Estava pensada e agendada desde agosto, mas o timing até parecia propositado — e alimentava um interesse adicional. Esta quarta-feira, o Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) dava uma conferência de imprensa para realizar o balanço da arbitragem das primeiras 10 jornadas da Primeira Liga e da Segunda Liga. Ou seja, podia abordar o caso da televisão que Fábio Veríssimo não conseguia desligar no Dragão, mas não o canto do Sporting nos Açores ou a grande penalidade de António Silva na Luz.
Na verdade, a conferência de imprensa estava inserida no plano de comunicação anunciado pelo Conselho de Arbitragem logo em agosto, que prevê a existência de um momento semelhante à 20.ª e à 30.ª jornadas. Na Cidade do Futebol, com a presença de Luciano Gonçalves e Duarte Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem e diretor técnico para a arbitragem, a FPF explicava os lances mais polémicos desde o início da temporada e respondia às questões dos jornalistas dias depois de Pedro Proença ter reunido de urgência com a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) para discutir o ambiente vivido nas últimas semanas.
O contexto, naturalmente, não era o mais simples. Rui Costa disse que o futebol português está “doente” ainda no último fim de semana, críticas secundadas por José Mourinho e António Silva que já valeram uma queixa da APAF contra o central do Benfica, e tanto o árbitro como o árbitro assistente da visita do Sporting ao Santa Clara devem ser afastados das nomeações das próximas semanas. Nesse sentido, e sendo o primeiro a tomar a palavra, Luciano Gonçalves quis deixar bem claro que a transparência nunca esteve em causa independentemente do ambiente que se vive.
“Tal como tínhamos assumido, iremos dar seguimento à nossa estratégia de comunicação, onde tínhamos definido que a cada dez jornadas iríamos fazer uma análise. Independentemente do ambiente, iríamos fazer o levantamento. Esse compromisso reflete o que definimos com transparência. Concorde-se ou não, foi esta a estratégia definida e a que iremos continuar a levar. É este o nosso compromisso com o jogo, com a arbitragem, e não iremos sair dessa linha que tínhamos traçado. Acreditamos no processo, sabemos perfeitamente que os erros vão continuar a acontecer. É nossa função e objetivo trabalhar para que haja uma assertividade maior. O Conselho de Arbitragem quer e será sempre parte da solução e não do problema”, explicou o presidente do organismo, sublinhando que todos os pedidos de reunião de todos os agentes desportivos foram respondidos em menos de 24 horas.
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Em seguida, Duarte Gomes deixou algumas estatísticas sobre as primeiras 10 jornadas da Primeira Liga, apresentando números claros sobre as intervenções do VAR e a forma como os árbitros as têm recebido — lembrando que “não há Maradonas na arbitragem”. Nos 90 jogos que já decorreram no Campeonato, existiram 40 intervenções do VAR, sendo que 19 foram sobre penáltis, 16 sobre a legalidade de golos e cinco para cartões vermelhos. Dessas 40, 24 foram factuais, ou seja, o árbitro nem sequer foi ao ecrã e acatou de imediato a opinião do VAR, algo que acontece principalmente com foras de jogo ou golos anulados.
Todas as outras implicaram a ida ao ecrã, sendo que das 16 revisões foram acatadas 13 — em três casos, o árbitro manteve a decisão que tinha sido tomada em campo. O tempo médio de revisão no ecrã tem sido de um minuto e 35 segundos por lance, algo que está alinhado com os tempos da temporada passada na mesma altura, e a taxa de acerto do VAR na Primeira Liga foi de 97%. “Obviamente que muitas vezes se falam dos outros 3%, da consequência, impacto e visibilidade. Sabemos que é um registo perfeitamente normal nestas leituras”, sublinhou o diretor técnico nacional, acrescentando ainda que o tempo útil de jogo “está aquém”.
Num momento raro e curioso, Duarte Gomes elencou ainda os motivos pelos quais os árbitros erram — e apresentou vários. “Por uma desconcentração pontual, perdendo o foco no momento exato. Porque têm o foco no local errado, o foco está nos braços e a falta é um pisão, etc. Erram porque podem estar mal colocados. Porque o lance é muito difícil… Sei que ninguém gosta da expressão ‘cinzento’, na fronteira, mas a expressão existe há muito tempo. Independentemente da decisão, são lances suscetíveis de dúvida. Erram por inexperiência… Por incompetência momentânea, não se lembrarem da regra, da recomendação. Mas também erram porque são ludibriados, enganados na simulação, na mão que agarra na cara quando o toque é no pé”, sublinhou, deixando depois um aviso ao “ruído exterior”.
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“Isto é novo para nós e para vocês. Estamos perante um paradigma novo. Não estamos imunes ao ruído exterior, não nos escondemos dele, e tentamos ter momentos de aprendizagem. Aprendemos com a crítica construtiva. E em vários momentos ouvimos e lemos coisas que fazem sentido. Na maioria, infelizmente, não. Sabemos que estas são as regras do jogo e convivemos muitíssimo bem com isto, tal como os árbitros, que estão a lidar com algum aparato excessivo que acontece, muitas vezes, de forma estratégica e direcionada. Temos um rumo definido por quatro anos, por ventura a oito ou 12. Não vamos vacilar, independentemente das tempestades que venham. Mas vão existir momentos em que erramos, reconhecer que não fizemos bem, e vamos assumi-lo com toda a frontalidade. Preferimos sempre isto ao cinzentismo da lei da rolha e da neblina de não dizer nada. Esta não é a nossa arbitragem. Estamos a aprender, mas estamos no caminho certo”, atirou.
Mais à frente, Luciano Gonçalves deixou números sobre a clara inexperiência da classe da arbitragem em Portugal: 40% dos árbitros têm três ou menos anos na Primeira Liga, 25% tem dois ou menos anos na Primeira Liga, 67% dos VAR têm menos de 50 jogos no desempenho da função e 30% dos VAR começaram este ano a respetiva carreira nessa função. Respondendo à possibilidade de os árbitros do Santa Clara-Sporting e do Benfica-Casa Pia da última jornada serem afastados nas próximas semanas, o presidente do Conselho de Arbitragem deixou bem claro que “não existirão jarras”.
“Disse recentemente, quando tomei posse, que jarras são para flores. E assim mantenho. O que este Conselho de Arbitragem faz é aquilo que qualquer clube faz com os seus ativos: faz gestão dos seus jogadores. Jamais irá fazer jarras porque os jogos correram bem, mal ou por pressão exterior. Iremos gerir sempre os ativos com responsabilização, assumindo os erros, responsabilizando os erros, mas jamais irá gerir com pressão externa ou ruído inerente. Sempre com o princípio de responsabilização do erro. Para nós é muito importante que os árbitros sejam defendidos, estejam tranquilos, valorizando a competência deles”, afirmou, anunciando ainda a apresentação do Plano Nacional de Arbitragem no próximo mês de janeiro.
Já nas respostas às perguntas dos jornalistas, Luciano Gonçalves garantiu que “jamais” esteve em cima da mesa a possibilidade de integração de árbitros estrangeiros, enquanto que Duarte Gomes abordou diretamente os relatórios de Fábio Veríssimo, sobre a televisão no Dragão, e de Gustavo Correia, sobre os insultos ouvidos de Mário Branco na Luz. “Acho que ficou muito claro que não só não falamos em jarras, como não mostramos a ninguém que vamos fazer isso. Os primeiros a saber quando vão ser responsabilizados são os próprios árbitros, não a imprensa nem os clubes. Muitas vezes é a visibilidade. Um erro num jogo de 5-0, tem muito menos impacto do que um erro num jogo de resultado incerto até ao último minuto. Muitas vezes, a gestão dos desempenhos nem é para castigar o árbitro, mas sim para protegê-lo da exposição. Um erro tem consequências até familiares para os árbitros, e protegê-lo é o mais sensato. Mas é importante que se sintam responsabilizados. Quando erramos, temos de assumir as consequências. E não é só a não nomeação. É o fator económico, a auto-estima e o processo classificativo. Quando acharem que os árbitros não são responsabilizados, estão enganados, acreditem. São… E muito”, garantiu.
Já na reta final da conferência de imprensa, que durou cerca de uma hora, Luciano Gonçalves defendeu que os regulamentos disciplinares para pressões, críticas ou abordagens menos ortodoxas à arbitragem deviam “ser mais punitivos” e deixou um piscar de olho claro a Mário Branco, diretor-geral do Benfica que terá dito no final do jogo contra o Casa Pia que iria “rebentar” Gustavo Correia e também João Bento, o VAR.
“Os árbitros fizeram as suas obrigações. Mencionaram tudo no relatório e passaram para as entidades competentes, no Conselho de Disciplina também. Naturalmente, nenhuma das situações deveria acontecer. Isso será consensual. Não é apenas e só pela questão do árbitro em si, do ambiente, é por aquilo que é uma imagem que passa para o futebol no seu todo. Certamente não é isso que queremos. Da parte da arbitragem, foi feito o que deveria ter sido. Claramente que qualquer situação destas tem objetivos de criar pressão no árbitro, no jogo, na arbitragem no seu todo. Aqui ninguém rebenta ninguém. Se o árbitro descer de divisão, irá descer por resultados menos positivos, porque teve uma época menos positiva, e jamais por interferência de quem quer que seja. Infelizmente, algumas das ações que aconteceram nesses dois exemplos estão a ir buscar o que de pior houve há alguns anos. E não é isso que queremos. Esperamos que tenham sido casos isolados”, concluiu.