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"Dizem que há diferenças, mas vejo similaridades": a moda da Arábia Saudita na passerelle do Portugal Fashion

Este artigo tem mais de 1 ano

Longe dos véus e túnicas, os designers sauditas trouxeram ao Porto coleções entre o feminino elegante e o streetwear. Afinal, como a moda se expressa num país com restrições de vestuário?

29 fotos

O desfile começou ao som de música árabe, mas logo veio uma batida mais pop que deu o ritmo para as primeiras peças entrarem na passerelle. Jumpsuits e calças com corte mais largo com muitos bolsos utilitários, vestidos camiseiros longos e coordenados em tons de branco, bege, terra, azul marinho e vermelho escuro. “Fiz uma viagem recente para AlUla e as cores da paisagem realmente inspiraram-me”, conta Daneh, a designer responsável por abrir os trabalhos sauditas no calendário do Portugal Fashion. “Muito do que faço é inspirado em roupas de homem e gosto de misturar o suave e o forte. Portanto os meus designs são um pouco masculinos, um pouco femininos, e podem ser usados a qualquer hora.”

Com uma carreira em tecnologia da informação, Daneh decidiu dedicar-se unicamente à marca homónima há apenas quatro meses. A designer saudita que vive no Dubai tem clientes por todo o Golfo Persa, onde tradicionalmente (e de acordo com a lei islâmica, a sharia) as mulheres usam roupas que cobrem o corpo. “Seja na Arábia Saudita ou em qualquer lugar do mundo, considero uma coleção muito diversa. Se algo é sem mangas, sempre podemos usar uma camisola por baixo. Os meus calções não são tão curtos, estão a meio. Então é possível fazer o styling que quiser. E também é de onde vem a minha inspiração: são peças oversized e soltas porque é a forma como nos vestimos.”

A designer saudita Daneh apresentou uma coleção inspirada na região de AlUla

As peças selecionadas têm um perfil que se adapta facilmente à moda europeia. Com produção nos Emirados Árabes Unidos e matéria prima importada da Coreia, Japão ou Turquia, Daneh mostra-se confiante que pode trazer as suas criações para serem produzidas e vendidas em Portugal, alcançando um novo público. “A mulher do Cristiano Ronaldo é portuguesa?”, questiona a design, não escondendo o desejo de vestir personalidades como Georgina Rodriguez.

Streetstyle saudita

Khalid Almasoud, diretor criativo da marca Awaken, acompanhou o ensaio muito atento, concentrado, e sempre a alinhar detalhes com Isabel Branco. “Ele pediu uma coisa diferente”, assume a coordenadora de desfiles, sobre o trajeto diferente que os manequins fizeram na passarelle. Em coordenados de calças e camisas largas, num estilo oversized, com ganga e tecidos leves, como a seda, a marca explora também padrões coloridos com desenhos de nuvens e peças com corte estilo kimono.

“A coleção é inspirada no Mar Vermelho, que é uma região na Arábia Saudita, com uma vibe muito resort. Então fiz esta coleção para combinar com as cores da bela cidade do Mar Vermelho e o ambiente em geral de praia, com resortwear e elegância, combinados com o lado forte e ousado do streetwear, que é a nossa identidade original”, explica o designer de 29 anos, que diz que algumas peças foram inspiradas também na cultura asiática. “Até quando estive a andar pelas ruas do Porto sinto-me inspirado. Algumas peças de arte que vi aqui podem aparecer em coleções no futuro”, diz Khalid.

Na primeira fila o veterano Miguel Vieira assistiu atento às novidades vindas da Arábia Saudita. No final do desfile, fez questão de cumprimentar o diretor criativo da Awaken. “Nunca tinha visto os desfiles do Miguel, mas aqui no Porto fiquei a saber que tem uma grande marca. Vi o desfile ontem e gostei muito. Surpreendentemente, já tinha uns óculos de sol da marca Miguel Vieira ainda antes de vir ao evento”, conta o designer saudita. “Ele é ótimo, muito humilde e falámos sobre moda. Espero que no futuro possamos manter um bom relacionamento.

Khalid, diretor criativo da Awaken, acompanhou os ensaios de perto e teve Miguel Vieira na primeira fila do desfile, no último dia do evento

Portugal Fashion meets Saudi Arabia

Depois de vários anos a receber designers de países africanos, na parceria com o CANEX, este ano o Portugal Fashion deu início a uma nova colaboração internacional, desta vez com a Arábia Saudita. A parceria entre a ANJE e a Saudi Fashion Association quer “estabelecer pontes entre os dois países” e trouxe ao Porto dois designers — a terceira participação prevista foi cancelada por problemas prévios que impossibilitaram a deslocação da marca a Portugal. O contacto entre o Portugal Fashion e a Saudi Fashion Association deu-se através do Saudi-Portuguese Business Council (SPBC), uma plataforma bilateral dedicada a promover a cooperação económica, o investimento e o comércio entre o Reino da Arábia Saudita e Portugal, sob a tutela da Federation of Saudi Chambers.

A Saudi Fashion Association é uma organização sem fins lucrativos criada há pouco tempo, com o intuito de alavancar os talentos sauditas no sector da moda, e que atualmente representa mais de 180 designers. Lolwah Alshaqha, a CEO da associação, entrou no mundo fashion há três anos, vinda da área de vendas. “Temos grandes objetivos em promover estes designers e facilitar os seus trabalhos em termos de direitos, representação junto a entidades governamentais e instituições internacionais. É para os dar as oportunidades que precisam para que o trabalho seja mais fácil”, disse ao Observador.

A parceria com a ANJE não envolve nenhum tipo de apoio financeiro, afirma o presidente da ANJE, Carlos Carvalho, mas a expectativa é que possa gerar negócios entre os dois países. Para o lado português, espera-se conseguir vender designers nacionais na Arábia Saudita e trazer as produções sauditas para a indústria portuguesa. De acordo com Carlos Carvalho, o acordo prevê a ida de designers portugueses para o país árabe, apesar de ainda não ter sido feita uma seleção nem estar definida uma data. Entretanto, já há interessados. Alexandra Oliveira, nome por trás da Pé de Chumbo, já tem clientes importantes no país, por exemplo. “Fiquei muito interessada em conversar. Tenho uma agente na Arábia Saudita, que está a fazer tudo para que a marca entre num desfile na Fashion Week.”

Os designers sauditas que vieram a Portugal foram escolhidos depois de um processo seletivo que levou em conta critérios como a qualidade, estar no mercado há mais de três anos, ter loja online ou física e ter registos de participações em eventos internacionais e cobertura da imprensa. “Khaled e Daneh chegam a mercados internacionais. Khaled já tem experiência na Riade Fashion Week e já apresentou em Paris com o apoio da Fashion Commission. Daneh tem boas vendas na região do Golfo, principalmente porque os clientes têm gostos similares. Países como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Bahrain, o Kuwait.”

A comitiva saudita diz-se ainda bastante impressionada com a organização do evento. Uma das atividades do calendário do Portugal Fashion que Lolwah destaca é a visita às fábricas têxteis em Famalicão. “É muito interessante para os nossos designers saberem que há outras opções e que podem ajudar a desenvolver os negócios que querem construir. A exposição aos negócios, aos desfiles, tudo agrega às carreiras. Ficámos surpreendidos pelas novas tecnologias e tecidos inovadores“. Khalid também diz que não esperava ver “tanto público formado por pessoas jovens e envolvidas na moda. É uma ótima oportunidade estar cá, definitivamente não será a última vez”.

A comitiva saudita ficou bastante impressionada com a organização do Portugal Fashion.

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

Como é a moda na Arábia Saudita

As criações sauditas que desfilaram na passerelle do Portugal Fashion refletem uma moda que pouco se parece com as imagens que muitas pessoas ocidentais têm da Arábia Saudita, com mulheres em túnicas pretas e véus que cobrem o rosto. Uma nova imagem que vai ao encontro da narrativa que as autoridades sauditas tentam promover há alguns anos, ao anunciarem novos direitos. Em 2018, por exemplo, as mulheres foram autorizadas a conduzir. Um ano depois, mulheres acima dos 21 anos passaram a poder emitir um passaporte e viajar sozinhas. Desde 2021 podem ir a Meca sem um guardião homem, desde que viajem com um grupo de outras mulheres. Contudo, o país ainda segue códigos religiosos rígidos e permanece sob o escrutínio público. Ainda em 2025 uma investigação do The Guardian encontrou relatos de mulheres presas em lares de acolhimento, sob condições de tortura, por “crimes” como a desobediência ao marido.

Numa entrevista em 2018 para o programa 60 Minutes, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman Al Saud destacou que as peças tradicionais — composta pela abaya e o véu que cobre os cabelos — não são obrigatórias. O líder destacou que homens e mulheres devem vestir-se de forma “decente e respeitável”, de acordo com as normas religiosas, mas que quem escolhe as roupas que usa são as próprias mulheres sauditas. A lei de decência de 2019 requer vestimentas “modestas” para ambos os sexos, especificando peças mais “soltas” que cubram cotovelos e calcanhares.

Com o calor que se fez sentir no Porto, as mulheres da comitiva saudita raramente usaram o véu a cobrir os cabelos — apenas durante os desfiles, num contexto em que estavam a representar a associação. Em termos de roupas, mostravam ter um estilo próprio, clássico e elegante, optando por peças como saias longas e rodadas, camisas com golas fechadas ou batas de linho com mangas soltas combinadas com calças de cintura alta.

É sobre este vestuário “modesto” que Lolwah Alshaqha fala ao Observador, questionada sobre como se vestem no país e o quanto a moda está presente dentro do contexto cultural saudita. “Temos diferenças no vestuário entre homens e mulheres. Se um dia for a Riade vai ver mulheres e homens a vestirem-se de forma modesta. A visão genérica é: homens com uma roupa longa branca, por causa do calor, e com um véu na cabeça vermelho que é usado formalmente. Para nós, mulheres, temos a abaya, que é parecida com um kimono em termos de comprimento e largura, e é muito confortável. Também costuma ser leve por causa do calor, e depois temos o véu na cabeça. O uso é opcional, mas esta é a moda saudita, além de ser confortável e combinar com o nosso clima. E então é possível encontrar muitos estilos e cores para este kimono. É interessante, há um grande mercado focado nestas peças — mas é claro que o uso é opcional, contanto que se mantenha o estilo modesto. É uma questão cultural”, explica. De acordo com a CEO da Saudi Fashion Association, o vestuário tradicional é reservado para ocasiões formais, como o trabalho ou jantares oficiais. “Fora disso, cada um pode representar o próprio estilo da maneira que quiser“, diz, dando como exemplo reuniões de família ou concertos. Lolwah cita ainda o streetstyle visto, por exemplo, na coleção da Awaken. “É o estilo saudita. Se fores a Riade, vai ver muitos homens a usar estas roupas. Não é estranho para nós, mas temos muitas opções.”

A CEO da Fashion Association afirma ainda que estas similaridades permitem ampliar os mercados, seja para um designer saudita vender no exterior, ou de um criador internacional entrar no mercado saudita. “Se és um designer da Indonésia, por exemplo, podes vender para o mercado saudita. Se és um designer americano, podes vender para o mercado saudita. Temos uma grande variedade de categorias, desde o tradicional até ao moderno. Podemos encontrar designers que fazem unicamente peças tradicionais e também aqueles que criam estilos inovadores. E também podemos encontrar uma mistura do tradicional com um estilo, digamos, mais ocidental. Há quem diga que temos diferenças, mas eu vejo similaridades. No primeiro desfile (Marques’Almeida) vi muitas peças que poderiam ser vendidas na Arábia Saudita e seriam populares. É claro que com alguns ajustes, ou mesmo a usar como resortwear ou com outras combinações.”

Com olhos postos em si, os dois designers escolhidos para representar o país em Portugal apresentaram coleções inspiradas em regiões da Arábia Saudita que têm sido fortemente promovidas para o turismo de luxo internacional. AlUla e o Mar Vermelho têm sido duas zonas para as quais Cristiano Ronaldo leva a família de férias e publica nas redes sociais em regime de parceria com o governo saudita, por exemplo. A participação da comitiva árabe parece fortalecer a ideia de que a Arábia Saudita pode ser moderna, um bom parceiro comercial e está a progredir quando o assunto é os direitos das mulheres. Os próximos passos da parceria com o Portugal Fashion poderão responder se alguma destas premissas se concretiza.

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