Era calmo e cerebral como jogador, é sobretudo calmo e cerebral como treinador. No entanto, há dias e dias. Este não era um dia qualquer. Bino Maçães não deixou de ser essa figura calma e cerebral mas foi levado ao limite na zona técnica ao longo dos 90 minutos da meia-final do Campeonato do Mundo de Sub-17. Por um lance de dúvida na área que valeu pedido de VAR sem sucesso, por uma jogada em que Duarte Cunha foi alvo de uma entrada duríssima que não deu mais do que cartão amarelo, por várias disputas em que os jogadores nacionais foram ficando amassados sem a respetiva sanção. No final, depois de vários minutos em que não tirou os olhos do chão enquanto 14 grandes penalidades decidiam o vencedor após nulo, fez a festa. Melhor: 36 anos depois, voltou a fazer a festa, neste caso superando aquele que era o (seu) registo máximo.

No meio da luta, eles nunca desistiram de ser livres: Portugal vence Brasil e consegue histórica final no Mundial Sub-17

Se em 1989 o Bino jogador chegou às meias-finais do Mundial Sub-17, perdendo com a Escócia por 1-0 antes de garantir a medalha de bronze com um triunfo diante do Bahrain por 3-0, agora o Bino treinador liderou a Seleção à primeira final de sempre num Campeonato do Mundo da categoria, naquela que é também a quarta decisão de Portugal numa prova da FIFA depois dos triunfos nos Mundiais Sub-20 de 1989 e 1991 daquela que ficou como a Geração de Ouro do futebol nacional e da derrota no Mundial Sub-20 de 2011. “Vamos com tudo, continuem a acreditar!”, destacou pouco depois o capitão da Seleção, Cristiano Ronaldo.

“Não vi um único penálti, foi um feeling que tive. Hoje foi um jogo de adultos, apesar de serem miúdos, tanto taticamente como defensivamente. Acho que até tivemos as melhores oportunidades. Mas temos de dar os parabéns a estes miúdos pela forma como representaram o país. Queremos fazer história, não queremos ficar por aqui. Depois de campeões de Europa, queremos ser campeões do Mundo mas mantemos os pés assentes no chão porque ainda temos de ganhar mais um jogo. Há uma coisa importante que distingue este grupo: eles gostam de ouvir o que dizemos e é tudo muito mérito deles. O segredo para mim é ser muito coeso defensivamente porque quanto tens qualidade os golos vão acabar por surgir”, comentou o treinador após o encontro ao Canal 11. “Escolha de Romário para o penálti? Foi um feeling. Batemos penáltis todos os treinos e achei que o Romário deveria ser um dos marcadores pela forma como tem batido”, acrescentou o antigo jogador de FC Porto e Sporting que foi quatro vezes campeão nacional (1993, 1996, 1997 e 2000).

“Enfrentámos o Brasil com grande coragem, representando bem aquilo que é a nossa qualidade, o nosso futebol e o nosso povo. É um dos melhores dias da minha vida mas agora temos de preparar a final com a Áustria nos dias que ainda temos de treino”, referiu Rafael Quintas, capitão que saiu por lesão na segunda parte. “Áustria? Uma final é sempre muito equilibrada, com duas equipas que trabalharam para estar aqui e no fim irá ganhar quem tiver mais qualidade e quem estiver mais fresco”, completou o médio do Benfica.

“Estou sem palavras, é dos momentos mais especiais na minha vida, tal como foi no Europeu. Disse aos meus companheiros para irem tranquilos para o desempate. Ainda nos assustámos com o Romário mas o importante é que correu tudo bem no fim. Acho que fomos mais fortes, soubemos sempre quando defender e quando atacar e gerimos muito bem o jogo. Chave? Tenho muito orgulho na equipa mas o que nos caracteriza é a nossa humildade e é isso que nos dá força como equipa e nos faz crescer”, destacou também Bernardo Lima, médio do FC Porto que ficou com a braçadeira na meia-final depois da saída de Rafael Quintas.