunhal por uma questão de ambição pessoal e só depois de ter percebido que ninguém no PS o apoiava verdadeiramente. Zenha aproveita a deixa e fala da ferida aberta no partido. Acusa Soares de ter posto funcionários do PS a fazer propaganda em nome dele. Pergunta o que fará o adversário se chegar ao poder. Chega a dar como exemplo o romance "1984", de George Orwell. Fala na PIDE e na ditadura. Diz que se instalou um ambiente de intimidação dentro do partido e denuncia a existência de um centralismo antidemocrático. É nesse momento que Miguel Sousa Tavares interrompe para voltar um pouco atrás e perguntar a Zenha como responde à acusação de Soares sobre o facto de a candidatura dele ser fratricida.
Eu gostaria que o doutor Mário Soares explicasse o que ele entende por fratricídio. Se porventura, se entende que ele é meu irmão, ele não é meu irmão Não é, nunca foi, nem nunca será. De maneira que esse ponto fica já resolvido. Eu tenho os meus irmãos, tenho a minha família e nunca troquei a minha família pelo Dr. Mário Soares, conforme é evidente, como ele tem a família dele.
É o golpe mais violento da noite. Soares mal reage. Esboça apenas um sorriso triste. Anos mais tarde, na biografia assinada pelo jornalista Joaquim Vieira, dirá que sentiu aquela frase como um murro no estômago, que nunca esperou receber. E Zanha nem sequer tinha pestanejado. Quando nessa noite abandonam os estúdios da RTP, Soares sente-se profundamente abalado. Sabe, porque Zanha fez questão de o demonstrar uma e outra vez, que perdeu o amigo de uma vida. Pensa que foi derrotado no debate e o mais certo é que também tenha acabado de perder a hipótese de passar à segunda volta. Recorda António Barreto, conselheiro de Mário Soares.
O debate com o Zanha deixou o Soares em rastos. Porque é uma mistura de pessoal, amigo, camarada, risco. Será que eu perco? É tudo junto. E o Soares não estava à espera de sair tão abaixo daquela maneira. Eu lembro-me do primeiro encontro que eu tenho com o Soares a seguir a esse debate, e ele estava abaguado. Não digo nem que achava que perdia, mas ele achava que as coisas tinham corrido muito mal e que havia alguma coisa que não estava certa e que ele tinha errado.
Alfredo Barroso, sobrinho e conselheiro de Soares.
A convicção com que nós ficamos e nos fomos deitar, foi de que o Mário Soares tinha perdido o debate. Ainda não sabíamos, ou ainda não percebíamos, que a agressividade não era uma vantagem, era um inconveniente.
Se a agressividade verbal não é uma vantagem, a violência física muito menos. Dentro de 12 dias, numa ação de campanha, Mário Soares vai ser cercado, esmurrado e atacado com um pau. E é nesse momento que tudo vai começar a mudar. Mas essa é uma história pro próximo episódio. No próximo episódio.
Espancaram gente da minha comitiva. Eu próprio fui agredido.
Vejam lá, nós estamos aqui há tempos a tentar encontrar um slogan pro Mário Soares. E há um que diz: "É fácil, o Soares é fixe".
Nós dentro dos carros e as pessoas a baterem nos carros, dentro dos carros, obviamente. Eu pensei: "Nós vamos morrer aqui todos. Esta gente está louca".
Toda a gente achava que ele ia ganhar. Perguntei: "E se perder?"
"A Eleição Mais Louca de Sempre" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, e tem banda sonora original de Samuel Úria. O guião e as entrevistas são de Miguel Santos Carrapatoso. A sonoplastia e desenho de som são de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da RTP. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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