Duas goleadas na primeira fase com um triunfo mais “apertado” pelo meio frente ao Japão, duas goleadas na fase a eliminar, um título à distância de 40 minutos a tentar fazer aquilo que nunca tinha sido feito a dobrar. Portugal chegava à final do primeiro Campeonato do Mundo de futsal feminino da história com a hipótese de ganhar o seu primeiro grande título, depois das duas finais do Europeu perdidas frente à Espanha em 2019 e 2022, mas também com esse desafio de ganhar pela primeira vez na história ao Brasil, após 11 encontros nos últimos 15 anos onde não foi além de três empates e oito derrotas. Também por aí, o favoritismo recaía nas sul-americanas, que afastaram a Espanha nas meias-finais, mas nem por isso era uma “sentença”.

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“Estão na final as melhores seleções desta competição, assim o provaram na qualidade de jogo demonstrada. Queremos muito ganhar, tal como o Brasil, mas acho que é nossa obrigação também fazermos o que temos feito até agora: promover o futsal feminino. Temos tido aqui excelentes espetáculos e vai ser mais uma oportunidade de mostrar ao mundo a qualidade que existe no futsal feminino. Sendo Portugal e Brasil das principais potências, temos esse dever. Esse é o nosso papel. Desafiar a história? Estamo-nos a preparar para isso. É para isso que cá estamos. Viemos para competir, competir para ganhar. Queremos muito fazê-lo. A primeira vitória com o Brasil pode ser amanhã [domingo], estamos a preparar-nos para isso. Agora, temos de fazer o nosso trabalho e depois competir, competir muito”, apontara o selecionador Luís Conceição.

Em paralelo, o técnico abordou também a importância do momento para funcionar como trampolim para o futuro. “Na Federação temos feito a nossa parte, ao nível do crescimento e desenvolvimento do futsal feminino. Claro que isto vai dar visibilidade para trazer gente mais nova, para fazer crescer a nossa base, da nossa formação. Estamos conscientes do trabalho que temos feito, de onde queremos chegar. Queremos continuar a crescer no feminino. É importante que outros países possam acompanhar este crescimento. Para nós, Brasil ou Espanha sermos mais fortes, precisamos ter mais países a preparar-se de melhor forma para este tipo de provas. Se tivermos melhores adversários, vamos ser melhores, também”, acrescentou sobre uma modalidade onde Portugal foi campeão mundial e bicampeão europeu no masculino.

Era neste contexto que chegava em Manila a tão aguardada decisão, já depois do triunfo da Espanha frente à Argentina na decisão do terceiro e quarto lugares (1-5). Entre as goleadas diante de Tanzânia, Nova Zelândia, Itália e Argentina, a par da vitória por 3-1 com o Japão, Portugal, que defrontou pela primeira vez o Brasil no feminino há exatamente 15 anos num empate a dois no Mundialito em Espanha (Ana Catarina e Ana Azevedo já faziam parte dessa equipa então orientada por Jorge Braz), procurava agora levar a melhor diante de uma formação canarinha que chegava com uma série de 42 sucessos consecutivos. A Seleção tentou, a Seleção não conseguiu: apesar da grande exibição de Ana Catarina na baliza, a mostrar de novo que é a melhor guarda-redes do mundo, o Brasil acabou por ser mais forte e deixou Portugal com a medalha de prata.

Portugal-Brasil. Bianca defende remate de Kika (0-2, 25′)

O encontro começou muito “amarrado”, com as duas equipas a conseguirem bloquear bem os processos de construção e a impedirem que existisse qualquer remate enquadrado nos cinco minutos iniciais, marcado pelo respeito (até em demasia) demonstrado pelo adversário. Só a partir do sexto minuto começou a haver balizas na final, com Maria Pereira a desviar ao segundo poste ao lado um esquema tático marcado por Fifó mais descaído sobre a esquerda e Ana Catarina a encher a baliza com duas defesas fabulosas ao remate de Luana Rodrigues e à recarga de Natalinha. O Brasil começava a crescer na partida, Luís Conceição ainda pediu um desconto de tempo e um challenge VAR num lance de Natalinha com Carolina Pedreira (que acabou com amarelo para a brasileira e não vermelho) mas o primeiro golo estava mesmo a chegar, com Ana Luiza a receber com a organização defensiva nacional desequilibrada e Emilly a rematar um míssil (10′).

Só mesmo depois da desvantagem houve mais Portugal na frente, com Bianca a evitar por duas vezes o golo da igualdade de Maria Pereira e Janice (11′) antes da melhor oportunidade nacional no primeiro tempo, com Lídia Moreira a ganhar em zona adiantada, a isolar Ana Azevedo em zona central e a ver o remate da capitã ser travado pela rápida saída da baliza da guarda-redes brasileira (14′). Houve ainda um lance com polémica à mistura, com todas as jogadoras portuguesas a ficarem a pedir um penálti sobre Janice por agarrão na área que não foi ao VAR porque a Seleção já tinha esgotado o seu pedido de intervenção, mas a quinta falta de Ana Azevedo sobre Amandinha a três minutos do intervalo fez com que as linhas defensivas fossem descendo um pouco para evitar o risco de uma infração que levasse a um livre de dez metros. Mais uma vez, brilhou Ana Catarina na baliza, a impedir o golo de Amandinha num desvio feito ao segundo poste (19′).

Estava tudo em aberto mas o Brasil voltou a entrar melhor no segundo tempo, com Amandinha a aumentar a vantagem numa segunda bola ganha na área já depois de nova grande intervenção de Ana Catarina a um livre em posição frontal de Emilly (23′). Esse 2-0 logo a abrir podia desequilibrar a equipa nacional mas nem por isso a Seleção deixou de ir à procura do golo que permitisse reentrar na discussão, de novo com Bianca a tirar o golo a Kika num remate de meia distância (25′). Ainda houve um penálti “anulado” pelo VAR por falta sobre Ana Azevedo e um pedido de penálti via VAR sem sucesso de Portugal entre uma exibição fabulosa de Ana Catarina na baliza a impedir os remates de Emilly e Ana Luiza, antes de Portugal arriscar o 5×4 com Fifó no papel de guarda-redes avançada e o Brasil aumentar a vantagem de baliza aberta, com Vanin a recuperar a bola na área, a ganhar espaço e a atirar longo para o 3-0 que fechou em definitivo a final (38′).