Uma equipa de investigadores alemães documentou, pela primeira vez, ratos-noruegueses — Rattus norvegicus, uma espécie invasora comum em zonas urbanas — a caçar morcegos em pleno voo, um comportamento até agora desconhecido. Publicado na revista Global Ecology and Conservation, o estudo mostra as imagens destes ratos a capturarem, matarem e alimentarem-se de morcegos no norte da Alemanha, levantando preocupações tanto de conservação das espécies como de saúde pública.

A investigação foi conduzida por biólogos do Museu de História Natural de Berlim, que instalaram câmaras de visão noturna e dispositivos de imagem térmica em dois importantes locais de hibernação de morcegos: uma gruta próxima de um teatro ao ar livre em Bad Segeberg e uma formação rochosa num parque público em Lüneburg. As gravações foram recolhidas ao longo de vários períodos de elevada atividade dos morcegos entre 2020 e 2024.

Em Bad Segeberg foram observadas 30 tentativas de caça, das quais 13 resultaram na morte do morcego. As câmaras registaram ratos a posicionarem-se na entrada da gruta e quando os morcegos passavam, eram agarrados e mortos com uma grande dentada. Embora em Lüneburg não tenham sido observadas capturas diretas, foram encontradas carcaças que indicam um padrão semelhante de captura.

O comportamento surpreendeu os investigadores, já que os ratos tendem a alimentar-se de animais já mortos ou demasiado debilitados para fugir. “Até onde sabemos, este tipo de comportamento de caça ativa nunca tinha sido documentado cientificamente“, afirmou o biólogo Florian Gloza-Rausch, autor principal do estudo, sublinhando a elevada capacidade de adaptação dos ratos em ambientes urbanos.

Os investigadores salientaram, ainda, que tanto os ratos como os morcegos são conhecidos por terem “numerosos agentes patogénicos“, incluindo vírus associados a doenças que afetam humanos e animais domésticos, como o coronavírus na origem da Covid-19, a raiva e o Ébola. Embora o estudo não tenha analisado diretamente a transmissão de doenças, os autores alertam para o facto de este comportamento poder facilitar a passagem de vírus para os humanos.

Para além de questões de saúde pública, a ação destes ratos representa uma ameaça à conservação dos morcegos, que enfrentam a perda de habitat e a poluição luminosa. Os investigadores defendem, por isso, o controlo dos ratos em zonas consideradas sensíveis, melhorando a gestão do lixo e a manutenção dos esgotos.