Algumas vezes pode não assumi-lo de forma direta, em quase todas as vezes a mensagem está nas entrelinhas de quem quer perceber. Aos 71 anos, Jorge Jesus viveu praticamente tudo no futebol e não tem dúvidas em pensar que os jogadores que lhe passam pelas mãos ficam melhores, tornam-se melhores e saem melhores. João Félix, uma das contratações surpresa do Al Nassr no último verão quando tudo apontava para o possível regresso do internacional português ao Benfica, é mais um desses casos. Quiçá um exemplo paradigmático. E o tempo voltou a dar razão ao técnico português, que regressou à Liga saudita após passagem pelo Al Hilal e que também considera que o campeonato do Médio Oriente é mais forte do que a Primeira Liga.

Por ele até tinha ido de bicicleta até à Casa Branca: Al Nassr vence com a ajuda de João Félix e golo brutal de Ronaldo

“O João Félix é um grande jogador. Neste interregno da carreira, quem acreditou nele e o queria muito era o Bruno Lage e eu. É um jogador cheio de talento e que escolheu o melhor campeonato. Foi em Portugal que fiquei conhecido para o futebol mundial mas o saudita dá para 50 países. Ele escolheu um campeonato muito mais forte e muito mais competitivo do que o português. Seleção? O Roberto Martínez está a ser inteligente. Logo no primeiro jogo, pôs o Félix e o Cristiano juntos, como faz com outros elementos de outros clubes. As seleções vivem muito dos clubes onde os jogadores estão e os selecionadores não têm muito tempo para trabalhar esses jogadores. O Cristiano é um jogador à parte em tudo, desportivamente e como homem. Tem uma inteligência fora do futebol”, comentou o treinador nos últimos Portugal Football Globes.

Com mais ou menos razão, a parte de João Félix não oferecia dúvidas. Questão: conseguiria o técnico colocar o avançado mais próximo do nível apresentado nos seis meses de “explosão” no Benfica em 2019 que deram depois uma das maiores transferências de sempre para o Atl. Madrid a troco de 126 milhões de euros? Aí, a aposta foi mesmo ganha – e o avançado vai somando números como nunca tivera na carreira.

“Trabalho sempre para dar o meu melhor em campo, às vezes as coisas saem, em outras não. Claro que neste contexto é mais favorável porque estou na minha posição, na que me trouxe ao futebol, que fez um pouco do meu nome no início. A equipa também está muito bem, as ideias do mister [Jorge Jesus] são boas, favorecem o meu jogo e dos avançados em geral. É por isso que temos marcado muitos golos, a base é essa: a tática e as ideias do mister. Cristiano Ronaldo? É mais fácil jogar com ele, até acaba por ser bom porque com ele as defesas preocupam-se muito e deixam mais espaço aos outros. Mas sim, jogar com o Cristiano é outra coisa”, tinha referido João Félix no último mês, em declarações reproduzidas pelo Globoesporte.

Os números mostram grande parte da redenção, a atitude acrescenta o resto. Depois de ter inaugurado o marcador na receção do Al Nassr ao Al Khaleej para a Liga saudita, Félix somou mais uma assistência numa jogada de insistência em que deslizou de carrinho para conseguir recuperar a bola à saída do primeiro terço adversário ante de estender a passadeira para Wesley marcar com um grande remate de meia distância. Esta quarta-feira, a contar para a Liga dos Campeões 2, mais do mesmo: o internacional português inaugurou o marcador de grande penalidade aproveitando também a ausência por gestão física de Ronaldo (12′) e fez mais uma assistência para Sadio Mané marcar na goleada por 4-0 frente ao Istiklol que carimbou o primeiro lugar do Al Nassr na fase de grupos da segunda competição continental com cinco vitórias noutros tantos jogos.

Ao todo, Félix chegou aos 16 golos e quatro assistências em 1.348 minutos de 18 jogos oficiais pelo Al Nassr entre Liga dos Campeões 2, Campeonato, Taça do Rei saudita e Supertaça, numa época onde o conjunto de Riade só não ganhou dois encontros… mas que eram decisivos: diante do Al Ahli na final da Supertaça com derrota nas grandes penalidades e frente ao Al-Ittihad nos oitavos da Taça do Rei. “O nosso jogador decisivo, o nosso MVP”, destacou o Al Nassr após o encontro desta quarta-feira em que o avançado português voltou a cumprir os 90 minutos, ao contrário de Ronaldo, Brozovic, Sadio Mané ou Simakan.