Os líderes de várias povos indígenas do Canadá receberam um espólio de artefactos culturais que pertenciam a comunidades como os Inuítes, os Métis e as Primeiras Nações, mas estavam na posse do Vaticano há mais de um século. Entre os 62 itens que estes líderes acolheram este sábado no aeroporto Pierre Elliott Trudeau, em Montereal, estava um caiaque de pele de foca fabricado por inuítes.

Além deste, não se conhece que outros artefactos fazem parte do espólio enviado para o Canadá, sendo que ainda não existe um inventário oficial das peças. Os itens serão agora examinados pelos especialistas do Canadian Museum of History em Gatineau, no Quebec, antes de os líderes indígenas lhes poderem atribuir novos lares.

“Estamos ansiosos para poder desembalar os itens nos próximos dias e fazer com que os líderes e especialistas inuítes entendam exatamente de onde esses itens vêm, dentro de cada uma das nossas comunidades, e compartilhar esse conhecimento não apenas com os inuítes canadianos, mas também com todo o Canadá”, disse numa conferência de imprensa Natan Obed, presidente da Inuit Tapiriit Kanatami, que representa mais de 65.000 indígenas desta comunidade.

Esta foi a “conclusão da viagem” de mais de três anos “iniciada pelo Papa Francisco” e concluída por Leão XIV, nas palavras do próprio. Em novembro, após um encontro com representantes da Igreja do Canadá, o atual Papa elogiava todo o processo, esperando que esta “prenda“, que foi oficialmente recebida pela Conferência Canadiana dos Bispos Católicos, represente “um sinal concreto de diálogo, respeito e fraternidade”.

O Papa Leão mencionou também a viagem de Francisco ao Canadá em 2022 na qual este se encontrou com comunidades indígenas após representantes das mesmas o terem visitado em Roma para denunciar abusos sofridos por indígenas em escolas canadianas na tutela da Igreja, durante o século passado. A visita do anterior Papa seria descrita pelo próprio como uma “peregrinação penitenciária” na qual pediu desculpa pelo “mal cometido por tantos cristãos contra as pessoas indígena”.

A entrega dos artefactos foi assinalada como um “momento importante e emocionante para muitas comunidades pertencentes às Primeiras Nações em todo o país”, disse a chefe nacional deste grupo de indígenas Cindy Woodhouse Nepinak. Contudo, admitiu que as feridas ainda não foram todas saradas. “Já percorremos um longo caminho e ainda temos um longo caminho para percorrer”.

Isto porque mesmo a forma como o Vaticano lidou com os artefactos não passou sem levantar algumas dúvidas. O professor assistente de História e Estudos Indígenas na Western University Cody Groat disse à CNN Internacional que é “altamente contestável” que a devolução dos artigos em causa sejam “uma prenda”. Aliás, a versão da Santa Sé sobre aquilo que aconteceu aos artefactos é vivamente contestada. Ao anunciar a devolução dos itens, o Papa Leão escreveu que estes foram doados ao Papa Pio XI, em 1925, para fazerem parte de uma exposição sobre a influência da Igreja em todo o mundo.

Os representantes das comunidades indígenas e alguns académicos contestam esta realidade, tendo dificuldade em desligar o envio de bens a Roma do contexto em que aconteceu. Nessa altura, foram promovidas políticas no Canadá, secundadas pela Igreja, que tinham como objetivo eliminar ou branquear a identidade indígena. Ainda assim, Cody Groat admite ser “promissor” ver o Papa Leão a tomar medidas “tão significativas tão cedo no seu papado”, acrescentando que espera que este “prepare o terreno para um restabelecimento das relações entre a Igreja Católica e os povos indígenas, tanto no Canadá como a nível global”.