O realizador António Ferreira afirmou, em entrevista à Lusa, que os ex-combatentes portugueses na Guerra Colonial “foram condenados ao silêncio” sobre traumas pessoais e que lhes faltou ajuda para desmontar ideias de racismo e preconceito.
António Ferreira estreia esta quinta-feira no Brasil e antestreia em Lisboa, no Tribeca Lisboa Festival, o filme A memória do cheiro das coisas, cuja narrativa ficcional fala de racismo, envelhecimento e traumas de guerra.
A história centra-se em Arménio que, à beira de completar 80 anos, passa a viver num lar, contrariado por ser tratado como os outros utentes idosos e incapaz de aceitar apoio de uma auxiliar portuguesa negra.
É em Hermínia, a mulher negra, que Arménio descarrega o preconceito e o racismo, ao mesmo tempo que revive, em pesadelos, o tempo em que combateu na Guerra Colonial em África.
À Lusa, António Ferreira contou que quis fazer um filme sobre o envelhecimento, esse momento irreversível do fim da vida e ao mesmo tempo falar sobre o que ainda subsiste na sociedade portuguesa décadas depois do fim da guerra nos territórios colonizados.
Os militares portugueses “tiveram uma lavagem cerebral para ver o negro como inimigo. Quando a guerra acaba, o país tem uma revolução e ninguém explicou nada a estes homens o que foi aquilo que lhes foi metido na cabeça, nunca ninguém desmontou essas ideias e esses preconceitos que perduram ao longo de décadas”, lamentou António Ferreira.
O realizador, nascido em 1970, fez pesquisa junto de ex-combatentes, de psicólogos e inspirou-se na sua experiência pessoal, enquanto filho de um homem que ficou com marcas de guerra.
“Foram condenados ao silêncio, nunca conversaram sobre isso e tiveram que se desembrulhar sozinho com os seus traumas. Observava esse comportamento do meu pai. Lembro-me do meu pai a atirar-se para o chão a ouvir foguetes no fim de ano, com 60 e tal anos. Quando começou a guerra no Iraque o meu pai começou a fazer stock de comida em casa”, partilhou o realizador.
Para António Ferreira, este tipo de experiências traumáticas “explica em boa parte o racismo estrutural que muita gente se recusa a admitir que existe em Portugal”: “Continuamos com a ideia do lusotropicalismo, do bom colonizador que fomos, mas não há bons colonizadores, a colonização sempre foi violência”.
A memória do cheiro das coisas é protagonizado por José Martins no papel de Arménio, que tenta pacificar-se com o passado e com o envelhecimento enquanto se confronta com Hermínia, papel interpretado por Mina Andala.
“Tentei fazer um filme sem qualquer moralismo. Não quero dar respostas nenhumas, tento mostrar com a maior honestidade possível a vivência num lar”, disse António Ferreira.
A memória do cheiro das coisas valeu a José Martins o prémio de melhor ator no Festival de Cinema de Xangai, na China, e a António Ferreira o de melhor argumento, coescrito com Tiago Cravidão, no festival de cinema de Tânger, em Marrocos.
Coproduzido por Portugal e Brasil, A memória do cheiro das coisas chega aos cinemas portugueses a 6 de novembro e é quinta longa-metragem de António Ferreira, juntando-se a A Bela América (2023), Pedro e Inês (2018), Embargo (2010) e Esquece tudo o que te disse (2002).
A segunda edição do Tribeca Festival Lisboa começa esta quinta-feira em vários espaços da zona lisboeta do Beato, com algumas sessões de cinema já esgotadas e muitas conversas com figuras internacionais e portuguesas da indústria do entretenimento, entre as quais Meg Ryan Kim Cattrall, Giancarlo Esposito, Daniela Ruah e Ricardo Araújo Pereira.