Já tínhamos filmes sobre as “origin stories” dos super-heróis da Marvel e da DC. Em Springsteen: Deliver Me From Nowhere, inspirado pelo livro do mesmo título de Warren Zane, publicado em 2023, Scott Cooper conta-nos a “origin story” do sexto álbum de Bruce Springsteen, Nebraska (1982), com todos os efes e erres técnico-musicais, bem ensopada em molho de crispação criativa e desatino pessoal, e com uma fina cobertura de psicanálise pronta-a-servir. Quem gosta de filmes biográficos sobre artistas muito angustiados e é incondicional do autor de Born in the USA, vai chamar um figo a Springsteen: Deliver Me From Nowhere. Os outros, nem tanto.
A fita abre em 1980. Bruce Springsteen (Jeremy Allen White, de The Bear), acabou de dar o último concerto da digressão associada ao seu quinto disco, The River. Deliciados com o sucesso de ambos, os diretores da sua editora, a Columbia, querem mais um álbum, de novo comercialmente vencedor, o mais depressa possível, e de que possam tirar mais singles para trepar no Top Ten e originar mais concertos. Mas Springsteen não está com pressa de o fazer, bem pelo contrário, e o seu grande amigo e manager, Jon Landau (Jeremy Strong), vai tratar de moderar o entusiasmo e a sofreguidão daqueles.
[Veja o “trailer” de “Springsteen: Deliver Me From Nowhere”:]
O músico também não quer que o próximo álbum seja como os cinco anteriores, e começa a germinar dentro dele algo totalmente diferente, influenciado por coisas tão diversas como os contos da escritora Flannery O’Connor, e Noivos Sangrentos, o primeiro filme de Terrence Malick. E também memórias pessoais reprimidas mas que nunca o abandonam e o assombram: uma infância pouco feliz devido à sua relação com o pai (Stephen Graham), um homem lacónico que bebia de mais, era ríspido com a mulher e raramente tinha uma demonstração de carinho para com o filho.
Scott Cooper mostra como este doloroso passado familiar de Bruce Springsteen condicionou, alimentou e moldou em grande parte o gesto formal e o discurso musical e poético de Nebraska, um álbum totalmente acústico, gravado em condições quase artesanais no quarto de uma casa isolada e alugada pelo músico em Colts Neck, na sua Nova Jérsia natal. Foi um longo, difícil, exigente e meticulosíssimo parto artístico e técnico, até à sua edição, em Setembro de 1982. Só com dois singles para a Europa e o Japão, sem entrevistas aos media nem a respetiva digressão, como era esperado na Columbia. E sem Springsteen na austera capa a preto e branco.
[Veja uma entrevista com o realizador Scott Cooper:]
O busílis está em que Cooper, que também escreveu o argumento, filma a génese, a criação e a produção de Nebraska lançando mão dos mais batidos e barbudos lugares-comuns do género, e usando todos os clichés narrativos e visuais, e a estenografia estilística da auto-alienação, do desconcerto íntimo, da vulnerabilidade emocional e da incapacidade de sintonia com o próximo. Ver o uso e abuso dos flashbacks a preto e branco e câmara lenta, os planos insistentes de um Springsteen solitário, contemplativo e macambúzio, o cerrado clima de auto-comiseração, o “teto baixo” anímico e o tom choramingas constantemente em fundo que dominam Springsteen: Deliver Me From Nowhere.
[Veja uma entrevista com Jeremy Allen White:]
Scott Cooper pensa que é emocionalmente significativo e psicologicamente profundo, quando não passa de raso e de trivial. O sofrimento íntimo impronunciável, o desconcerto existencial e a sua catarse artística são trocados por miúdos. Cooper nem sequer confia na capacidade das imagens, no poder sugestivo do cinema, para levar a mensagem ao espectador, já que as personagens têm que explicar o que se está a passar com Bruce Springsteen. Assim, vemos Jon Landau a elucidar a mulher que Nebraska é um disco com o qual o músico está a “romper com o mundo que conhece” e a partir para um outro, novo e diferente, e que se sente culpado; ou Faye (Odessa Young), a namorada de Springsteen, a dizer-lhe que tem de “parar de fugir daquilo que tem medo”, no caso, uma vida – sentimental e não só – estável.
Honra lhe seja feita, Jeremy Allen White canta todas as canções e toca harmónica, em vez de recorrer ao playback, mas a sua interpretação de Bruce Springsteen é vácua de expressão e à flor da pele, só pose, maneirismos e costas tão permanentemente curvadas que nos dá vontade de gritar para a tela: “Endireita-te, pá!”. Este Springsteen é o chef de The Bear sem o avental e menos falador. E Springsteen: Deliver Me From Nowhere é banal, estereotipado e arrastado. Há quem diga que o filme “quebrou o molde” tradicional do “biopic”. Mas está é bem acomodadinho nele.