Quando, em 1985, William Gaddis editou o seu romance – e, acrescente-se – obra-prima Carpenter’s Gothic, estava (ao intitulá-lo assim) a fazer um jogo de palavras com a expressão “American Gothic”. Não sei exatamente quando é que estas duas palavrinhas usadas em parelha se popularizaram, mas é certo que foram usadas vezes sem conta para descrever literatura americana cheia de questões relacionadas com fundamentalismo religioso, ou de pele, de classe e de género, sempre com inusitada violência. No fundo era a literatura do sul dos EUA, epitomizada por William Faulkner ou Flannery O’Connor.
Agora busquem no Google por “Ethel Cain American Gothic” e ficam a saber que a New Statesman usa a expressão “American Gothic” para descrever Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, o mais recente álbum de Ethel (que atua no Lisboa ao Vivo a 9 de novembro), idem para o Financial Times, o South China Morning Post (!), o 3QuarksDaily, o New York Times – grandes ou pequenas, respeitáveis ou desconhecidas, as publicações parecem atraídas por aquela formulação, quando precisam de sintetizar os feitos musicais da sra. Cain, o que se pode dever à preguiça (“Hey, olha aqui esta expressão mil vezes usada, mesmo à mão), embora seja necessário reconhecer que não é difícil imaginar o disco como banda-sonora dos livros mencionados (os livros ainda não vêm com banda-sonora, mas podemos sempre imaginá-la).
Não é um fenómeno comum que um objeto passível de ser descrito como “American Gothic” tenha milhões de streams no Spotify, mas é o que acontece com Fuck me eyes e Nettles, respetivamente 3ª e 4ª canções de Willoughby Tucker, I’ll Always Love You. Ainda mais estranho: as restantes canções do álbum não passam dos 20 ou 30 mil streams, o que é representativo de como as pessoas consomem música hoje: ouvem a canção da moda vezes sem conta mas não se dão ao trabalho de escutar um disco do princípio ao fim (uma luta que mantenho com o meu garoto, que adora boa música mas nunca tem noção do que veio antes do quê, porque não conhece os discos).
Aparentemente, Fuck Me Eyes (um trocadilho com Bette Davis Eyes, um êxito dos anos 80) tornou-se num fenómeno no TikTok; terá sido a levar milhões a fazer stream da canção – o que não deixa de ser caricato, porque Fuck Me Eyes é uma ótima canção por si mesma, mas surge deslocada no disco, como um desconhecido numa festa para a qual não foi convidado. O disco oscila entre a folk melancólica, a country etérea (é difícil não pensar, em alguns momentos, nas bandas-sonoras de Badalamenti para Lynch) e o drone – por drone entende-se a repetição obsessiva de um bordão, normalmente nas cordas graves da guitarra, criando um efeito de espiral.
E no meio disto — e isto inclui um par de canções instrumentais de 6 minutos que nunca explodem, antes parecem pairar fora de órbita — surge Fuck Me Eyes, toda emproada, toda sofisticada, toda cheia de sintetizadores e a proporcionar um excelente momento de ascensão a caminho do refrão. Foi isto que fez de Ethel Cain uma estrela (ou isto a viralizar no Tik Tok), mas não foi só isto – ou, por outra, isto foi uma varação aprimorada de um truque que ela já usara: no seu disco anterior, Preacher’s Daughter, que sonicamente é semelhante ao novo (embora este seja mais lento que o anterior) surgia American Teenager, um single feito à medida de estádios gigantes – que tal Fuck Me Eyes é uma bela cantiga pop mas, no disco em que está inserido, parece um rico exibicionista no meio de barracas de pobres.
Ela é bastante honesta acerca disto, segundo li, explicando que para viver da musica tem de ter êxitos e por isso cria sempre um par de singles com potencial para alcançar multidões. Portanto, aqui temos uma autora capaz da mais estranha música (é raro ver estrelas pop a fazer canções instrumentais de meia dúzia de minutos baseadas em drones de guitarras); e como se tudo isto não fosse suficiente, ainda uma camada de estranheza extra, se pensarmos que tanto Willoughby Tucker, I’ll Always Love You (um título muito Lana Del Rey) como Preacher’s Daughter são, no fundo, romances, ambos com a mesma personagem.
Não estou a brincar: Preacher’s Daughter e Willoughby Tucker, I’ll Always Love You fazem parte de uma trilogia e, sim, podem ser vistos (tematicamente) como “American Gothics”: em ambos os casos a personagem principal é uma Ethel Cain ficcionada, sendo que em Preacher’s Daughter ela era apresentada como a filha de um pai abusivo e incestuoso – e o disco acabava com a sua (de Ethel) morte e posterior canibalização, cortesia do seu namorado. Willoughby Tucker, I’ll Always Love You é a prequela ao disco anterior, passa-se nos anos 80 e centra-se na relação de Ethel com o seu namorado, com quem pretende casar e adquirir uma casa no Nebraska; a ideia central do disco é que nunca se consegue fugir do passado por mais que se fuja para a frente.
Isto não resulta – como seria de esperar – numa série de grandes faixas pop; embora resulte, na maior parte dos casos, em belas faixas razoavelmente inclassificáveis. Ou, sendo mais específico: se o disco se centra na folk e na country melancólica e assombrada, aqui e ali mistura outros géneros, como o slowcore e o ambiente, e em alguns momentos (em particular os instrumentais) ela deve deixar os seus fãs atónitos (isto se eles ouvirem mais que os singles, o que é dúbio).
O álbum abre com Janie, uma bela canção folky, lenta e melancólica, e logo a segundo tema, Wiloughby’s Theme já anda por campos de ambientalismo sónico – mesmo antes de chegarmos à malha pop, Fuck Me Eyes e a uma estupenda Nettles, countryzada lenta, com violinos em fundo e pedal-steel guitar e uma guitarra dedilhada. Seguem-se os seis minutos de drones de Dust Bowl, uma das tais canções que soará estranhíssima para quem só conhece os singles. Mais à frente, Tempest tem 10 minutos, também se move a drones repetitivos e é bem boa.
Se vos ocorrer que há uma qualidade cinemática nesta música, não andarão longe do alvo – quando era uma desconhecida a crescer numa terriola no meio de nenhures, paredes meias com o nada, Cain, cujo verdadeiro nome é Hayden Anhedönia, sonhava fazer cinema. Como não tinha os meios para tal, começou a escrever e a compor e descobriu que podia fazer cinema/literatura, isto é, criar uma narrativa através dos discos.
Esses discos, ou a música neles, pretende ser a banda-sonora dos filmes que ela não fez; o que ela fez foi arregaçar as mangas e compor, tocar e produzir tudo sozinha, o que não deixa de ser admirável. É difícil entender como a sua imagem de esposa do senhor do trator se traduz em viralidade no TikTok; não parece fazer sentido que ela seja uma estrela; os media americanos discutiram se Fuck Me Eyes não seria ofensivo.
Mesmo no fim do disco, Waco, Texas leva 15 minutos a descrever a vida do casal. A dada altura ela canta: “I’ve been picking names for our children/You’ve been wondering how you’re gonna feed them”. Pergunto-me se quem ouviu Fuck Me Eyes perdeu 2 segundos (ou 15 minutos) a ouvir e pensar neste extraordinário par de versos e o quanto, na sua economia de meios, dizem sobre, bem, o atual estado da economia.
Estamos em 2025 e tudo é possível – e antes uma estrela com estas canções e esta imaginação do que 99% da música que ocupa as nossas ondas hertzianas. A mais improvável das estrelas é também, a espaços, a mais experimental e cativantes delas.