Oficialmente, os Dar al-Reaya são “lares de acolhimento”, mas para quem está próximo do assunto, é óbvio que se trata de algo muito pior do que isso: são prisões. Na década de 60, a Arábia Saudita instalou estes “lares” pelo país com o objetivo “acolher” raparigas e mulheres acusadas de diferentes “crimes” para serem “reabilitadas”, com a ajuda de psiquiatras, para “poderem regressar às suas famílias”. O cenário verdadeiro, de acordo com uma investigação do The Guardian, não podia ser mais díspar da realidade que as autoridades sauditas tentam transmitir.

São caracterizadas como sendo”infernais” e são os locais onde centenas de mulheres são alvo de castigos semanais e ensinamentos religiosos forçados. Os “crimes” que justificam o internamento num Dar al-Reaya passam pela desobediência ao marido ou pai, relações extraconjugais, ou simplesmente por estarem ausentes da vida doméstica. Para escapar destas instalações, precisam da autorização de um familiar masculino — mesmo que estes tenham sido os responsáveis pelo seu aprisionamento.

“Lá dentro tratam-se por números: ‘Número 35, chega aqui’. Quando uma das raparigas partilha o nome de família, é chicoteada. Se não rezar, é chicoteada. Se é encontrada a sós com outra mulher é acusada de ser lésbica, e chicoteada. Os guardas juntam-se todos para ver as mulheres a serem chicoteadas”, conta a ativista Sarah Al-Yahia ao jornal britânico, relatando inúmeros testemunhos de outras vítimas destas condições.

O tema subiu recentemente na hierarquia mediática quando uma mulher, de identidade desconhecida, foi fotografada na janela do segundo andar de um Dar al-Reaya. As condições são descritas como sendo “tão más” que existem vários casos de tentativas de suicídio, uma vez que a permanência nestes “lares” não tem um prazo definido. Várias chegam a ficar anos isoladas da sociedade, confinadas a este espaço, sem acesso a informação do mundo exterior.

Para Al-Yahia, a experiência é mais pessoal: “O meu pai ameaçava enviar me para um Dar al-Reaya se eu não obedecesse ao seu abuso sexual”. Sarah tinha apenas 13 anos quando recebeu o primeiro ultimato, e a sua experiência não é um caso isolado, existindo várias mulheres que são forçadas a escolher entre o “internamento” numa destas prisões ou continuar a viver numa casa onde são abusadas pela própria família. Na Arábia Saudita, é crime dar abrigo a uma mulher acusada de “absentismo” (estar fora de casa sem autorização do guardião legal).

“Se fores abusada sexualmente ou se engravidares por causa do teu irmão ou pai, és tu que és enviada para o Dar al-Reaya para proteger a reputação da família”, continua Sarah Al-Yahia. Para Amina (nome fictício utilizado pelo The Guardian), a escolha foi entrar no “lar” para se refugiar das agressões constantes que sofria pelas mãos do seu pai. Ficou confinada num edifício “velho, em ruínas e inquietante” rodeada de funcionários “frios e inúteis” que relativizavam a sua experiência: “Agradece a Deus que a tua situação não é tão má como a de outras, que estão acorrentadas em casa”.

Alguns homens sauditas acreditam que as mulheres merecem estar no Dar al-Reaya, e que devem agradecer ao governo pelas instalações que disponibilizam para as protegerem dos perigos das próprias casas. No caso de Amina, quando regressou a casa depois de o pai a ter ido “resgatar”, a violência continuou. Tal como outras, “prisioneiras na própria casa”, Amina teve de escolher o exílio.

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O mesmo aconteceu à ativista Fawzia al-Otaibi, em 2022. “Ninguém tem coragem para falar sobre estes sítios. Ninguém faz perguntas sobre a experiência [no Dar al-Reaya]. Fazem com que as vítimas se sintam envergonhadas”, relata ao The Guardian, tecendo sérias críticas ao regime saudita. “Há mulheres que têm boas famílias onde não são abusadas. Mas existem várias que vivem sob regras estritas e são abusadas em silêncio. O Estado apoia estas instituições, que só existem para discriminar contra as mulheres. Como é que as autoridades permitem que estes “lares” se mantenham abertos?”, acrescenta.

O grupo defensor dos direitos humanos ALQST diz que os Dar al-Reaya são instrumentos fundamentais da Arábia Saudita para impor “normas de género” e “contrastam fortemente” com narrativas recentes do governo sobre o “empoderamento das mulheres” no país. Nadyeen Abdulaziz, a diretora de campanhas do grupo, diz que “se [as autoridades] estiverem realmente comprometidas em avançar os direitos das mulheres, então têm de abolir estas práticas discriminatórias e permitir o estabelecimento de abrigos genuínos que protejam — e não penalizem — aquelas que sofrem de abusos”.

Em resposta às questões do jornal britânico, um porta-voz do governo da Arábia Saudita confirmou a existência de uma rede de “lares de acolhimento” que apoiam “grupos vulneráveis”, como mulheres e crianças afetadas por episódios de violência doméstica, rejeitando categoricamente quaisquer relatos de “confinamento forçado, maus tratos ou coação”. Esclarecem que “não existem centros de detenção, e qualquer alegação de abuso é levada a sério e sujeita a uma investigação profunda”, acrescentando que “as mulheres são livres de abandonar os estabelecimentos a qualquer altura, para ir à escola, trabalhar ou outras atividades pessoais, e que podem sair permanentemente sem qualquer autorização de um familiar”.