Foi apresentada como “uma das mulheres mais influentes de Portugal”, mas acredita que “há aqui malta que não me deve conhecer”. “Aqui” é um dos palcos da Web Summit, onde Cristina Ferreira já é presença habitual há cinco anos. Será também uma das únicas oradoras da cimeira tecnológica que fala em português durante a sessão, já que o inglês é a língua “oficial” do evento. Na edição de 2025 da Web Summit, Cristina Ferreira escolheu falar sobre “autenticidade”.

Perante uma plateia não lotada no palco dedicado à criatividade, a apresentadora e administradora da Media Capital começou por falar de si própria enquanto marca. “Apresentei-te como Cristina Ferreira mas podia ter dito só Cristina. Quando falamos em Cristina, a maioria dos portugueses pensa em Cristina Ferreira”, atirou a interlocutora, a jornalista da CNN Portugal, Maria João Rosa. “Durante muito tempo recusei a ideia de que eu poderia ser uma marca. Sou uma pessoa, como é que posso ser uma marca? Depois percebi que a marca tinha a ver com o facto de eu ter imposto alguma diferença, por exemplo, na apresentação, no que fui formatando na minha comunicação. E percebi que se calhar sim, já tenho aqui uma marca que faz com que seja única de alguma maneira”. Mas acrescentou que ainda precisa do “Ferreira”.

A apresentadora contou que chegou a querer ser jornalista, mas cedo percebeu que “ser jornalista não me permitia ter a autenticidade que podia ter enquanto apresentadora”. E, por isso, seguiu o caminho do entretenimento. Hoje, diz, “sei que me tornei numa marca”.

Ainda sobre a “pessoa como marca” e a “autenticidade”, a apresentadora da TVI e empresária explicou como consegue manter a distância entre “a pessoa e a marca” sem “sacrificar a privacidade”. “Essencialmente ela é a mesma, sendo que guarda algumas partes da sua própria vida para um núcleo muito restrito. Sou mais histriónica a nível público do que sou pessoalmente. A minha imagem pública é contrária ao que eu era e sou pessoalmente”.

Questionada sobre as partilhas que faz nas redes sociais e a proximidade com o público, Cristina Ferreira rejeita que “instrumentalize” partes da sua vida privada. “Se sinto que não quero partilhar não coloco. Gosto muito de partilhar estilos de vida, as caminhadas, e não sinto que estou a dar algo privado mas que estou a comunicar algo meu”. O mesmo acontece com as viagens, diz, que “tem que ver com um lado meu muito sonhador de criança. Cresci numa família humilde, nem de férias íamos”. Hoje “sinto que posso fazer sonhar os outros através das viagens”.

Numa conferência sobre tecnologia, Cristina Ferreira falou também sobre Inteligência Artificial. E confessou que mantém alguma desconfiança sobre o tema. “Tudo o que me parece muito à frente, eu dou espaço para que se apresente como algo muito bom, e a IA não se apresentou primeiro a mim como algo incrível. Tive aqui alguma relutância em perceber o que tínhamos a ganhar com isto. E ainda consigo ver mais o que temos a perder do que a ganhar”, admite.

“Acho que o que nos vai retirar de pensamento, de criatividade, do que nos torna únicos, marcas, pessoas além da normalidade, a IA vem subtrair. Espero que cheguemos a um sítio onde o uso da IA nos permita continuar a desenvolver-nos enquanto pessoas com emoções diferentes. Se formos todos iguais, qualquer pessoa que daqui a 10 anos consiga manter alguma diferença em relação ao padrão vai ter mais facilidade em sobressair”.

Para Cristina Ferreira, a autenticidade pode ser um lado “extraordinário e belo” mas também “difícil de aceitar. Há pessoas muito autênticas mas insuportáveis. Não podemos viver no limbo da norma, mas se queres posicionar-te de forma diferente tens de ser como és, sem grande filtros, porque se os colocas vai ser difícil tirá-los”, defendeu. Sobre a diferença entre o que não é real e o que é autêntico, Cristina Ferreira diz que “devemos valorizar o que uma máquina não construiu”. “E volto a uma frase que sempre me disseram: ‘és uma máquina’. Não, não sou. Sou uma pessoa com sentimentos. Nunca se pode perder isso”.

“Zero arrependimento, zero erros neste percurso”. Cristina Ferreira admite que sentiu “agressividade” do público quando trocou TVI pela SIC