Raquel Pimpão gosta de brincar com as palavras como se elas fossem um Tangram. De tal forma as palavras são um jogo para ela, que o seu nome artístico, Femme Falafel, é filho de uma dislexia. Os créditos, aqui, não são seus, mas de uma amiga a quem enviou a canção Femme Fatale, de Haruomi Hosono. A amiga leu “Falafel” onde deveria ter lido “Fatale”, Pimpão gostou e, fatalmente, passou a assinar com nome de bolinho de grão.

É a própria artista de 28 anos que nos conta a história, numa entrevista que teve como pretexto o lançamento de Dói-Dói Proibido, álbum de estreia desenhado há sete anos, quando era “mais um sonho do que um projeto”, mas que só viu a luz do dia no passado mês de outubro.

O disco resume-se a um jogo dadá sobre coisas sérias. É o urinol de Duchamp vestido com padrões e cores de Yayoi Kusama ou, nas palavras de Femme Falafel, “é uma alegria desconectada da realidade”: “Quando estava a escrever as canções, não consegui ter a perceção daquilo que elas eram. Não pensei em conceito nenhum. Com o passar do tempo, o que eu vi foi uma negação, uma dose de alienação que não tem de ser necessariamente má”.

Dói-Dói Proibido acabou por se afirmar como “uma catarse emocional” para lidar com a depressão, a ansiedade, os desgostos amorosos e a crise climática. É um retrato das dores de crescimento de uma geração que vive na encruzilhada de ter a liberdade na palma da mão sem saber o que fazer com ela, quando lá fora o nível dos oceanos continua a subir, tal e qual os preços das casas e uma refeição banal na baixa de Lisboa.

[o álbum “Dói-Dói Proibido” está disponível na íntegra no Spotify:]

Assim canta na última faixa do disco, Livre Arbítrio:

“Odeio liberdade
eu não quero mais escolher
odeio responsabilidade
eu não quero mais saber
desejo determinismo nas mais pequenas decisões
que se foda o iluminismo
e todas as minhas preocupações”

A balada ao piano, que termina com a elegância eletrónica de uns Moderat, põe no mesmo plano a ansiedade de ter de escolher um curso à entrada para o secundário e a ansiedade de entrar num restaurante e levar com o escárnio da empregada perante o pedido de “pizza com ananás”. Faz saboroso uso de um tipo de humor absurdo transversal a todo o disco, que tem raízes nas Caldas da Rainha: “Há um humor partilhado das pessoas que são das Caldas e das que viveram lá”, diz sobre esta “sensação abstrata” que, nos idos de 2013, deu origem a uma banda chamada Raging Dildos, e da qual Catarina Branco também fez parte.

“Só comecei a escrever canções na altura em que comecei a ouvir hip-hop”

Crescendo entre Chafalos, Bordalos, coletivos artísticos colados ao OSSO, praça de frescos todos os dias e um leve cheiro a enxofre no ar, Raquel Pimpão foi-se enformando no mundo. Aos 7 anos queria ser “diva pop” e dava tudo no karaoke com a mãe e com o irmão. Aos 9 começou a tocar piano e aos 14 disse aos pais que ia ser pianista jazz. Nessa sua teimosia de adolescente, embriagada de certezas, desenvolveu um pedantismo agudo, como a própria assume. “Só queria ouvir música clássica e jazz.” Mas depois intrometeu-se o fascínio pela MTV e a Beyoncé e os Black Eyed Peas passaram a fazer companhia ao Strauss no seu MP3.

[o vídeo de “Romance Feudal”:]

Já em Lisboa, Na Escola Superior de Música (ESML), instituição que a poderia ter afogado para sempre nas águas do snobismo, compreendeu três coisas importantes: que afinal não “percebia perfeitamente como o mundo funcionava”; que ser-se pianista jazz era “uma coisa mais complexa” do que imaginava; e que o hip-hop, que os colegas lhe foram mostrando nos intervalos dos compassos compostos, podia ser uma grande fonte de inspiração. “Gostava de escrever prosa e também textos estúpidos de coisas que me aconteciam no dia-a-dia. Só comecei a escrever canções na altura em que comecei a ouvir hip-hop. A cena de condensar tudo numa frase e de ter de falar rápido parecia-me fascinante.”

To Pimp a Butterfly (2015), de Kendrick Lamar, foi paixão à primeira vista. “Bitch don’t kill my pousio”, verso de Romance Feudal — uma joint venture entre o Kama Sutra e o Borda d’Água — é Femme Falafel a trazer Kendrick para o romance piroso entre uma suserana e um servo da gleba. A canção surge depois da Intro Feudalizante, 45 segundos de cravo barroco e peruca branca cacheada, ao jeito de Domenico Scarlatti. Com esta entrada, Dói-Dói Proibido mostra logo ao que vem: Raquel Pimpão não quer apenas brincar com as palavras, mas também com o cruzamento de melodias e harmonias. Disco, funk, house, hip-hop, jazz, clássico: erudito é o que ela quiser.

“Precisamente por eu ter sido snob durante muitos anos, quis agora expandir um bocadinho. Se eu gostava de várias coisas, por que é que tinha de escolher só uma? Tinha curiosidade e nunca me restringi”, diz a também teclista do projeto Fumo Ninja. Os Gorillaz, lembra, foram “a porta de abertura” para todas as possibilidades e para deixar de ter medo de misturar pizza com ananás, que é como quem diz, a MPB desafinada de Tom Jobim com uma batida de Kuduro e o 5/4 de Take Five, em Camada de Ozone; ou o R&B com a improvisação livre de Maria João e o Vogue de Madonna em Depressão, tema que a consagrou como vencedora do Festival Termómetro em 2023.

[a curta-metragem “Dói Dói Proibido”:]

Como nem sempre é fácil meter tantos ingredientes na panela sem que o resultado final não pareça uma caldeirada destemperada, Femme Falafel – que a certa altura do disco desdenha dos seus cozinhados para lamentar um amor não recíproco – chamou Luís Montenegro (Rapaz Ego) para lhe dar uma ajuda na coprodução. “Tivemos um concerto com o Bruno Berle, em que se organizou uma banda para tocar com ele. Eu e o Luís estávamos na banda e eu estava à procura de um produtor para o meu disco. Depois comecei a pensar, ‘ele toca bué bem piano e guitarra, também produz, sinto que pode haver um match’”. Ela, com o seu perfecionismo, ele, um “cheerleader profissional” capaz de pôr as coisas a andar e de aparar os excessos, entenderam-se na perfeição. “Foi uma maravilha.”

As canções de Dói-Dói Proibido vão agora andar por Lisboa e pelo Porto. As apresentações ao vivo estão marcadas para dia 19 de novembro, no B.Leza, e para dia 28 do mesmo mês, no RCA – Radioclube Agramonte e prometem alguns temas novos a antecipar trabalhos vindouros.

Pelo meio, talvez a vejamos ao lado de Beatriz Pessoa, Margarida Campelo ou Benjamim, com quem Raquel Pimpão colabora regularmente. Mas, ao contrário desses projetos, em que tem receio de “estragar os concertos”, nos dela, Pimpão será Femme Falafel livre, leve e solta: “Para mim será uma descontração”. Claro que sim. Quem é que se pode levar a sério ao cantar refrães como este:

“Mitra Indie
Gosta de Pepsi
Do Tarkovsky
e do Benfica

(…)

Mitra Indie
Gosta de Sagres
Lê Bukowski
Fuma haxixe?”

Ninguém — e ainda bem. Para dói-dói, já basta o mundo lá fora. Cá dentro, nada é proibido.