Talvez o sinal de maturidade num poeta não resida tanto no aperfeiçoamento técnico dos seus versos, quanto na fluidez com que manipula (no sentido artificioso-dramático do termo) acontecimentos de uma vida pessoal — vida encenada enquanto tal — com as suas leituras, essa outra forma de vida. Perícia em saber articular vida e poesia, tornando inócua qualquer distinção estruturante. O poeta maduro é, porventura, aquele que coloca a mão na testa do leitor, ambos localizados na procura comum do “dispositivo perpétuo do acalanto” (60), e revela o acto de leitura como denominador comum de todo o ser humano: eis o poeta num gesto de instrução pela humildade, forma dadivosa da transmissão de, mais do que conhecimento, sabedoria.

Todavia, contrariando a primeira frase, ou apondo-lhe um complemento em jeito de esclarecimento, também nisto reside, afinal, uma forma de engenho técnico: revelar, por um manuseamento ágil da linguagem, que qualquer fronteira entre um e outro plano é, afinal, fictícia, dado que tudo é jogado no contínuo exercício do pensamento por imagens, labor criativo mais ou menos incontornável, mais ou menos consciente e mais ou menos meritório ou (ir)responsável. A boa poesia prestar-se-á — prestar-nos-á —, pois, a reconhecer o despropósito da distinção radical entre pessoal e impessoal, transmissível e intransmissível, subjectivo e objectivo.

Vida: Efeito-V, de Carlito Azevedo, é, antes de belo — é-o, seguramente —, um livro sólido, maduro. Previamente a qualquer conclusão a respeito da urdidura intrínseca do livro, o mesmo afigurou-se-me — perdoem o interlúdio proto-confessional — um livro exemplar, muito claramente detendo esse valor extremado que os exemplos carregam, sem, por vezes, ser certo o que exemplificam exactamente. Isto é, são o ponto mais alto de qualquer coisa de que se recusam ser devedores. Portanto, Vida: Efeito-V é um alto exemplo de um livro maduro. Neste sentido, o livro parece mover-se num universo que — não obcecando paralelamente na construção de um imaginário fechado sem ligação com o real — se furta a fazer concessões a estéticas, linhagens estilísticas, temas, redomas-conceptuais virais, próprias de um tempo a que se dá o nome de “nosso tempo”, crendo um tanto ingenuamente numa possível unidade epocal. Vida: Efeito-V prefere ser o vírus de si mesmo.

O avanço da leitura traz, pois, o recuo sistematizado da dúvida, da perda, e desse ganho tão deslumbrante quanto doloroso do pensamento sobre a ausência. O olhar que lança sobre episódios passados, narrativas poéticas tantas vezes aparentemente urdidas tão-só para destacar um olhar, uma mão parada na maçaneta da porta, a voz da cigarra, a morte de um amigo — os persistentes resíduos dessa vida contaminada de morte pelo olhar necessariamente retroactivo que merece —, a lembrança do que supostamente não existiu, mas cuja recordação, cuja escrita, entenda-se, é prova inequívoca da sua concretude. É um livro sobre os efeitos que a vida gera em nós, num contínuo que carece de alguns momentos de suspensão — de que a escrita é uma possibilidade — mais não seja para concluir a irredutibilidade de um retrato (de todos os retratos).

O terreno da potência semântica, na poesia, move-se pelo combustível das afinidades, sobre esse(s) instante(s) em que resiste “algo/ dentro de você/ desconhecido/ primeiro,/ desgovernado/ depois”, por exemplo, “sua garota [que]/ dançava/ irredutível/ a toda/ tentativa de retratá-la”. A geração de um sentido no poema funciona, pois, de forma análoga à memória, que, por associação de imagens — sonoras, visuais, olfactivas, tácteis —, constrói constelações mais ou menos misteriosas, colocando-nos como intérpretes de nós mesmos.

Título: “Vida: Efeito-V”
Autor: Carlito Azevedo
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 128

A vida sobre que se escreve — assunto e folha onde se veem surgir o desenho das letras, de motivos mais ou menos (in)decifráveis — nega todas as dicotomias. Sombra e luz, por exemplo, não são aqui um par binário. Ao longo do livro, sombra e luz tanto se tocam como se desvinculam e seguem a velocidades diferentes, ambas constituindo avessos habitáveis: “Aqui as sombras das coisas que se movem bruscamente não se movem./ Deito-me no oco de um objeto em movimento.” Além do desfasamento do objecto e da sua sombra, o primeiro é deixado ao desabrigo da claridade, recusando-se a uma mensagem verbal, compreensível tão-só pela “linguagem tátil do sonho”. A carne habita e é tangível num regime virtual, aquele do amor que está longe do seu centro, em que a amada se encontra em diversas partes do mundo: “Você dança, num mesmo momento, em muitos pontos remotos do/ planeta, uma varinha de ouro espetada no coque.” Há apenas uma dicotomia que é basilar e incontornável: a de estranhamento/familiaridade, na mesma senda do par distância/proximidade.

Num livro tão cheio de psicanálise, não só pela referência, logo no primeiro poema, ao gabinete onde alguém tem as suas sessões de análise, mas também pela assumida disposição poética para a associação livre, conceito fundamental para a terapêutica psicanalítica — talvez justamente o ponto em que literatura e psicanálise são exercícios produtivamente análogos —, difícil será furtar-se o leitor atento ao conceito de unheimlich. O termo, cunhado por Sigmund Freud, define o estranho que, não só persiste no familiar, como é motivado justamente pela familiaridade do objecto intimidante ou inibitório. Uma tal sensação é causada por bonecas que mexem os olhos, figuras humanas estáticas por muito tempo, enfim, a animação de objectos inanimados e a inércia de figuras, à partida, animadas. Ou causada, por exemplo, na visão de nós mesmos, horizonte visual necessariamente anterior ao olhar lançado; a testemunha do nosso recorte estático na paisagem da memória. Na pausa do trabalho de escrita o estático investe na conversão pelo extáctico. Eis o risco inebriante da possibilidade.

A unidade do sujeito escrevente será admissão falaciosa do leitor, dado que o livro se trata precisamente da fidelidade possível-provisória ao espelho distorcido que um ser é em si, enquanto imagem por devolver, corpo por regressar. Essa totalidade provisória é concretizada nas apóstrofes misteriosas que vão sendo endereçadas: alguém escreve, a dado momento, “muito obrigado/ por não desistir/ assim fácil de mim,/ que sempre confundi/ a vida/ com o efeito-V”. O V-Effekt, ou efeito-V, consiste numa prática dramatúrgica, criada e teorizada por Bertolt Brecht, que visa desfazer a ilusão dramática enquanto realidade, permitindo, pelo contrário, que o espectador esteja permanentemente consciente acerca do artifício da composição teatral a que assiste. Ora, a voz do poema confessa, neste sentido, confundir a vida, não só com a sua representação, como com o mecanismo de provar a natureza artificial da mesma, procurando a formação de massa crítica. Essa é a primeira forma sob a qual este conceito de Brecht surge.

Todavia, o termo do efeito-V define igualmente a presença salutar — sendo, mais que uma definição, uma defesa — do instante de estranhamento, dessa distância que permite o sentimento de pertença, a começar pela pertença a uma língua de que se é falante e escrevente. Aliás, língua em que se é, inevitavelmente, uma e a outra coisa, dado que se está dentro da representação e fora dela, permanente e simultaneamente. No lugar de uma relatividade neutralizadora, está o acaso como vector amoroso, flecha singularizada a cada lance de ligação ao meio: “Ponto/ de observação/ do mundo,/ tão propício/ ou tão impróprio/ quanto qualquer/ outro”.

A glória do sentido é ficarem alerta os sentidos: é saber-se mensageiro corpóreo, superfície deslizante e receptora, de um amor “girando/ longe de seu centro”, e que a prova da sua/nossa existência é a forma informe de um “grande campo magnético”. Se as primeiras duas partes do livro, “Baleia Branca” e “KINDERSZENEN”, podem ser entendidas como poemas-agulhas medidores do magnetismo, a terceira e última parte, “O Céu do Rabi”,  pode ser entendida, atendendo à forma de poemas curtos e dispostos aos pares na página, enquanto capítulo de poemas-mapas-de-tensão, isto é, a forma gráfica resultante da medição anterior.

Livro de magnetismos vários, tomando o mistério por tinteiro, a poesia de Carlito Azevedo labora no sono de uma gralha-azul, no mito invertido de Jonas a engolir a baleia, nos desenhos de Thaís Akina Yoshitake, traços de um corpo que se impõe ao largo da língua, no silêncio da língua, no momento exacto em que a língua se torna corpo; energueia — energia e vigília, magnetismo vigilante — de “nenhuma tempestade”, o peso acumulativo do nada, o risco de nada acontecer ou de nada ter acontecido, a fome de uma notícia e o esboço de um destinatário. Impossível subtração: dar, com o poeta, a “insistente risada branca do pânico selvagem que permanece na memória,/ ao redor do abismo, o veludo despedaçado dessa voz.”

A autora escreve segundo a antiga ortografia