A águia voou até ao berço de Portugal na tentativa de ter uma noite descansada, mantendo-se alheia a eventuais baboseiras. Foram estas as expressões que Rui Costa, na qualidade de recandidato à presidência do Benfica, utilizou na véspera de mais um escaldante V. Guimarães-Benfica. Apesar de se referir às eleições do clube, a frase do presidente podia transportar-se para dentro das qualidades e servir como uma espécie de mote para José Mourinho, que tinha pela frente mais uma difícil deslocação no pouco tempo que leva no comando técnico dos encarnados. De um lado estava um grande que tem estado adormecido nas últimas temporadas e procura reconquistar o título de Campeão Nacional. Do outro um clube que cresceu quase como ninguém nos últimos anos e procura afirmar-se nesta época.

Há sempre a voz do capitão para Mourinho não ficar tão rouco (a crónica do Benfica-Tondela)

O Benfica chegou a Guimarães com 21 pontos amealhados nas nove primeiras jornadas, o que se traduzia no terceiro lugar do Campeonato Nacional, e depois de ter conseguido, a meio da semana, o apuramento para a final four da Taça da Liga, ao golear o Tondela no Estádio da Luz (3-0). Nos últimos jogos, as águias conseguiram encontrar o caminho do golo e somaram um nível ofensivo pouco visto nos últimos tempos nas equipas de Mourinho, pelo que a visita o V. Guimarães servia para consolidar o ânimo e a moral alcançado pelos jogadores nas últimas semanas. O histórico de confrontos entre conquistadores e lisboetas jogava claramente a favor do Benfica, que só tinha perdido quatro jogos, registando 26 vitórias nos últimos 37 jogos. Ainda assim, as águias tinham somado três empates nas últimas quatro visitas ao Estádio D. Afonso Henriques.

“O V. Guimarães é o V. Guimarães. Jogar em Guimarães é jogar em Guimarães, estejam ou não num pior momento. É sempre difícil. Estamos num período do Campeonato em que as classificações não refletem o valor das equipas. Têm bons jogadores e um dos apoios mais importantes do nosso Campeonato. Não jogaram na Taça da Liga, tiveram a semana toda para preparar o jogo, mas temos de estar preparados. A fadiga é real, mas Benfica é Benfica. Joga para ganhar todos os jogos do Campeonato. Temos de ir cientes das dificuldades que vamos encontrar. Eleições? Vou-me focar no V. Guimarães, no Bayer Leverkusen e no Casa Pia. Ser sócio? Estou lá a votar. Gostava de ganhar o 39 e o 40, até porque gostava de ganhar o nono e o décimo [Campeonatos na sua carreira]. Se o 40 viesse ao mesmo tempo que o décimo, era perfeito”, assumiu Mourinho na antevisão.

Ficha de jogo

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V. Guimarães-Benfica, 0-3

10.ª jornada da Primeira Liga 2025/26

Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

V. Guimarães: Juan Castillo; Miguel Maga (Miguel Nóbrega, 61’), Óscar Rivas, Rodrigo Abascal, João Mendes; Beni Mukendi, Diogo Sousa (Matija Mitrovic, 61’); Telmo Arcanjo (Vando Félix, 61’), Samu Silva (Nélson Oliveira, 73’), Fabio Blanco; Oumar Camara (Noah Saviolo, 79’)

Suplentes não utilizados: Charles Silva; Orest Lebedenko, Gonçalo Nogueira e Miguel Nogueira

Treinador: Luís Pinto

Benfica: Anatoliy Trubin; Fredrik Aursnes, Tomás Araújo, Nico Otamendi, Samuel Dahl; Enzo Barrenechea, Richard Ríos (João Veloso, 90’); Dodi Lukebakio (João Rego, 82’), Giorgi Sudakov (Leandro Barreiro, 46’), Gianluca Prestianni (Andreas Schjelderup, 46’); Vangelis Pavlidis (Henrique Araújo, 90’)

Suplentes não utilizados: Samu Soares; Rafa Obrador, António Silva e Franjo Ivanovic

Treinador: José Mourinho

Golos: Tomás Araújo (53’), Dahl (62’) e João Rego (87’)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pavlidis (43’), Sudakov (45+1’), Maga (45+2’), Prestianni (45+2’), Beni (52’), Vando Félix (89’) e Otamendi (90’), vermelho a Fabio Blanco (56’)

Pela frente os encarnados tinham uma turma vimaranense que ocupava o oitavo lugar, com 11 pontos somados, e que passou por uma grande revolução no plantel na última janela de transferências. Apesar de estar longe do nível apresentado noutras temporadas, o V. Guimarães ainda não tinha perdido em casa, tendo somado duas das suas três vitórias no seu estádio. “Queremos continuar a crescer para conseguirmos sermos capazes ao longo de todos os jogos que disputamos. Encaramos o jogo com o Benfica com respeito. É mais uma oportunidade para nos testarmos. Respeitamos muito o nosso símbolo e o adversário. Queremos estar mais fortes no final desta semana do que estávamos na semana anterior. Caímos, mas levantámo-nos mais à frente do que estávamos. A eficácia está relacionada com o gesto técnico, a finalização e o último passe. Isso tem a ver com a forma de estar em todos os exercícios de treino. Não acredito que algum jogador queira fazer algo mal no dia de jogo, por isso no dia a dia temos de fazer as coisas de forma eficaz”, explicou Luís Pinto.

Por entre as dúvidas, José Mourinho acabou por repetir o onze da última jornada, com Tomás Araújo no centro da defesa, ao lado de Nico Otamendi, e Gianluca Prestianni no lado esquerdo do ataque, com Giorgi Sudakov a voltar a surgir mais por dentro. No V. Guimarães, Luís Pinto operou três alterações na sua equipa, lançando João Mendes no lado esquerdo da defesa, por troca com Orest Lebedenko. No ataque, Telmo Arcanjo regressou ao lado direito, de onde saiu Noah Saviolo, ao passo que a referência ofensiva foi Oumar Camara, em detrimento de Alioune Ndoye.

O jogo começou bastante animado, de parada e resposta, com o Benfica a tentar construir desde trás, para atrair a pressão alta do V. Guimarães, na tentativa de lançar em velocidade Dodi Lukebakio. A partida continuou bastante rica em termos táticas, com Mourinho a apostar em Enzo Barrenechea como o principal manobrador do jogo da sua equipa, embora Richard Ríos e Giorgi Sudakov tenham sentido dificuldades no jogo entrelinhas. Perante a circulação lenta do adversário, os conquistadores foram conseguindo conter as incursões lisboetas, dividindo o encontro. Na segunda metade do primeiro tempo, o V. Guimarães somou os primeiros remates enquadrados, com Arcanjo (28′) e Fabio Blanco (30′) a atirarem de longe para as mãos de Anatoliy Trubin. Na resposta, Prestianni rematou da mesma zona, também para as mãos de Juan Castillo (33′). Logo a seguir, Samuel Dahl subiu pela esquerda e cruzou atrasado, mas o remate de Giorgi Sudakov saiu à malha lateral (34′).

O conjunto vermelho e branco continuou a explorar o espaço no corredor esquerdo e, dessa forma, Prestianni ganhou espaço à entrada da área, mas o seu remate também saiu para fora (37′). Até ao intervalo, o jogo acabou por animar, mas por razões alheias ao futebol praticamente em campo, já que, depois de uma entrada dura de Sudakov sobre Samu Silva, a meio-campo, Prestianni e Miguel Maga desentenderam-se, originando uma série de empurrões entre os jogadores das duas equipas, com pedidos de vermelho oriundos do banco vitoriano. O desafio retomou com o amarelo para o argentino e o português, terminando pouco depois, sem qualquer clara oportunidade de golo (0-0).

Ao intervalo, Sudakov e Prestianni ficaram no balneário, com José Mourinho a lançar Leandro Barreiro e Andreas Schjelderup. O puxão de orelhas do Special One teve resultado imediato, com Dodi Lukebakio a cruzar da direita para um cabeceamento forte de Barreiro, para grande defesa de Juan Castillo, com Vangelis Pavlidis a atirar ao lado com a baliza à sua mercê (48′). No lance seguinte, o belga cruzou para o segundo poste, onde Richard Ríos cabeceou levemente, com a bola a sair a rasar o poste mais distante (50′). O fulgor ofensivo continuou e, de livre, Lukebakio obrigou o guarda-redes a mais uma intervenção difícil (53′). No canto, o extremo colocou a bola na zona do primeiro poste, onde Tomás Araújo, completamente sozinho, cabeceou para o golo inaugural (53′). Logo a seguir ao tento, Fabio Blanco teve uma entrada muito dura, de sola, sobre Barreiro e acabou expulso, complicando a missão vimaranense (56′).

Luís Pinto respondeu com as entradas de Matija Mitrovic, Miguel Nóbrega e Vando Félix para os lugares de Diogo Sousa, Miguel Maga e Telmo Arcanjo, mas a alteração tática pouco surtiu efeito, já que, no minuto seguinte, o Benfica empolgou-se pela direita, Fredrik Aursnes cruzou atrasado para o coração da área, Leandro Barreiro chegou atrasado e, depois de receber, Samuel Dahl desferiu um remate forte para o seu primeiro golo de águia ao peito (62′). O V. Guimarães acabou por crescer ligeiramente, mas foram os encarnados que se voltaram a aproximar do golo, com Schjelderup a cruzar para o segundo poste, onde Leandro Barreiro, à queima-roupa, cabeceou de cima para baixo para defesa apertada do guardião colombiano (72′). Já com Nélson Oliveira e Noah Saviolo no ataque do V. Guimarães o jogo acalmou, com as duas equipas a gerirem o resultado, com Mourinho a aproveitar para colocar João Rego no lugar de Lukebakio.

O Benfica voltou a criar perigo de longe, com Enzo Barrenechea a desferir um remate colocado, ao ângulo mais distante, desde a entrada da área, mas Juan Castillo voltou a mostrar-se com uma grande defesa (84′). Pouco depois, o norueguês desenhou uma jogada idêntica, com o argentino a rematar de primeira para defesa incompleta do colombiano e, na recarga, Rego encostou para o terceiro golo (87′). Nos últimos minutos, João Veloso e Henrique Araújo ainda saíram do banco e Nico Otamendi “forçou” o quinto amarelo, ao retardar a cobrança de um livre. Desta forma, o Benfica somou a terceira goleada consecutiva, passando num terreno difícil (0-3).