Novembro foi um mês de glória para o futebol português. Na longínqua cidade de Doha, no Qatar, a seleção de sub-17 sagrou-se campeão do mundo pela primeira vez, numa final frente à Áustria em que o número 9 voltou a assumir o papel de herói (1-0). O golo de Anísio Cabral foi suficiente para superar os austríacos, que também procuravam um título inédito. No final, Portugal dominou a competição e levou ainda para casa os prémios de melhor jogador (Mateus Mide), terceiro melhor jogador (Mauro Furtado), segundo melhor marcador (Anísio) e de melhor guarda-redes (Romário Cunha) do torneio. O sucesso de Portugal no escalão continua sob a liderança de Bino Maçães que, no passado mês de junho, levou a mesma equipa à conquista do Campeonato da Europa, numa final frente à França (3-0).
Os obreiros do terceiro título de campeão do mundo do futebol português, depois dos sub-20 em 1989 e 1991, chegaram a Portugal este sábado, tendo o avião da Qatar Airways aterrado no Aeroporto Humberto Delgado por voltas das 12h40. A comitiva dirigiu-se para o exterior pela porta VIP, que tinha à sua espera um autocarro panorâmico plenamente decorado e centenas de adeptos. O capitão Rafael Quintas, que transportou o troféu, e Bino lideraram o grupo, que brindou os adeptos já no interior do autocarro. Depois, a equipa arrancou numa viagem pelas principais artérias da capital portuguesa, com passagem pelo Campo Grande e pela Praça do Marquês de Pombal. A Seleção chegou a Belém pelas 14h20, tendo sido recebida pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, cerca de dez minutos depois. O primeiro a discursar foi o selecionador Bino Maçães.
“É uma honra estarmos aqui presentes a apresentarmos o troféu que conquistámos. Agradeço ao nosso presidente por todas as condições que nos deus. Agradeço aos jogadores. Isto é o culminar da maturidade que foram alcançando. Parabéns pelo vosso desempenho. Foram grandes”, disse o treinador. “Passados 34 anos somos campeões do mundo. Agradeço a estes magníficos jovens que trouxeram esta nova alegria. O futebol português, nas próximas duas décadas, está garantido. Agradeço ao mister Bino. Só ele sabe o quanto foi difícil a mantê-lo motivado depois de sermos campeões do mundo. Ele garantiu-me que íamos ser campeões do mundo. Deixo uma palavra de elogio ao trabalho dos clubes de futebol. Habituem-se, vamos continuar a ganhar”, prosseguiu Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
“Estamos muito felizes, nós, Portugal. É um contributo para o prestígio de Portugal. Amigo Bino, que é de uma alegria e de uma força indomáveis. Ganhou porque é espectacular e estes jovens são espectaculares. Isto para Portugal é muito importante. As pessoas perguntam: ‘Porque é que o Presidente dá importância a isso?’. O futebol tem o peso que tem no mundo. O chefe de Estado do Lesoto disse-me: ‘Adoro Portugal’. Não há chefe de Estado que não fale em Cristiano Ronaldo e naqueles que marcam o futebol no mundo. Há 34 anos que não ganhávamos um campeonato do mundo como vocês ganharam. Fizeram a dobradinha, que vale a dobrar. Ganharam o Europeu e o Mundial. Isso não havia na história de Portugal. Nunca foi condecorado o jovem tão novo como vocês. É a primeira vez que se põem a questão de condecorar alguém que não tem 18 anos de idade. Pensei, mas isto é único. Disseram-me que não conseguiam medalhas em 48 horas. Não conseguimos. O problema está resolvido. Já combinei com o presidente [da FPF]”, partilhou Marcelo, anunciando para 2 de janeiro a condecoração ao plantel com a Ordem de Mérito.
Portugal mudou. Nós hoje ganhámos mais e melhor porque há mais jovens e crianças que querem jogar futebol e ter sucesso. Querem um dia ganhar um Campeonato da Europa, como vocês. Sonham com isso. A maior parte não consegue, mas têm direito a sonhar. Vocês ajudam milhares de jovens a sonhar e isso é bom para Portugal. Estamos a crescer em tudo. O desporto, em particular o futebol, prestigiam Portugal no mundo. Vocês, com a vossa vitória, prestigiaram Portugal no mundo. E logo no Qatar, onde às vezes temos sorte e outras vezes azar. Quando passarem na rua vão reconhecidos. Muito obrigado por Portugal”, concluiu o Presidente, que abriu, depois, as hostilidades no que ao entoar do hino nacional diz respeito. Seguiu-se a fotografia oficial e a habitual selfie na Sala das Bicas.
Pelas 15h18, os campeões do mundo chegaram à Cidade do Futebol, tendo sido recebidos na Praça dos Heróis, junto à entrada principal da FPF Arena Portugal, numa cerimónia aberta ao público que contou com as presenças de Pedro Proença, Roberto Martínez (selecionador nacional), Reinaldo Teixeira (presidente da Liga Portugal), os diretores da FPF Toni, Domingos Paciência e Daniel Carriço, Luís Freire (selecionador dos sub-21), Isaltino Morais (presidente da Câmara de Oeiras) e Margarida Balseiro Lopes (ministra da Cultura, Juventude e Desporto) na primeira fila. Rafael Quintas foi o primeiro a falar. “Quero dizer ao povo português que foram fundamentais nesta conquista. Tornaram-se fundamentais. Um carinho especial para aqueles que estiveram connosco no Qatar. Foram fundamentais neste nosso objetivo”, referiu o médio.
“Estes miúdos mereciam esta receção. Agradeço à FPF e ao nosso presidente por todas as condições que nos deram para desenvolvermos da melhor forma a performance dos nossos jogadores. Foi muito importante termos ido, por exemplo, a um ginásio fora do nosso espaço, que tinha mais condições. Agradeço aos jogadores que foram fantástico. A mentalidade foi fundamental para alcançarmos este objetivo. Vocês queriam fazer história e vocês já estão na história. Fiz questão de cumprimentar os selecionadores que estão cá porque é um troféu de todos nós. Não podia deixar de o fazer. Nos clubes vai ser importante a continuação da aposta naquilo que é o vosso talento. Que cheguem à Seleção A. Sentimos o apoio dos portugueses. Era como se estivéssemos a jogar em casa. Vamos por mais, isto não para aqui. A Federação quer mais”, referiu Bino.
“Passados 34 anos somos novamente campeões do mundo. Somos novamente campeões do mundo! Permitam-me começar por deixar uma palavra de agradecimento a estes jovens guerreiros que, passados cinco meses de terem sido campeões da Europa, fizeram história. As minhas palavras iniciais vão para estes jovens e meninos que vão garantir o futuro do futebol em Portugal. Está garantido mister Martínez, vai ser campeão do mundo. Agradeço ao meu amigo Bino, que podia ter feito o mais fácil depois do Europeu, mas acreditou naquilo que a FPF lhe deixou. Fizeram história por Portugal. Agradeço aos clubes que, todos os dias, permitem que a FPF possa colher aquilo que trabalham. Associo o movimento associativo e o futebol profissional, que permitem à FPF ter este sucesso. É um sucesso transversal do futebol português. Agradeço aos pais e ao diretor técnico nacional [Óscar Tojo], que tem feito um trabalho extraordinário. Habituem-se, o futebol português vai continuar a ganhar”, voltou a dizer Proença.
A terminar, Margarida Balseiro Lopes subiu ao palco para expressar o seu “orgulho” e “felicidade” por esta “conquista inédita”. “O que alcançaram vai muito além daquilo que é o resultado. Foi tudo aquilo que entregaram e abdicaram para conseguiram ser campeões da Europa e do mundo. Há muito que conquistaram o coração dos portugueses. Este feito vai muito além desta conquista. Neste momento há milhares de crianças que estão a dar os primeiros passos na formação e que olham para vocês como os verdadeiros heróis. Transportam essa responsabilidade. Têm um país inteiro com os olhos postos em vocês e com o coração a transbordar de orgulho. Estas conquistas não se conquistam sozinhas. O primeiro-ministro disse-me que defrontou o treinador [Bino] nos infantis e perdeu 4-0. Manda-lhe um abraço”, acrescentou a ministra.
A terminar um dia repleto de alegria pela conquista do Mundial, a comitiva que venceu o torneio no Qatar recebeu, individualmente, das mãos de Pedro Proença e Margarida Balseiro Lopes, as medalhas de mérito desportivo, bem como a fotografia oficial na Cidade do Futebol.