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A estreia de Vivienne Westwood e Stella McCartney em Riade e a aposta da Arábia Saudita na moda para mudar a imagem e atrair milionários

Este artigo tem mais de 6 meses

Na Fashion Week as designers britânicas apresentaram coleções pensadas para a mulher saudita. A moda é parte da estratégia do país para se reposicionar como um destino de luxo.

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Animal print, fatos oversized, coordenados em seda, vestidos longos com lantejoulas. Stella McCartney estreou-se nas passerelles da Arábia Saudita na última semana, quando fechou a terceira edição da Riyadh Fashion Week. Com uma abordagem sustentável e com produção 100% animal cruelty-free, privilegiou peças que cobrem o corpo, sem abrir mão da ousadia, presente nos padrões e brilhos. Dias antes, Vivienne Westwood abriu os trabalhos da Semana da Moda de Riade, com o primeiro desfile da marca no Médio Oriente. Em colaboração com a saudita Art of Heritage, especializada em peças de roupa tradicional árabe, como thobes e abayas, lenços e artigos para casa artesanais, apresentou uma coleção cápsula criada para o evento, com bordados feitos à mão por artesãs locais que usaram técnicas tradicionais. A seleção também incluiu alfaiataria clássica com um twist de padrões e texturas e vestidos de alta costura com silhuetas exuberantes, bordados e motivos étnicos. Peças escolhidas ou adaptadas especialmente para um mercado de luxo cada vez mais forte, que tem as suas particularidades.

O país tem investido cada vez mais na moda como forma de atrair atenções dos milionários internacionais e distanciar-se das polémicas relacionadas com as privações de direitos das mulheres. A Arábia Saudita é o 132º país no ranking do World Economic Forum’s Global Gender Index, composto por 148 países, apesar de, segundo o relatório, ser uma das cinco economias que avançou mais rapidamente rumo à paridade, ao lado do Bangladesh, Equador, Etiópia e México.

Para além das duas designers britânicas, a fashion week teve outros 28 desfiles, com 16 designers sauditas: nomes como Tima Abid, especialista em alta costura, Adnan Akbar, que se diz “o primeiro designer saudita”, especializado em noivas, a marca de “luxo ético” Abadia e o Atelier Hekayat, das irmãs Alia e Abeer Oraif, que já vestiram Georgina Rodriguez ou a modelo dinamarquesa Helena Christensen. Criadores que representam a exuberância do design saudita, que cruza o estilo resort com materiais premium e técnicas de artesanato e alta costura, e que vendem roupas que podem custar entre os 500 e os dois mil euros, ou até mais, a depender da peça, valores não muito diferentes dos praticados pelas maisons europeias.

▲ Alia e Abeer Oraif, os nomes por trás do Atelier Hekayat

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Para Burak Çakmak, CEO da Saudi Fashion Commission, coleções como as apresentadas por Vivienne Westwood e Stella McCartney “demonstram que a Arábia Saudita já não está apenas a participar na conversa global sobre o luxo, mas está agora a ajudar a moldá-la através de colaborações baseadas na criatividade, na sustentabilidade e em valores partilhados”, explica, em declarações ao Observador. Já sobre o desafio de criar peças num contexto que tem códigos rigorosos no que ao vestuário feminino diz respeito, Çamak considera que “o património não é visto como uma limitação, mas como uma fonte de inspiração. Esta nova geração de designers compreende como honrar as suas raízes enquanto dialoga com um público a nível global.”

O evento corrobora a imagem que o país tem tentado promover internacionalmente, em que se apresenta também como um destino de turismo e compras de luxo. O relatório Saudi State of Fashion 2024, da Saudi Arabia Fashion Commission, descreve o setor da moda como imprescindível para a estratégia sócio-económica do país até 2030, destacando que esta indústria contribui com 2,5% do PIB saudita e em 2023 criou mais de 320 mil empregos. “Um fator essencial para o sucesso é o forte foco na igualdade de género, com as mulheres a representarem mais de 52% da força de trabalho”, diz o documento.

Outro eixo desta estratégia passa por fortalecer o mercado de luxo interno. O relatório estima que na Arábia Saudita vivam cerca de 130 mil milionários — enquanto no Dubai são aproximadamente 72 mil pessoas com património superior a um milhão de dólares. Entretanto, mais de 60% dos gastos dos sauditas em bens de luxo são feitos em cidades como Londres, Paris ou Dubai. O objetivo é manter as transações dentro do país: até 2030 a comissão acredita ser capaz de aumentar em 800 milhões de dólares a receita em compras de luxo. Marcas como Chanel, Gucci, Louis Vuitton, Versace, Dior e Hermès já estão presentes na Arábia Saudita — mas parece que há espaço para ampliar a oferta.

▲ O desfile da Abadia, marca saudita que tem uma forte componente étnica

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Mas a estratégia vai além e passa por outros setores, como o do turismo. No Mónaco Yacht Show 2025 no final de setembro, o país apresentou três clubes náuticos destinados a super iates de luxo, por exemplo. Semanas antes, Cristiano Ronaldo foi anunciado como o protagonista de uma campanha internacional do Turismo da Arábia Saudita, sob o mote “Vim pelo Futebol, Fiquei para Descobrir Mais”. O objetivo com a campanha, que prevê um investimento de 800 milhões de dólares, é dar visibilidade aos eventos no país que vão para além do desporto, incluindo cultura, cinema, entretenimento e, lá está, a moda.

A moda que se quer “modesta”, mas de luxo

Recentemente uma comitiva saudita da Saudi Fashion Association esteve no Porto para o Portugal Fashion, onde dois designers sauditas apresentaram coleções: Daneh e Awaken. “Temos grandes objetivos em promover estes designers e facilitar os seus trabalhos em termos de direitos, representação junto a entidades governamentais e instituições internacionais. É para lhe dar as oportunidades que precisam para que o trabalho seja mais fácil”, disse ao Observador, na altura, Lolwah Alshaqha, a CEO da associação. Ao mesmo tempo, Portugal pretende enviar designers para o país árabe, através do acordo de cooperação com a ANJE, apesar de ainda não ter sido definida uma data ou ocasião. Marcas como a portuguesa Pé de Chumbo, por exemplo, já comercializam peças para a Arábia Saudita. Já o CEO da Saudi Fashion Commission, instituição organizadora da Semana da Moda em Riade, convida mesmo as marcas portuguesas a “candidatarem-se” a uma participação no evento. “A experiência de Portugal no desenvolvimento têxtil, no artesanato e na produção responsável está fortemente alinhada com as nossas prioridades na Comissão de Moda, especialmente no avanço de materiais sustentáveis, inovação de produto e design circular.”

Entretanto, para este intercâmbio de marcas e designers acontecer é preciso levar em consideração as particularidades culturais do Médio Oriente. “Temos diferenças no vestuário entre homens e mulheres. Se um dia for a Riade vai ver mulheres e homens a vestirem-se de forma modesta. A visão genérica é: homens com uma roupa longa branca, por causa do calor, e com um véu na cabeça vermelho que é usado formalmente. Para nós, mulheres, temos a abaya, que é parecida com um kimono em termos de comprimento e largura, e é muito confortável. Também costuma ser leve por causa do calor, e depois temos o véu na cabeça. O uso é opcional, mas esta é a moda saudita, além de ser confortável e combinar com o nosso clima. E então é possível encontrar muitos estilos e cores para este kimono. É interessante, há um grande mercado focado nestas peças — mas é claro que o uso é opcional, contanto que se mantenha o estilo modesto. É uma questão cultural”, explica Alshaqha, que diz que em momentos sociais, com a família ou amigos, “cada um pode representar o próprio estilo da maneira que quiser”.

Numa entrevista em 2018 para o programa 60 Minutes, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman Al Saud destacou que as peças tradicionais — composta pela abaya e o véu que cobre os cabelos — não são obrigatórias. O líder destacou que homens e mulheres devem vestir-se de forma “decente e respeitável”, de acordo com as normas religiosas, mas que quem escolhe as roupas que usa são as próprias mulheres sauditas. A lei de decência de 2019 requer vestes “modestas” para ambos os sexos, especificando peças mais “soltas” que cubram cotovelos e calcanhares. Contudo, a Arábia Saudita ainda enfrenta o escrutínio público, visto que direitos consolidados das mulheres no ocidente só recentemente foram conquistados no país — e ainda há relatos de repressão. Em 2018 as mulheres foram autorizadas a conduzir, um ano depois mulheres acima dos 21 anos passaram a poder tirar um passaporte e viajar sozinhas e desde 2021 podem ir a Meca sem a companhia de um homem, desde que viajem com um grupo de outras mulheres. Em contrapartida, este ano uma investigação do The Guardian encontrou relatos de mulheres presas em lares de acolhimento, sob condições de tortura, por “crimes” como a desobediência ao marido.

As fotografias de streetstyle da Riyadh Fashion Week parecem confirmar. Na plateia veem-se homens e mulheres bem vestidos, com diferentes abordagens — alguns mais clássicos, com coordenados de fato e calças, outros mais ousados, com casacos bomber bordados ou vestidos pretos de pele. Algumas mulheres usam véu, mas nem todas. O que é comum a praticamente todos os looks são as peças com mangas longas e que cobrem as pernas, a ausência de decotes ou pele à mostra. O que parece um cuidado também das designers estrangeiras, que levaram à passerelle peças que respeitam a forma “modesta” dos sauditas vestirem — sendo que modéstia aqui pode não ter o mesmo significado que no ocidente.

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