Em 1921, um artigo do Washington Post noticiava o seu desaparecimento. Um diamante de 137 quilates em formato de pera e tonalidade amarela, que pertenceu aos Habsburgos e, antes, aos Médici, e que fez parte das joias da realeza europeia desde pelo menos o século XV. A última vez que o diamante Florentino foi visto terá sido em 1919, quando Carlos I, o último Imperador austro-húngaro, se exilou na Suíça. A hipótese mais popular é a de que a joia teria sido roubada e cortada novamente, para esconder a verdadeira identidade. Em 1981 as suspeitas ficaram ainda mais fortes quando foi a leilão um diamante amarelo com metade do tamanho do Florentino. Mas, afinal, a pedra original nunca esteve perdida.
É o que revelam os descendentes de Carlos I em entrevista ao The New York Times, que acompanhou o momento em que a coleção de joias da família passou por uma inspeção feita por um gemólogo especialista. As peças, incluindo outros diamantes e itens de joalharia como alfinetes e adereços para o cabelo, permaneceram armazenadas num banco no Canadá desde os anos 1950. O neto do antigo imperador, Karl von Habsburg-Lothringen, explica que o segredo sobre o paradeiro da pedra foi mantido por todo este tempo em respeito a um pedido da Imperatriz Zita. Um mistério escondido inclusive dentro da própria família: a mulher de Carlos I só revelou aos filhos Robert e Rodolphe, e pediu a ambos que não desvendassem a localização das joias até o aniversário de 100 anos da morte do Imperador, em 2022, como uma medida de segurança. Robert e Rodolphe repassaram a informação apenas aos filhos, Lorenz e Simeon, que recentemente revelaram ao primo Karl.
Um diamante com mais de 500 anos
Não se sabe exatamente a origem da pedra, mas acredita-se que tenha sido cortada no século XV na Índia. Com a extinção da dinastia Medici em 1737, o Imperador João Gastão de Medici foi sucedido pelo primo, Francisco, duque de Lorena, que herdou os bens da família. O diamante Florentino, aliás, tinha uma posição de destaque na coroa do Imperador romano-germânico, que assumiu o trono em 1745. Já o casamento com Maria Teresa da Áustria deu origem à Casa de Habsburgo-Lorena, uma das mais longas casas reais reinantes da história da Europa — Francisco e Maria Teresa são também os pais da Rainha Maria Antonieta de França. E assim a pedra passou a fazer parte da coleção dos Habsburgos.
O diamante permaneceu na família, sendo repassado de geração em geração, até 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial e do Império Austro-Húngaro. Carlos I exilou-se com a família na Suíça, para onde também terá levado a coleção de joias. Durante aqueles anos, o Imperador ainda tentou restaurar a monarquia, e em 1921 a família exilou-se novamente na Madeira. Depois da morte de Carlos I no Funchal, Zita e os oito filhos mudaram-se para a Espanha e depois para a Bélgica. Com a Segunda Guerra Mundial e a ameaça de invasão alemã, em 1940 a antiga Imperatriz decidiu fugir para os Estados Unidos da América. Nos anos seguintes, a família estabeleceu-se numa casa modesta no Quebec, Canadá.
▲ Carlos I da Áustria nasceu a 17 de agosto de 1887 e morreu a 1 de abril de 1922. Tinha 34 anos. Reinou entre 21 de novembro 1916 e 12 de novembro de 1918
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De acordo com os seus descendentes, Zita levou consigo para o Canadá, numa pequena mala, as joias da família. Quando a antiga Imperatriz decidiu regressar à Europa, em 1953, deixou as pedras sob os cuidados do banco de Quebec. Zita morreu em 1989, aos 96 anos, na Suíça. Para os netos, o pedido para que mantivessem o segredo por 100 anos tinha a ver com o desejo da avó de que o paradeiro das joias não fosse descoberto enquanto ela ainda estivesse viva. “Tenho o sentimento que ela estava feliz por ter conseguido salvar alguns dos objetos importantes da família. Isto era historicamente muito importante para ela, porque era uma pessoa que sempre pensava muito no aspeto histórico”, diz Karl von Habsburg-Lothringen.
Futuro do diamante é incerto
Foi só recentemente que os primos Karl, Simeon e Lorenz, que vivem na Europa, viajaram até o Canadá para abrirem juntos o cofre e examinar as peças pela primeira vez, na companhia de Christoph Köchert, da A.E. Köchert jewelers, que já foi a joalharia oficial dos Habsburgos, e que atestou a sua autenticidade. “O padrão de corte corresponde às representações históricas”, afirmou o especialista, num comunicado publicado pelo NYT. “Todas as características dão-me a certeza que este é o genuíno e histórico diamante Florentino”.
▲ Carlos I e Zita com os filhos Otto, Adelheid, Robert e Felix em 1916
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Com o segredo revelado, os três primos querem agora que a pedra seja exposta juntamente com as outras peças da coleção de joias. “Deveriam fazer parte de algum fundo fiduciário aqui no Canadá”, disse Karl Habsburg-Lothringen. “Deveria estar exposto no Canadá de vez em quando, para que as pessoas possam ver as peças”, consideram os netos de Carlos I e Zita, que acreditam que esta é uma forma de agradecer o país por ter acolhido a avó 80 anos antes. Os três dizem ainda que não estão interessados em vender as joias.
De acordo com Richard Bassett, historiador e escritor que foi contratado pela família para escrever a história do diamante, na altura que Carlos I exilou-se na Suíça, o Florentino e as outras joias foram listadas num inventário separado daquele que continha as joias da coroa, fazendo desta uma coleção privada. A posse terá sido confirmada por um advogado da família real em 1921, quando o Governo austríaco pediu que as joias fossem devolvidas. Contudo, com a notícia de que o diamante afinal não está perdido, a propriedade da coleção está a ser contestada. O ministro da Cultura austríaco, Andreas Babler, emitiu um comunicado a pedir uma “revisão imediata” para determinar se as joias não serão, afinal, propriedade do Governo. “Se o diamante Florentino pertencer à República da Áustria, vou iniciar um processo para repatriar a joia. O meu gabinete está em contacto com a embaixada da Áustria no Canadá”, disse o também vice-chanceller austríaco.